Lula vence com virada histórica
Lula vence

Lula vence com virada histórica

Presidente reverte desvantagem do primeiro turno após onda de mobilização nas ruas e nas redes sociais, maior comparecimento às urnas e reorganização da campanha; novo mandato começa sob pressão de uma oposição fortalecida no Legislativo

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmada neste domingo (25), marca uma virada inédita nas eleições presidenciais brasileiras. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o presidente conquistou 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do adversário, segundo os resultados divulgados pela imprensa brasileira. A vitória garante a Lula um quarto mandato presidencial e foi construída em uma disputa marcada pela polarização política, pela mobilização popular e pela intensificação da batalha nas redes sociais. 

O resultado não se explica por um único fator. A reação do campo progressista na reta final, a ampliação da participação eleitoral, a reorganização das estratégias de campanha e a capacidade de mobilizar eleitores preocupados com a possibilidade de uma nova Presidência da família Bolsonaro contribuíram para reverter a vantagem conquistada pela extrema direita no primeiro turno.

A vitória, contudo, não elimina as contradições políticas do país. Embora Lula tenha conseguido reunir votos suficientes para vencer a disputa nacional, o Congresso eleito mantém uma composição majoritariamente conservadora, o que deverá impor obstáculos à aprovação de medidas sociais, econômicas e ambientais e à implementação de parte do programa defendido pelo presidente.

A reação das ruas e das redes virou o jogo

A mobilização social foi um dos principais elementos da virada. A reação de apoiadores de Lula ganhou força depois do primeiro turno, quando parte da esquerda passou a atuar de maneira mais intensa para disputar votos, enfrentar a desinformação e impedir a vitória de Flávio Bolsonaro. Grandes atos em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro surpreenderam até integrantes da campanha petista. 

Nas redes sociais, o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), tornou-se um dos símbolos dessa mobilização. A iniciativa chegou a quase 11 milhões de participantes, segundo a Agência Pública, e apostou na circulação de mensagens e conteúdos compartilhados diretamente entre usuários, ampliando o alcance da campanha para além dos canais oficiais. 

A pesquisadora Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de Pesquisa MIDIARS, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), destacou a importância dessa dinâmica.

“O trabalho de formiguinha das pessoas para os seus grupos, das pessoas para as suas redes, é muito importante”, afirmou à Agência Pública.

A pesquisadora também avaliou que o receio de uma vitória do candidato do PL teve papel relevante no engajamento.
“O que mobilizou foi a emoção, o medo de uma vitória de Flávio Bolsonaro [PL]. Não existe comparação com a campanha do primeiro turno. Foi uma campanha muito mais abrangente, digital, que chegou muito mais nas pessoas”, disse. 

A movimentação digital se combinou com a presença nas ruas, a participação de lideranças políticas e o engajamento de militantes, jovens e setores da sociedade civil. A campanha também modificou sua estratégia, ampliando o espaço de interlocutores como Camilo Santana e Rafael Fonteles e dando maior centralidade à disputa direta com Flávio Bolsonaro.

No segundo turno, Lula passou a enfatizar os riscos que atribuía às propostas econômicas do adversário, especialmente os possíveis efeitos de cortes de gastos sobre direitos sociais, além de explorar a rejeição à família Bolsonaro. A estratégia contribuiu para transformar a disputa em uma mobilização que ultrapassou a estrutura formal da campanha. 

Menos abstenções e mais participação eleitoral

Outro dado importante foi a redução expressiva da abstenção. Oíndice caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, o menor percentual registrado em um segundo turno presidencial desde 2006. Cerca de três milhões de pessoas que não haviam votado na primeira etapa compareceram às urnas no domingo. 

Mais de 128,1 milhões de brasileiros votaram no segundo turno. Os votos brancos e nulos também recuaram: somaram 3,24%, ante 4,77% no primeiro turno. A redução simultânea das ausências e dos votos inválidos ampliou o contingente de eleitores que participou efetivamente da decisão presidencial. 

A mobilização foi especialmente expressiva em estados do Nordeste. Na Bahia, a abstenção caiu de 19,97% para 16,71%; em Pernambuco, passou de 18,17% para 15,18%. Lula venceu nos dois estados com 71,31% e 69,2% dos votos válidos, respectivamente. A queda da abstenção, porém, não ocorreu de maneira uniforme: o índice aumentou em nove estados e diminuiu em 18. 

Os números não permitem atribuir todos os novos comparecimentos a um único campo político. Ainda assim, a coincidência entre o aumento da participação, a mobilização da reta final e a vitória de Lula reforça a importância da disputa pela presença dos eleitores nas urnas.

A operação para estimular o comparecimento também enfrentou dificuldades concretas. Problemas no transporte público em municípios de diferentes estados, além de chuvas intensas em algumas regiões, prejudicaram o deslocamento de eleitores. A votação chegou a ter o horário ampliado até as 19h por decisão da Justiça, após pedidos relacionados às dificuldades logísticas. 

Lula promete ampliar a participação popular

Na comemoração da vitória, na Avenida Paulista, em São Paulo, Lula reconheceu a importância da mobilização social e agradeceu especialmente aos jovens, às mulheres, aos educadores e aos defensores de direitos trabalhistas.

“Devo essa vitória à juventude rebelde que se levantou em defesa da democracia. Eu devo essa vitória às mulheres que se rebelaram contra o feminicídio. Eu devo às pessoas que acreditam que o fim da escala 6 por 1 é um benefício para a sociedade brasileira”, declarou o presidente reeleito. 

O discurso dialogou com pautas que mobilizam o campo progressista, entre elas a redução da jornada de trabalho, a defesa da educação pública e o combate à violência contra as mulheres. Ao mencionar o fim da escala 6×1, Lula também reconheceu a relevância de uma reivindicação que ganhou espaço na agenda nacional por meio da atuação de movimentos sociais e parlamentares, entre eles os do PSOL.

O presidente prometeu mudanças na condução do governo e maior participação da população nas decisões. “Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões”, afirmou. Também anunciou que a comunicação digital terá maior espaço na relação entre governo e sociedade. 

Lula ainda defendeu a regulamentação das plataformas digitais, alegando que a atuação dessas empresas precisa ser submetida a regras democráticas. “É uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las”, declarou, segundo a Agência Brasil. 

A declaração aponta para um dos desafios do próximo mandato: enfrentar a circulação de desinformação e discutir a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia sem comprometer a liberdade de expressão e o debate público.

Um quarto mandato sob pressão de um Congresso mais à direita

A vitória nas urnas não se traduz automaticamente em força parlamentar. Lula assumirá o novo mandato diante de um Congresso ainda mais alinhado à direita, com o PL ampliando sua presença na Câmara dos Deputados e no Senado.

O PL conquistou 23 cadeiras a mais na Câmara e 13 no Senado em comparação com a composição anterior. PT, PSOL e PCdoB mantiveram suas vagas ou registraram crescimento moderado. 

A nova configuração tende a dificultar a aprovação de propostas relacionadas à ampliação de direitos sociais, à tributação dos mais ricos, à proteção ambiental e ao fortalecimento dos serviços públicos. O governo também terá de lidar com disputas por orçamento, emendas parlamentares e cargos, além da resistência de setores conservadores a mudanças na legislação trabalhista e nos direitos das minorias.

O cientista político Juliano Corbellini, ouvido pelo Correio do Povo, resumiu o problema: 

“O Lula terá dificuldade de lidar com esse Congresso e Senado, que parecem ter uma coesão ideológica da direita mais marcante”. O especialista destacou ainda o papel do Centrão, cuja posição poderá ser decisiva para a governabilidade. 

A vitória eleitoral, portanto, não encerra a disputa política. Para aprovar suas propostas, o governo precisará negociar com forças que não compartilham integralmente seu programa e, ao mesmo tempo, manter uma base social capaz de defender as medidas de interesse popular.

Nesse contexto, a mobilização demonstrada no segundo turno poderá ter importância para além da eleição. O desafio será transformar o engajamento concentrado na campanha em participação política contínua, capaz de pressionar o Congresso e sustentar reivindicações sociais.

O especialista em Ciência Política e Relações Internacionais Gabriel Adam, também ouvido pelo Correio do Povo, ressaltou que a mobilização popular pode influenciar as decisões parlamentares. 

“Quando a população compreende o cenário de disputa, o que está sendo colocado em jogo, consegue fazer uma pressão muito grande”, afirmou. 

A vitória abre uma nova etapa da disputa política

A reeleição de Lula demonstra que a vantagem conquistada no primeiro turno não era irreversível. A combinação de mobilização presencial, organização digital, mudança de estratégia e maior participação eleitoral permitiu ao presidente superar a desvantagem inicial e conquistar mais um mandato.

O resultado também evidencia os limites da disputa presidencial isolada da composição do Legislativo. A esquerda venceu a eleição nacional, mas terá de enfrentar uma oposição parlamentar fortalecida e uma sociedade que permanece politicamente dividida.

O próximo mandato será marcado, assim, por uma dupla exigência: transformar os compromissos assumidos durante a campanha em políticas concretas e preservar a capacidade de mobilização que ajudou a produzir a virada eleitoral. A força demonstrada nas ruas e nas redes será um ativo político importante, mas sua influência dependerá da continuidade da organização popular e da capacidade de converter apoio social em conquistas efetivas.


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