Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Por que é que a unificação das Alemanhas destruiu o futebol do lado Oriental?

Por que atualmente o futebol alemão é dominado por jogadores e clubes oriundos do lado Ocidental?

Os capitães Bernd Bransch, da Alemanha Oriental, e Franz Beckenbauer, da ocidental, em 1974 - Reprodução
Os capitães Bernd Bransch, da Alemanha Oriental, e Franz Beckenbauer, da ocidental, em 1974 - Reprodução

A Alemanha é uma potência do futebol. No entanto, apenas um jogador da seleção que está a competir no Campeonato do Mundo, o médio Toni Kroos, veio da Alemanha Oriental.

Por um período de mais de 40 anos durante o século 20, a Alemanha esteve dividida em dois países separados, Oriental e Ocidental. Mas já se passaram 30 anos desde que a reunificação aconteceu, e qualquer um poderia achar que as disparidades regionais diminuíram. Então por que é que atualmente o futebol alemão é tão dominado por jogadores e clubes oriundos do lado Ocidental? E o que diz este desequilíbrio sobre o estado da reunificação alemã?

Durante a guerra fria, dos anos 1940 até outubro de 1990, a Alemanha Ocidental capitalista foi aliada dos Estados Unidos da América, enquanto a comunista Alemanha Oriental era aliada da União Soviética. Após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, as potências vitoriosas desmantelaram todas as organizações desportivas do país.

Alguns anos depois, o governo da Alemanha Oriental reintroduziu o futebol amador como parte do programa de educação física no trabalho nas grandes cooperativas controladas pelo Estado que surgiram após a estatização da economia. Enquanto isso, no início dos anos 1960, uma liga de futebol profissional, a Bundesliga, era criada no lado Ocidental.

Diferentemente do que acontecia na sua correspondente Ocidental, cujos clubes funcionavam como empresas comerciais, os clubes da Alemanha Oriental eram organizações fortemente controladas pelo Estado socialista. O governo da Alemanha Oriental investiu realmente no desporto. Mas eles priorizavam os atletas olímpicos do país, não os clubes de futebol.

Alguns clubes de futebol alemães orientais, como o 1. FC Magdeburg, conquistaram considerável sucesso em competições internacionais. O auge do futebol do país foi o golo de Jürgen Sparwasser que deu a vitória à Alemanha Oriental contra a Ocidental durante o Campeonato do Mundo de 1974. A Alemanha Ocidental perdeu em casa. A maioria dos alemães orientais acima dos 50 é capaz de dizer exatamente onde estava quando viu esse golo; é o “momento Kennedy” da sua geração.

Para poder competir com clubes internacionais da Europa Ocidental capitalista que podiam contratar jogadores do mundo todo, os clubes alemães orientais investiram em operações de recrutamento locais e em academias de futebol, que identificavam e cultivavam o talento doméstico. Muitos destes jogadores amadureceram justamente no momento da reunificação do país.

No verão de 1990, nove meses após a queda do muro de Berlim, a seleção alemã – inteiramente composta por alemães ocidentais – ganhou o Campeonato do Mundo de Itália. Como as associações de futebol do Ocidente e do Oriente ainda não se haviam tornado uma só, nenhum jogador alemão oriental esteve em campo durante o torneio.

Após o jogo, o treinador Franz Beckenbauer orgulhosamente previuque a futura vinda de jogadores do lado Leste do rio Elba tornaria a seleção da Alemanha unificada imbatível por anos. Beckenbauer estava certo? Ja und nein.

A equipa da Alemanha unificada certamente não se tornou imbatível durante os anos 1990. No entanto, os jogadores da Alemanha Oriental de facto juntaram-se aos seus pares alemães ocidentais na seleção. Na verdade, apenas 9 dos 20 jogadores da seleção de 2002tinham raízes ocidentais.

Os alemães orientais que jogaram na equipa da Alemanha unificada nas duas décadas após a reunificação nasceram todos entre a metade dos anos 1960 até o final dos 1970. Todos tinham sido descobertos e treinados pelos programas de desenvolvimento de jovens da Alemanha Oriental.

O que aconteceu? Por que – com a exceção de Kroos – nenhum destes jogadores da atual seleção alemã vem da parte Leste do país? A resposta está na economia. Após a queda do muro de Berlim, os melhores jogadores orientais juntaram-se imediatamente aos clubes do lado Ocidental que lhes podiam pagar salários mais altos. Ao mesmo tempo, como aconteceu com as economias de outros países ex-soviéticos que fizeram a transição do comunismo para o capitalismo, a rápida reorganização da economia da Alemanha Oriental levou ao colapso indústrias inteiras.

Os clubes da Alemanha Oriental sentiram o golpe. Nem um só clube do lado Oriental conseguiu estabelecer uma presença permanente na Bundesliga, a primeira divisão alemã. Sem receber subsídios governamentais e incapazes de obter dinheiro de acordos com a televisão e parceiros privados como a sua irmã Ocidental, os clubes orientais foram forçados a reduzir radicalmente as suas escolas de formação.

Kroos naturalmente é o ponto fora da curva. Mas ele deve pouco aos clubes de futebol da Alemanha Oriental. O seu pai, Roland Kroos, foi treinador de futebol. Roland não só identificou o potencial do filho, como foi capaz de desenvolver os talentos do seu miúdo. Quando Kroos era adolescente, o seu pai colocou-o na academia de um dos mais exitosos impérios do futebol, o Bayern de Munique. Foi no Ocidente que Toni – apelidado pelo pai de “projeto familiar”– amadureceu como jogador antes de se transferir para o Real Madrid, onde joga quando não está na seleção.

Hoje, o domínio do Ocidente no futebol alemão simboliza as divisões económicas do país. Como muitas outras indústrias, o futebol da Alemanha Ocidental ficou à frente após a unificação. O desequilíbrio geográfico no futebol alemão é emblemático das não admitidas desigualdades económicas entre Oriente e Ocidente que persistem até hoje.

Reprodução da tradução disponível em esquerda.net.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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