Fim da escala 6×1, disputa apertada e caso Master agitam reta final da eleição
Senado aprova redução da jornada de trabalho por 75 votos a 1; Datafolha aponta empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro; TSE determina tratamento igualitário da Meta às campanhas, enquanto acusações envolvendo Daniel Vorcaro alimentam a disputa política
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A aprovação do fim da escala 6×1, a disputa presidencial acirrada, os questionamentos sobre a atuação das plataformas digitais e os novos desdobramentos do caso Banco Master concentraram as atenções da política brasileira nesta semana. A dez dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, os quatro temas passaram a ocupar lugar central nas estratégias de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), em uma campanha na qual direitos trabalhistas, economia, corrupção e credibilidade das instituições se misturam à disputa por votos.
A semana teve uma conquista importante para os trabalhadores: o Senado aprovou, por ampla maioria, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal sem corte salarial. Ao mesmo tempo, a nova pesquisa Datafolha mostrou uma disputa dentro da margem de erro, enquanto uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impôs à Meta a obrigação de assegurar tratamento igualitário às duas candidaturas.
Já o caso Banco Master, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, continuou a produzir acusações e respostas das campanhas. Lula passou a explorar as relações de Flávio com o empresário, enquanto o candidato do PL tenta associar o escândalo ao presidente.
Fim da escala 6×1: vitória dos trabalhadores e disputa eleitoral
O Senado aprovou na quarta-feira (14), em dois turnos, a PEC 221/2019, que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. Foram 75 votos favoráveis e apenas um contrário em cada turno: o do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS). A proposta prevê dois dias de descanso remunerado por semana, com implementação gradual.
O texto estabelece que o limite semanal passe a 42 horas após 60 dias da promulgação e chegue a 40 horas depois de mais 12 meses. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), anunciou que a promulgação deverá ocorrer nesta sexta-feira (16).
A conquista é resultado de uma mobilização que ganhou força a partir do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), iniciado em 2023 por Rick Azevedo, então trabalhador do comércio e hoje deputado federal eleito pelo PSOL-RJ. Em vídeo divulgado após a votação, Lula celebrou o resultado e atribuiu a conquista à mobilização popular.
“Foi um momento extraordinário para o povo brasileiro. Eu tenho certeza que uma conquista como essa jamais será revogada porque não foi uma conquista burocrática. Foi uma conquista que saiu da rua e do desejo histórico do trabalhador”, afirmou.
A proposta também se tornou um dos principais pontos de atrito entre as campanhas presidenciais. Flávio Bolsonaro, que havia criticado a iniciativa e classificado sua votação em período eleitoral como “oportunista”, acabou votando favoravelmente à PEC, de forma remota. Antes da votação, declarou: “A maioria dos trabalhadores brasileiros querem o fim da 6×1, então vou votar a favor”.
Apesar do voto favorável, o senador defende uma alternativa de jornada flexível por horas trabalhadas, vinculada a uma proposta do senador Rogério Marinho (PL-RN). A formulação é criticada pelo governo e por defensores da PEC por permitir, em determinadas modalidades, que a redução da jornada seja acompanhada de redução salarial.
A mudança de posição de Flávio foi explorada pela campanha petista, que o acusa de ter recuado diante da popularidade da medida. O candidato do PL, por sua vez, questionou a oportunidade da votação e os custos para as empresas.
Datafolha mostra empate técnico entre Lula e Flávio
A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (15) confirmou o acirramento da disputa presidencial. Flávio Bolsonaro aparece com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o resultado configura empate técnico.
Nos votos totais, que incluem brancos, nulos e indecisos, o senador registra 47%, enquanto o presidente tem 45%. Na rodada anterior do instituto, Flávio tinha 52% dos votos válidos e Lula, 48%, o que representa uma redução numérica da diferença entre os dois candidatos.
O levantamento ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios, entre 13 e 14 de outubro, antes da aprovação da PEC do fim da escala 6×1, de modo que seus resultados não medem o eventual impacto eleitoral da votação.
O Datafolha também apontou diferenças entre os segmentos sociais. Lula mantém vantagem entre eleitores de menor renda e no Nordeste, enquanto Flávio apresenta desempenho mais forte no Sul e entre os evangélicos.
TSE determina que Meta trate Lula e Flávio de forma igualitária
A disputa também se intensificou no ambiente digital. Na quinta-feira (15), o ministro do TSE Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta, empresa responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp, assegure tratamento igualitário às campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. Em caso de descumprimento, a decisão prevê multa diária de R$ 500 mil.
A medida atendeu a uma iniciativa da campanha petista, que denunciou diferenças no funcionamento das ferramentas de inteligência artificial da empresa. Segundo as reclamações, a Meta AI recusava pedidos para gerar imagens favoráveis a Lula enquanto aceitava solicitações semelhantes relacionadas a Flávio.
A decisão estabelece que a empresa aplique critérios uniformes às duas candidaturas e não reduza de maneira desigual a distribuição de conteúdos políticos, não restrinja buscas ou remova publicações de modo a produzir desequilíbrio eleitoral. Também determina medidas relacionadas à identificação de conteúdos gerados por inteligência artificial e à transparência dos critérios aplicados.
A Meta alegou que segue suas regras e atribuiu os problemas relatados a questões técnicas. A existência de diferenças no funcionamento das ferramentas, por si só, não comprova favorecimento deliberado, mas a decisão do TSE procura impedir que eventuais falhas produzam vantagens indevidas em uma disputa eleitoral.
O caso expõe o peso das grandes plataformas na circulação de informações políticas. Em uma eleição marcada pela disputa nas redes sociais, decisões automatizadas sobre criação, busca, alcance e remoção de conteúdos podem afetar a visibilidade das candidaturas. A exigência de isonomia, nesse contexto, busca assegurar condições equivalentes de participação.
A determinação também amplia a pressão sobre as empresas de tecnologia para que expliquem seus critérios de moderação e respondam a questionamentos da Justiça Eleitoral. A fiscalização deve conciliar a prevenção de desequilíbrios e abusos com a proteção da liberdade de expressão.
Caso Master: acusações cruzadas entre as campanhas
O caso Banco Master voltou ao centro da disputa após a divulgação, na semana anterior, de um áudio atribuído a Daniel Vorcaro no qual o ex-banqueiro afirma ter financiado um documentário sobre Lula, dirigido por Oliver Stone e lançado em 2024.
A gravação foi divulgada pela revista Veja e passou a ser explorada politicamente pela oposição. A campanha petista negou as acusações, anunciou medidas judiciais e acusou Vorcaro de tentar interferir na disputa eleitoral em benefício de Flávio Bolsonaro.
A apuração do UOL, porém, apontou que as conversas extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal não continham menções ao suposto pagamento pelo documentário. O material apreendido abrangia o período em que a produção foi realizada.
Na segunda semana do segundo turno, Lula passou a explorar politicamente as relações de Flávio com Vorcaro. Em seu primeiro comício da nova etapa da campanha, em Ceilândia (DF), o presidente criticou as conexões do adversário com o ex-banqueiro e associou o caso a questionamentos sobre a atuação de aliados da direita.
Flávio, por sua vez, tenta direcionar o debate para as supostas relações entre Vorcaro e o presidente. Sua campanha pediu que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, apurasse possíveis vínculos, com base em informações divulgadas sobre o ex-banqueiro.
O episódio também tem uma dimensão que envolve o próprio candidato do PL. Flávio foi associado à investigação conhecida como Dark Horse, relacionada à suspeita de solicitação de recursos privados para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.
Na quinta-feira (15), Vorcaro prestou depoimento à Polícia Federal sobre a operação que investiga suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Segundo informações divulgadas pela defesa, ele afirmou que a operação policial provocou uma crise reputacional no BRB e negou prejuízos à instituição e a seus clientes.
A defesa declarou que Vorcaro considera que a investigação envolveu o banco em um “enredo falso de suposta fraude bilionária”. Auditoria independente identificou indícios de irregularidades em carteiras adquiridas pelo BRB, enquanto a investigação busca esclarecer a origem dos créditos e eventuais responsabilidades.