El Niño expõe fragilidade climática das cidades brasileiras
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El Niño expõe fragilidade climática das cidades brasileiras

Maioria dos municípios não está preparada para enfrentar enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos agravados pela crise climática

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Uma nova temporada de eventos climáticos extremos se aproxima do Brasil sob um cenário de vulnerabilidade generalizada. Com a confirmação do El Niño pela agência meteorológica norte-americana NOAA, , nesta quinta-feira (11), especialistas alertam que milhares de municípios brasileiros seguem sem estrutura adequada para prevenir ou responder a enchentes, alagamentos e deslizamentos, fenômenos que já provocaram tragédias de grandes proporções em diferentes regiões do país nos últimos anos.

Dados da plataforma AdaptaBrasil, desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que 3.668 municípios brasileiros (66%) apresentam baixa ou baixíssima capacidade de adaptação a inundações e alagamentos. Em relação aos deslizamentos, o quadro é ainda mais grave: 3.736 cidades (67%) registram indicadores insuficientes para responder a esse tipo de desastre.

O diagnóstico ganha contornos dramáticos diante da sucessão de tragédias climáticas registradas no país nos últimos anos. Entre 2023 e 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou enchentes históricas que deixaram centenas de mortos, milhares de desabrigados e prejuízos bilionários. Na Bahia, em Pernambuco, em Petrópolis (RJ), no litoral norte de São Paulo e em diversas outras regiões, chuvas intensas provocaram mortes, destruição de moradias e colapso de serviços públicos. Especialistas apontam que esses eventos, antes considerados excepcionais, tendem a se tornar mais frequentes e intensos em razão do aquecimento global.

A situação é particularmente preocupante na região Sul, que costuma registrar os impactos mais severos do El Niño. Segundo o levantamento, 343 municípios sulistas acumulam indicadores de baixa capacidade adaptativa tanto para enchentes quanto para deslizamentos. Apenas no Rio Grande do Sul são 158 cidades nessa condição.

“O Brasil como um todo não está preparado para o que um super El Niño pode acarretar”, afirmou Francinelli Francisco, pesquisadora do Inpe e gestora da plataforma AdaptaBrasil à Folha de S.Paulo.

Além da insuficiência estrutural dos municípios, especialistas criticam a falta de investimentos robustos em adaptação climática. Embora o governo federal destaque iniciativas de monitoramento, sistemas de alerta e obras de prevenção, os recursos destinados especificamente à contenção de encostas e drenagem urbana permanecem limitados diante da dimensão do problema. Dos mais de R$ 620 bilhões previstos no eixo “Cidades Sustentáveis e Resilientes” do Novo PAC, apenas R$ 22 bilhões estão reservados para obras diretamente relacionadas à prevenção de desastres naturais.

Para Roberto Kishinami, especialista em adaptação climática do Instituto Clima e Sociedade, o reconhecimento oficial da gravidade da situação é importante, mas insuficiente diante da urgência imposta pela crise climática. “Sabe quanto do R$ 1,3 trilhão do Novo PAC foi destinado para a mudança do clima? Zero”, criticou, em entrevista à Folha..

O próprio Plano Clima do governo federal identifica 1.942 municípios brasileiros como altamente suscetíveis a desastres geo-hidrológicos, com quase 9 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco. O dado evidencia que a crise climática deixou de ser uma ameaça futura para se tornar uma realidade concreta, especialmente para as populações mais pobres, que vivem em encostas, margens de rios e regiões historicamente negligenciadas pelo poder público.

Com a possibilidade de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses, especialistas alertam que a combinação entre mudanças climáticas, déficit de infraestrutura urbana e falta de planejamento pode ampliar ainda mais os impactos sociais e econômicos dos eventos extremos. Enquanto os fenômenos naturais se tornam mais intensos, a adaptação das cidades brasileiras segue avançando em ritmo insuficiente diante da emergência climática.


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