Bolsonaro, Scarface e o AI-5

Bolsonaro, Scarface e o AI-5

Mafiosos e apologia da ditadura na decoração do esconderijo de Queiroz.

Gilson Amaro 22 jun 2020, 16:38

Um dos fatos mais peculiares do esconderijo de Fabrício Queiroz, preso preventivamente no dia 18 de junho, além da casa pertencer ao advogado de Bolsonaro, foi uma digamos… ilustrativa combinação na decoração. O Brasil inteiro viu a foto com pequenos bonecos de Tony Montana — mafioso do filme Scarface (1983) — ao lado de um cartaz amarelo com AI-5 estampado em letras pretas com brasão e bandeira do Brasil, típico dos movimentos pró-ditadura, e na frente do qual vemos sentado outra miniatura do mafioso da película dirigida por Brian de Palma e interpretado por Al Pacino. Não se trata de uma combinação aleatória.

Neste altar de devoção, encontrado no esconderijo de Queiroz, para o AI-5 e o crime organizado, que no caso brasileiro seriam as milícias — representadas ali por Scarface — acidentalmente nos mostrou a síntese do ideal, projeto e modus operandi do mundo bolsonarista. Um universo de milicianos, assassinos e torturadores que sonham em implantar uma ditadura. É importante lembrar que as ditaduras e criminosos de todas as variedades e brutalidades, são sinônimos. Os regimes ditatoriais existem para cometer e encobertar crimes, ampliar a desigualdade e esmagar qualquer forma de oposição. A sopa do protofascismo que vemos expresso no fenômeno fortalecido por Bolsonaro é repleta destes e outros elementos.

É ilustrativo deste fato que a prisão de Queiroz, se dê no âmbito do inquérito que investiga a chamada “rachadinha”, mas, na verdade, aponta para o coração das milícias. Este é o motivo do grande abatimento do presidente quando da prisão de Fabrício Queiroz. O MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) estima que o assassino “Capitão Adriano”, morto em um esconderijo na Bahia com grandes indícios de queima de arquivo, notório miliciano ex-chefe do “Escritório do Crime” — homenageado por Flávio Bolsonaro na Alerj em 2005 e chamado por Bolsonaro de herói da PM em 15 de fevereiro de 2020 durante live — tenha transferido mais de R$ 400 mil para as contas de Queiroz. Importante destacar que a milícia citada acima é também suspeita do assassinato de Marielle Franco.

No aspecto visível da relação de Bolsonaro com as milícias, são muitos anos de homenagens e discursos do chefe do clã e seus filhos na defesa das milícias, grupos de extermínio e com inúmeras nomeações de milicianos e seus parentes nos mandatos parlamentares de Jair Messias e filhos. No lado oculto desta relação, começamos a ver indícios a partir da investigação do MPRJ, de grandes esquemas que levam a milícia, e tudo que ela traz junto para o coração da Presidência da República. Como costuma repetir um certo presidente “conhecereis a verdade e ela vos libertará”, no caso dele e seus comparsas, parece que a verdade “prenderá”.

A revelação, após a prisão de Queiroz, do altar com cartaz do AI-5 atrás de bonecos de gangsteres na casa do advogado dos Bolsonaros, Fred Wassef, mostra a devoção destes pela ditadura e pelo crime, que são sinônimos e indissociáveis. Para nós se reforça a urgência da deposição de Bolsonaro com a luta pelo impeachment e mais do que isso, a urgente construção de um movimento de mudanças estruturais na sociedade brasileira para fazer frente a atual crise e realmente mudar o Brasil sob o prisma da igualdade.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.