Janduís: um oásis de esquerda no sertão das emboscadas

Reportagem de Bruna Porciúncula para a Revista Movimento retrata a luta do PSOL em Janduís (RN), onde foi eleito prefeito o companheiro Salomão Gurgel meses após o assassinato de Netinho, também militante do partido.

Bruna Porciúncula 4 mar 2021, 18:07

No sertão potiguar, onde as hostilidades não se limitam a valentias e covardias quixotescas, a cidade de Janduís se tornou um oásis para as ideias defendidas pelo PSOL. Em novembro de 2020, a população de pouco mais de 5,3 mil moradores não só elegeu o candidato a prefeito do partido – cujo vice também é um correligionário – como concedeu seis das nove cadeiras na Câmara Municipal à sigla. O cenário da vitória eleitoral completou-se com os percentuais da votação: Salomão Gurgel (PSOL) abarcou 56,06% dos votos contra 43,94% de sua adversária, a candidata Silvia Helena, da coligação PL-PSDB, e credenciou-se a dar sequência ao trabalho do então prefeito Zé Bezerra, o primeiro prefeito eleito pelo PSOL no Rio Grande do Norte.

O contexto das eleições de 2020 em Janduís poderia ser a linha de algum cordel policialesco. Havia mais do que as imposições da pandemia. Em abril, quando tradicionalmente a comunidade se envolve no espetáculo da Paixão de Cristo, encenado há mais de 20 anos por atores locais e um orgulho cultural da cidade, o assassinato do empresário Raimundo Gonçalves de Lima Neto tomou de assombro aquele feriado de Páscoa. Netinho de Nilton, como era conhecido, foi vítima de uma emboscada quando chegava em sua fazenda, em Campo Grande, município vizinho a Janduís que faz divisa com a Paraíba. Netinho era pré-candidato a prefeito de Janduís pelo PSOL e despontava como favorito nas intenções de voto. Tinha 35 anos quando foi alvo de quatro tiros, disparados por bandidos que o abordaram na entrada da propriedade rural que havia comprado cerca de um mês antes. Netinho, de acordo com a Polícia Civil, foi obrigado a descer da moto em que estava e seguir em direção a um matagal, às margens da estrada de chão batido que dá acesso à fazenda. Foi executado. O deputado estadual Sandro Pimentel (PSOL) não tem dúvidas de que se trata de um crime político.

– O Netinho era uma pessoa muito querida na cidade, um jovem, trabalhador, que estava havia um ano com o PSOL. Claro que venceria a eleição.

O assassinato, até agora sem esclarecimentos, apesar de a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa do Rio Grande do Norte ter designado um delegado para cuidar diretamente do caso – o que não é praxe em se tratando de ocorrências no interior do Estado – balizou dali em diante as eleições municipais em Janduís.

O PSOL dividiu-se entre o acompanhamento das investigações do assassinato de Netinho e a reconfiguração de sua campanha eleitoral na cidade. Buscou um nome experiente e já conhecido da população, não só como possibilidade real de vitória, mas também como precaução a outras investidas violentas que pudessem comprometer o curso das eleições. Salomão Gurgel conhece bem o que se passa por aquelas bandas sertanejas lindeiras à Paraíba, cujas origens estão fincadas em uma disposição ao conflito.

Janduís recebeu essa denominação somente em 1943, quando ainda era distrito de Carnaúbas. O nome é homenagem a uma tribo de índios cariris que vivia na região antes do extermínio generalizado dos povos nativos promovido pelos colonizadores. Antes disso, teve outras designações enquanto vilarejo e, uma delas, São Bento Velho, fazia referência à devoção ao santo católico cultivada pelo fundador da cidade, o fazendeiro Canuto Gurgel.

Ao lado da tradição religiosa e de trabalho, a população de Janduís também incorporou uma postura de enfrentamento ao seu modo de debater e resolver as coisas. Não demorou muito para que os recorrentes tumultos e discussões que acabavam em “vias de fato” rebatizassem o lugar de São Bento do Bofete. Com o passar dos tempos, a tradição belicosa se especializou para além de sopapos, e Salomão lembra que há um lado do fazer política no sertão que só entra na briga se for para matar. Por conta do que viu em seus 72 anos de existência, o novo prefeito de Janduís, quando se postulou a substituir Netinho na disputa, buscou os votos com reforço de segurança e manteve residência e seu trabalho como médico em Caicó, a cem quilômetros de Janduís.

– Temos aqui uma oposição que mata. Fizemos toda a campanha com escolta, porque a pistolagem existe – conta o prefeito.

Salomão Gurgel é um protagonista do terreno fértil que Janduís se tornou para as aspirações de esquerda no meio do sertão nordestino. Durante a ditadura e militando no Partido Comunista, foi estudar Medicina em Moscou, na então União Soviética. No apagar das luzes do período militar, já no MDB, que “era o que existia de esquerda no RN”, ele voltou ao Brasil para revalidar o diploma. Acabou por substituir o irmão, Sebastião Gurgel, que havia adoecido, na disputa pela prefeitura. Foi eleito pela primeira vez prefeito de Janduís em um mandato de seis anos, quebrando a hegemonia política da família Maia, no comando da cidade desde a emancipação, em 1962. O médico ainda elegeria seu sucessor, Zé Bezerra, já pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Bezerra foi o primeiro prefeito pelo PT no Rio Grande do Norte, e Salomão ainda seria eleito mais uma vez pela mesma sigla em 2004. Ambos, frente às guinadas ao centrão e às coalizões da legenda comandada por Lula, deixaram o partido. À época do anúncio de seu ingresso no PSOL, em 2015, Salomão ressaltou que a decisão era para “revalidar a luta da esquerda brasileira” e que a atuação dele não seria apenas em Janduís, mas no fortalecimento do partido em todo o Rio Grande do Norte. Em 2016, Zé Bezerra se tornaria o primeiro prefeito do PSOL em Janduís. Salomão agora sucede o amigo no cargo e conta com a maioria na Câmara para ampliar o trabalho de inclusão social e conscientização política defendido pelo PSOL.

Os desafios neste flanco sertanejo para o projeto da esquerda são robustos e ganham ares missionários mesmo diante de um cenário vitorioso e ascendente do PSOL. A região ainda convive com exploração do trabalho, concentração de terra e oligarquias políticas acostumadas a dominarem as forças populares. Mesmo no oásis eleitoral, é bom não esquecer que a  opressão está sempre de tocaia.


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