A igreja que assustou mais do que os montros
A Bússula de Ouro

A igreja que assustou mais do que os montros

“A Bússola de Ouro” transformou uma fantasia juvenil numa das mais controversas adaptações de Hollywood ao colocar uma teocracia inspirada na Igreja Católica no centro da narrativa

Vanderlei Tenório 21 jul 2026, 08:48

Fotos: Divulgação

Quando A Bússola de Ouro estreou nos cinemas, em dezembro de 2007, o público encontrou um universo onde enormes dirigíveis cruzavam o céu como se o século XIX jamais tivesse terminado, crianças conversavam com animais que representavam suas próprias almas e ursos polares usavam armaduras para disputar o poder sobre o gelo do Ártico. Era um mundo de aparência vitoriana, movido por tecnologia sofisticada alimentada por âmbar e por uma ciência que coexistia com a religião. Tudo parecia saído de um conto fantástico.

Entretanto, não foram os ursos guerreiros, os zeppelins ou a misteriosa bússola capaz de revelar a verdade que despertaram a maior controvérsia em torno do filme. O verdadeiro protagonista do debate estava muito distante das sequências de ação. Era uma instituição: o Magistério.

Dentro da história criada pelo escritor britânico Philip Pullman, o Magistério representa uma poderosa organização religiosa que governa praticamente todos os aspectos da sociedade. No filme dirigido por Chris Weitz, essa presença aparece de maneira mais discreta do que nos romances, mas permanece suficientemente evidente para provocar uma reação internacional que extrapolou o universo do entretenimento. O Vaticano condenou a produção, organizações católicas promoveram campanhas de boicote e parte da imprensa religiosa classificou a obra como uma tentativa deliberada de incentivar o ateísmo entre crianças.

Curiosamente, a maior discussão em torno de A Bússola de Ouro dizia respeito a algo que o próprio filme suavizou em relação ao material original. O conflito religioso que atravessa os livros foi diluído na adaptação cinematográfica, numa tentativa de tornar a produção mais aceitável para o grande público. 

Ainda assim, bastou a existência do Magistério para transformar uma fantasia familiar numa das adaptações mais controversas da década. Poucos blockbusters contemporâneos despertaram tanta inquietação por causa de uma ideia política.

Um mundo parecido com o nosso, mas governado por outra história

A primeira impressão causada pelo universo de Lyra Belacqua é a de familiaridade. Há universidades, cidades movimentadas, governos, cientistas e aristocratas. As roupas lembram o início do século XX, enquanto a arquitetura mistura monumentalidade clássica com soluções que parecem pertencer ao futuro. Nada parece completamente estranho, embora tudo funcione de maneira diferente.

Nesse universo paralelo, cada ser humano nasce acompanhado por um daemon, um animal que representa sua alma e permanece ao seu lado durante toda a vida. Nas crianças, esses companheiros mudam constantemente de forma, refletindo uma identidade ainda em construção. Quando chega a idade adulta, assumem uma aparência definitiva, simbolizando a consolidação da personalidade. Essa simples invenção estabelece uma das regras mais importantes daquele mundo: corpo e alma não podem ser separados sem consequências devastadoras.

É justamente essa fronteira que o Magistério pretende atravessar. Enquanto cientistas independentes investigam uma misteriosa substância chamada Pó, considerada responsável pela consciência humana, a poderosa instituição religiosa interpreta essa mesma descoberta como uma ameaça moral. 

A conclusão é: controlar o Pó significa controlar o pensamento; controlar o pensamento significa preservar a ordem. A partir dessa lógica nasce um dos conflitos mais perturbadores da narrativa.

O Estado que substituiu a Igreja

Embora o filme utilize uma abordagem relativamente cautelosa, os livros de Philip Pullman não deixam margem para ambiguidades. O Magistério constitui uma versão alternativa da Igreja Católica Romana que, em determinado momento da história, deixou de dividir espaço com o poder civil e passou a concentrar praticamente todas as funções do Estado.

Segundo a cronologia criada pelo autor, antes de morrer, o Papa João Calvino transferiu a sede do papado para Gênova e criou o Tribunal Consistorial de Disciplina, fortalecendo enormemente a influência política da Igreja. Depois de sua morte, em 1564, o próprio tribunal aboliu o papado. Em seu lugar surgiu uma estrutura burocrática composta por diversos órgãos que, mais tarde, formariam o Magistério.

Não se trata de uma organização homogênea. Seus diferentes departamentos disputam espaço, influência e autoridade, embora compartilhem o mesmo objetivo: preservar a ortodoxia religiosa e impedir qualquer manifestação considerada perigosa para a estabilidade do sistema. Entre as instituições mencionadas na trilogia estão o Conselho Geral de Oblação, responsável por experimentos envolvendo crianças; o Tribunal Consistorial de Disciplina; a Sociedade da Obra do Espírito Santo; e o Colegiado dos Bispos, considerado o núcleo mais poderoso dessa engrenagem política. A religião continua presente, mas funciona, sobretudo, como fundamento da autoridade estatal.

Quando Deus governa através dos homens

Na prática, o universo imaginado por Pullman funciona como uma teocracia. Define-se esse tipo de regime como um sistema em que as decisões governamentais são justificadas pela vontade divina. Em teoria, a divindade ocupa a posição de chefe de Estado; na realidade, quem exerce o poder são líderes religiosos que afirmam agir em seu nome.

Esse modelo rompe completamente com o princípio do Estado laico. As leis deixam de nascer da deliberação política para adquirir um caráter sagrado. Contestar uma norma deixa de ser apenas uma discordância institucional e passa a representar uma afronta religiosa. É exatamente esse mecanismo que estrutura o poder do Magistério. A instituição controla os órgãos públicos, determina o conteúdo ensinado, acompanha pesquisas científicas, interfere nas universidades, fiscaliza a produção do conhecimento e mantém vigilância permanente sobre a população. Não existe imprensa livre e a oposição política praticamente desapareceu. Quem desafia o sistema enfrenta perseguições, prisões e, em alguns casos, a morte. Executivo, Legislativo e Judiciário tornam-se expressões de uma mesma autoridade. Nesse contexto, a fé deixa de ocupar exclusivamente o espaço espiritual e converte-se no próprio instrumento de governo.

Muito além da fantasia

A força da obra reside justamente no fato de que Pullman nunca apresenta o Magistério apenas como um grupo de vilões caricatos. Seu interesse parece estar menos na religião enquanto experiência pessoal e muito mais na maneira como instituições religiosas podem transformar-se em estruturas políticas quando concentram poder suficiente para controlar o pensamento coletivo.

Essa interpretação aparece de forma recorrente ao longo da trilogia e ajuda a explicar por que tantas organizações religiosas reagiram antes mesmo da estreia do filme. O receio não estava nas criaturas fantásticas nem na aventura protagonizada por Lyra. O desconforto surgia porque milhões de espectadores seriam apresentados a uma narrativa em que a principal força opressora possuía símbolos, linguagem, vestimentas e organização administrativa claramente inspirados na tradição da Igreja Católica. Era uma alegoria suficientemente reconhecível para gerar desconforto, ainda que Hollywood tivesse decidido amenizar boa parte das críticas presentes nos livros.

Enquanto o público descobria um universo de fantasia povoado por daemons, exploradores e ursos de armadura, outro debate começava a ganhar vida fora das telas. Nas redações, nos púlpitos e nas páginas do L’Osservatore Romano, a discussão já não dizia respeito aos efeitos especiais nem ao desempenho de Nicole Kidman ou Daniel Craig. A questão era outra: até onde uma obra de fantasia poderia ir ao transformar uma instituição religiosa em símbolo do autoritarismo?

O retrofuturismo sob um regime de vigilância

A definição mais adequada para o universo de A Bússola de Ouro é retrofuturismo. No artigo Steampunk: as transgressões temporais negociadas de uma cultura retrofuturista (2012), a pesquisadora Everly Pegoraro, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), explica que esse gênero nasce da combinação entre elementos históricos e tecnologias imaginárias. 

Não se trata de prever o futuro, mas de reconstruir o passado, questionando como ele teria sido caso certos avanços científicos ocorressem em outros momentos da história. 

Como observa o escritor Geoffrey D. Falksen, essas narrativas reinventam acontecimentos e introduzem tecnologias incompatíveis com o período retratado, não para serem realistas, mas para explorar possibilidades.

Na adaptação de Chris Weitz, esse princípio é preservado com esmero. O mundo de Lyra é composto por zeppelins que dominam os céus, automóveis em circulação reduzida e instrumentos científicos que, embora movidos a âmbar, exibem uma sofisticação quase artesanal. O laboratório do Lorde Asriel, por exemplo, parece concebido por um físico da Revolução Industrial que teve acesso a equipamentos do século XXI. Henry Braham, diretor de fotografia, potencializa essa imersão ao privilegiar espaços iluminados por tons dourados e azulados, transmitindo uma sensação permanente de descoberta. Nada ali existe apenas para ornamentar: cada detalhe visual reforça a hipótese de que outra história da humanidade seria possível.

Contudo, por trás dessa sofisticação estética, reside um regime político que praticamente elimina qualquer esfera de autonomia individual. A estética de “avanço” esconde um sistema de censura enraizado na estrutura social. O Magistério não atua apenas como uma instituição religiosa; ele administra universidades, fiscaliza pesquisas, determina o que pode ser publicado e mantém vigilância constante sobre a circulação de ideias. A separação entre religião e Estado simplesmente não existe.

Nesse cenário, as descobertas científicas deixam de ser avaliadas por seu mérito técnico para serem julgadas pela compatibilidade com a doutrina oficial. Pesquisadores tornam-se suspeitos, livros desaparecem e o conhecimento circula sob constante escrutínio. O conflito envolvendo o misterioso Pó ilustra perfeitamente essa dinâmica: enquanto estudiosos o veem como uma descoberta revolucionária sobre a natureza da consciência humana, o Magistério o enxerga como um risco moral capaz de abalar a ordem estabelecida. 

Assim, o retrofuturismo de Pullman revela sua faceta mais sombria: em um mundo de maravilhas tecnológicas, o que menos importa é o que o Pó realmente é; o que define o destino daquela sociedade é quem terá, sob o peso da tradição e da vigilância, o direito absoluto de interpretá-lo.

Autoridade como tradição

Esse modelo político encontra paralelo em conceitos desenvolvidos pelo sociólogo Max Weber. Ao estudar as diferentes formas de dominação, Weber descreveu a chamada “dominação tradicional”, sustentada pela crença em costumes considerados legítimos simplesmente porque existem há muito tempo. A autoridade não decorre da escolha popular nem de procedimentos legais modernos. Ela nasce da tradição.

A socióloga Bianca Wild observa que, nesse tipo de organização, obedece-se menos às leis do que às pessoas que simbolizam uma determinada herança considerada sagrada. As normas adquirem um estatuto moral praticamente incontestável. 

É exatamente essa lógica que move o Magistério. Sua legitimidade não depende de eleições, tampouco de uma Constituição. O poder existe porque sempre existiu. Questioná-lo significa romper uma tradição apresentada como expressão da própria vontade divina. 

Essa característica explica por que o regime retratado por Pullman consegue manter-se mesmo diante de disputas internas. Os diferentes departamentos do Magistério competem entre si, mas nenhum coloca em dúvida a estrutura de poder que os sustenta. Mudam os dirigentes, o sistema permanece intacto.

Entre a ficção e a realidade

A escolha de construir um governo teocrático não surgiu por acaso. Embora A Bússola de Ouro seja uma fantasia, Pullman utiliza conceitos políticos facilmente reconhecíveis no mundo contemporâneo. Estados teocráticos continuam existindo e funcionam segundo princípios bastante distintos daqueles adotados por democracias laicas.

Países como Irã, Afeganistão, Arábia Saudita, Mauritânia e Paquistão mantêm diferentes graus de influência religiosa sobre suas instituições políticas. Em cada caso, a relação entre religião e governo assume características próprias, mas todos compartilham a ideia de que a autoridade deriva de princípios considerados sagrados. 

O próprio Vaticano constitui uma teocracia, embora de natureza muito diferente daquela imaginada por Pullman. Ali, o Papa acumula as funções de chefe da Igreja Católica e chefe de Estado da Cidade do Vaticano. É justamente essa proximidade simbólica que tornou o Magistério tão desconfortável para setores do catolicismo.

Ainda que a obra jamais afirme tratar-se da Igreja Católica do mundo real, os paralelos são numerosos: a sede localiza-se em Gênova, os dirigentes utilizam vestimentas e títulos eclesiásticos, a organização reproduz uma burocracia clerical e as referências históricas incluem um papa. Não era difícil compreender por que tantos leitores identificavam ali uma alegoria da Igreja Romana.

Uma crítica ao poder, não necessariamente à fé

Essa distinção costuma desaparecer durante as polêmicas. Ao longo dos anos, parte dos críticos da obra passou a resumir a trilogia de Pullman como uma narrativa antirreligiosa. Outros a defenderam como uma denúncia do autoritarismo institucional. A própria adaptação cinematográfica procura caminhar entre esses dois extremos.

A crítica norte-americana Christy Lemire observou, em texto distribuído pela Associated Press, que o filme evita referências religiosas explícitas e mantém a natureza do conflito aberta à interpretação do público. Para ela, o verdadeiro antagonista da história não é uma igreja específica, mas qualquer forma de doutrinação que elimine a liberdade intelectual. 

Laís Cattassini, do Cinema com Rapadura, chegou a conclusão semelhante ao analisar o papel desempenhado pelo Magistério. Segundo a crítica, a organização representa uma estrutura de poder empenhada em controlar o pensamento coletivo, utilizando o mistério em torno do Pó como justificativa para ampliar sua influência.

A adaptação cinematográfica suavizou parte das críticas presentes nos romances, mas preservou a pergunta central que atravessa toda a trilogia: o que acontece quando uma instituição acredita possuir o monopólio absoluto da verdade? 

Ao final, a controvérsia que cercou o filme parece secundária diante da força da obra original. O legado de Pullman não reside em sua capacidade de provocar o Vaticano, mas em sua coragem de usar a fantasia para nos lembrar de que, sempre que o poder busca blindar-se contra o questionamento, ele deixa de servir à humanidade para servir apenas a si mesmo.


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