Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“Ideologia nazista”

Dizer que o nazismo era de esquerda falsifica a história, revela desonestidade e ignorância.

Cena de "O Triunfo da Vontade" de Leni Riefenstahl
Cena de "O Triunfo da Vontade" de Leni Riefenstahl

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, envergonha o Brasil no exterior. Dizer que o nazismo era de esquerda falsifica a história, revela desonestidade e ignorância. A esquerda pode e deve ser atacada pelos crimes de Stalin, não pelos de Hitler. Paulo César Casarin, colunista do UOL, fez o que todo bom jornalista ou historiador faz: foi à fonte. Numa entrevista de 1923, disponível desde 2007 na base do jornal The Guardian, Hitler deu o tom: “Socialismo é lidar com o bem comum. Comunismo não é Socialismo. Marxismo não é Socialismo. Os marxistas roubaram o termo e bagunçaram seu significado”. Sustentar o contrário hoje é mentir para tolos.

Para Hitler, socialismo nada tinha a ver com esquerdismo, que ele odiava: “O Marxismo não tem o direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada e, ao contrário do marxismo, é patriótico. Poderíamos ter nos denominado o Partido Liberal”. Precisa mais? A base do nazismo jamais pertenceu ao imaginário de esquerda: a raça como sistema de hierarquia social. Essa é uma ideologia da extrema-direita.

No seu livro abjeto, “Minha Luta”, Hitler indicou os principais inimigos descobertos na sua formação: “Foi durante esse período que meus olhos foram abertos a dois perigos cujos nomes eu mal conhecia e não tinha nenhuma noção de seu terrível significado para a existência do povo alemão. Estes dois perigos eram o marxismo e o judaísmo”. Quem era o monstro? “Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu, com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um necromante, aniquilar rapidamente a vida das nações livres da Terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça”.

Tudo tem a sua explicação no contexto das estratégias políticas: “Escolhemos o vermelho para nossos cartazes depois de uma deliberação especial e cuidadosa, nossa intenção era irritar a esquerda, de modo a despertar a atenção e tentar atraí-los às nossas reuniões – apenas para quebrá-los – para que, dessa forma, tivéssemos uma oportunidade de falar com essas pessoas”. Era só uma enganação marqueteira. Georg Witschel, embaixador da Alemanha no Brasil, ano passado, usou palavras compreensíveis para os “ignorancialistas”: “É uma besteira argumentar que o fascismo e o nazismo são movimentos da esquerda . Isso não é fundamentado, é um erro, é simplesmente uma besteira”. No fígado.

O “darwinismo” racial do nazismo não permite qualquer aproximação com o comunismo, uma ideologia que pretende, para bem ou para mal, enfrentar a lei do mais forte em favor dos mais vulneráveis. O irônico filósofo francês Jean Baudrillard, confrontado com essa polêmica, que sempre volta, debochava: “Se o nazismo era de esquerda, Hitler não ficou sabendo”. Talvez aqueles que hoje consideram o nazismo de esquerda queiram apenas sinalizar que estão à direita de Adolf Hitler. O Itamaraty já esteve mais bem representado. Uau!

Artigo originalmente publicado na edição do dia 02/04/2019 do jornal Correio do Povo. Extraído de:https://lucianagenro.com.br/2019/04/ideologia-nazista-por-juremir-machado-da-silva/

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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