Presidente por decreto próprio
Fuga de Flávio Bolsonaro rumo aos EUA

Presidente por decreto próprio

Após se declarar, “verdadeiro presidente eleito” em carta, senador recuou e se autointitulou “líder do Brasil”; reação de aliados, críticas de Tarcísio e resposta evasiva de Trump expõem disputa pelo comando da oposição

Tatiana Py Dutra 29 out 2026, 09:08

Foto: Montagem de IA

A derrota nas urnas não impediu Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de tentar uma espécie de posse por conta própria. Na quarta-feira (28), já nos Estados Unidos, o senador divulgou uma carta em que se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, acusou adversários de terem “roubado” a eleição e voltou a alegar fraude sem apresentar provas. A reação foi tão turbulenta dentro do próprio campo bolsonarista que, pouco depois, a palavra “presidente” deu lugar a “líder”. A democracia brasileira ganhou, assim, um novo título autoproclamado – com direito a revisão editorial em tempo recorde.

O documento, distribuído inicialmente por aliados e depois publicado pelo próprio senador nas redes sociais, teve ao menos quatro versões. Além da troca de palavras, uma das primeiras versões trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, grafia histórica que não corresponde ao nome oficial atual do país. A carta foi corrigida tanto no símbolo quanto na forma como Flávio se apresentava. 

Na primeira versão, o senador escreveu: “Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Também afirmou: “Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania”.

A versão seguinte substituiu “presidente eleito” por “líder do Brasil”. O restante do discurso, porém, manteve acusações contra o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o resultado das urnas. Até o momento, Flávio não apresentou provas que sustentem a alegação de fraude.

O TSE confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. A diferença foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos. O resultado foi reconhecido pelo próprio PL, embora o partido tenha defendido que questionamentos apresentados fossem esclarecidos. 

Nem os aliados compraram a carta inteira

A tentativa de contestar a eleição provocou desconforto entre lideranças da direita que, até poucos dias antes, haviam participado da campanha de Flávio. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, procurou separar a posição pessoal do candidato da posição oficial do partido.

“Acredito que deve ter havido algum problema na confecção da carta”, afirmou Marinho, ao comentar a alteração do documento. Sobre as acusações de fraude, foi mais direto: “O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há provas nesse sentido”.

A declaração evidencia o problema político criado pelo texto: enquanto Flávio insiste em questionar a legitimidade do resultado, parte dos seus aliados procura preservar o reconhecimento institucional da eleição e evitar que o partido seja associado a uma nova tentativa de deslegitimar as urnas.

O pastor Silas Malafaia, apoiador da família Bolsonaro, também reagiu de forma contundente. Segundo relato publicado pela imprensa, ele escreveu em mensagem privada: 

“Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige”. 

A manifestação revela que as divergências não se limitam aos adversários políticos da família: alcançam também integrantes de sua própria rede de apoio. Outros aliados compartilharam a carta, enquanto dirigentes e políticos de perfil mais institucional se distanciaram das acusações sem provas. A reação foi menos uma adesão unificada ao discurso do senador do que uma exposição pública das diferenças sobre como conduzir a oposição depois da derrota.

Tarcísio entra no espaço deixado pela família Bolsonaro

A crise também reabriu a disputa pelo comando da direita. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que apoiou Flávio durante a campanha, defendeu o respeito ao resultado eleitoral e afirmou que a oposição deveria voltar a discutir os rumos do país.

“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, declarou.

A manifestação marca uma diferença em relação à estratégia de Flávio. Tarcísio reconhece a derrota e procura se apresentar como liderança que atua dentro das instituições, enquanto o senador anuncia que pretende comandar a oposição de fora do país. O governador de São Paulo, o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e partidos como União Brasil, MDB e PSDB também se distanciaram da contestação expressa na carta.

A disputa não surgiu do nada. Antes da definição de Flávio como candidato, Tarcísio era citado por setores da direita como alternativa presidencial. A escolha de mais um integrante da família Bolsonaro havia deixado em segundo plano essa possibilidade. Agora, com Flávio nos Estados Unidos e Eduardo Bolsonaro também fora do país, aliados voltaram a discutir uma reorganização das lideranças conservadoras.

A avaliação é que Tarcísio pode ganhar espaço como articulador nacional, enquanto nomes do Senado e da Câmara tentam preservar influência sobre a oposição. Isso não significa que o bolsonarismo tenha desaparecido ou que a sucessão esteja definida: a família ainda dispõe de uma base eleitoral expressiva, e o peso político de cada liderança dependerá dos próximos movimentos. 

O pastor Silas Malafaia resumiu a disputa em uma frase: “O protagonismo agora é do Tarcísio”, segundo relato publicado pelo UOL. A declaração sinaliza que, para parte da direita, a sucessão política já está em discussão – embora a família Bolsonaro continue tentando preservar sua centralidade.

Trump não reconhece o presidente autoproclamado

A carta também buscou apoio internacional. Flávio agradeceu ao presidente argentino Javier Milei e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela acolhida e pelo apoio que afirmou ter recebido. Mas, quando questionado sobre a autoproclamação do senador, Trump evitou endossá-la.

“Eu não vou comentar sobre isso, mas eu sei que nós autorizamos a entrada dele no país. Então, veremos”, disse o presidente norte-americano. Em seguida, voltou a lançar dúvidas sobre a eleição brasileira, sem apresentar provas: “Não vou me envolver, mas isso foi uma eleição muito estranha. Isso é certeza”.

A resposta foi ambígua: Trump voltou a questionar o processo eleitoral, mas não reconheceu Flávio como presidente eleito e declarou que não pretendia se envolver na disputa política brasileira. A fala também veio depois de o senador agradecer publicamente ao republicano por sua entrada nos Estados Unidos.

A postura contrasta com a expectativa de que a proximidade com Trump pudesse dar sustentação internacional à contestação de Flávio. Por ora, o presidente dos Estados Unidos não endossou a reivindicação de legitimidade apresentada na carta.

Foto: Montagem de IA

A disputa continua – mas a eleição já terminou

A tentativa de Flávio de se apresentar como “verdadeiro presidente eleito” durou pouco na forma original. A autoproclamação virou “liderança”; o brasão precisou de correção; e aliados que o acompanharam na campanha passaram a defender, em público, o respeito ao resultado das urnas. O texto, no entanto, manteve as acusações contra as instituições eleitorais.

A questão que se abre para a direita não é apenas quem falará em nome da oposição, mas qual estratégia será adotada após a derrota: insistir na contestação sem provas do resultado ou reorganizar a atuação política a partir do reconhecimento da eleição. Tarcísio, Marinho e outras lideranças sinalizaram distância da carta, enquanto Flávio anunciou que pretende conduzir a oposição a partir dos Estados Unidos.

A disputa pela liderança está em curso. A presidência da República, porém, não se define por carta, brasão ou edição de última hora nas redes sociais: o resultado oficial continua sendo aquele proclamado pela Justiça Eleitoral.


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