Uma crise sobre os trilhos, novo capítulo da disputa paulista
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Uma crise sobre os trilhos, novo capítulo da disputa paulista

É o momento de denunciar as privatizações de Tarcísio, apoiar a próxima greve dos ferroviários e dar continuidade à campanha pela reestatização

Israel Dutra 28 jul 2026, 09:19

Foto: Mensagem “Volta, CPTM” pixada em trem metropolitano. (Redes Sociais/Reprodução)

Em apenas três dias de funcionamento da concessão privada, o sistema ferroviário metropolitano de São Paulo entrou em colapso. Milhões de paulistas foram afetados pelo caos, que paralisou a operação das linhas 11(Coral), 12(Safira), 13(Jade) durante a última quinta-feira, 23 de julho.

As três linhas que começaram a ser geridas pela Trivia Trens, ligada ao grupo Consorte do bilionário Nene Constatino, falharam no começo da manhã. O resultado foi um tumulto de proporções inimagináveis, com cenas de incêndio, evacuação forçada de passageiros, que por muito pouco não resultaram numa tragédia ainda pior.

A reação de Tarcísio foi defensiva. A Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) determinou a suspensão temporária do contrato com a Trivia, retornando a gestão para a CPTM durante o período de 90 dias. É sabida e crescente a impopularidade das privatizações no estado de SP.

Tarcísio quer arrefecer e gerir a situação, evitando um arranhão eleitoral. A população passou os últimos cinco dias discutindo o tema, sobretudo os passageiros que entram nos trens lotados, agora sem saber o tamanho do risco que correm. Cabe à esquerda, aos sindicatos combativos, e ao PSOL como parte disso impulsionar uma política e um plano de luta para intervir no olho desse novo furacão.

Novos ingredientes de uma mesma crise

Estamos insistindo desde o primeiro semestre na tese de que Tarcísio não é invencível. Apesar de suas fortalezas como o favoritismo eleitoral, a unidade férrea da burguesia ao redor de sua figura em SP, a dificuldade de um polo político e social que coordene o enfrentamento, a “última palavra não foi dada”. E curiosamente, nos parece que o próprio Tarcísio é consciente disso.

Uma série de lutas duras, defensivas, algumas moleculares, interviram na conjuntura paulista durante o primeiro semestre. Desde lutas dispersas de categorias de trabalhadores até a mais ampla, que foi a greve unitária das estaduais paulistas, que mesmo não tendo vitórias econômicas em “toda linha”, conseguiu defender bem sua agenda, acumulou forças no Movimento Estudantil e colocou a defesa da universidade pública, novamente, na agenda. Além da greve, a marcha que derrotou as tentativas de repressão e chegou ao Palácio dos Bandeirantes foi um momento de auge dessa conjuntura.

No segundo semestre, apoiado em seu favoritismo eleitoral, Tarcísio busca mostrar uma força que parece absoluta quando fica ao lado de Flávio, acaparado por suas crises internas.

Entretanto, apesar dos ataques e da dificuldade de uma resposta concentrada por parte do movimento de massas, uma série de eventos políticos condicionam uma mesma espiral de crise. São episódios, aparentemente isolados, mas que atingem o coração do programa de Tarcisio: as privatizações. Poderíamos falar de “fatos políticos” moleculares, mas que projetam sobre toda a sociedade um debate programático profundo.

Como falava Bensaid citando “uma revolta estudantil, o caso Dreyfuss” entre outros, há “deslocamentos” e “condensações” em fatos que surgem como “acidentes” e aparecem em primeiro lugar mais como “cobertura jornalística”. A ruptura frequente de adutores da Sabesp, o desastre no Jaguaré, a crise hídrica latente e intermitente, as frequentes falhas no metrô, chegando à quase tragédia da Trivia da semana passada.

E isso é muito importante porque, ao mesmo tempo, Milei é agraciado com a medalha de honra do estado por Tarcísio, num gesto que é político, mas também ideológico e programático. Um alinhamento que indica a dinâmica de Tarcísio querendo se credenciar como um Milei, cujo eixo é a “motoserra” privatizadora.

A dinâmica que se impõe é que Tarcísio segue na liderança das pesquisas, porém, deve responder a uma agenda que não é a sua. Entramos em um agosto decisivo, onde a batalha de São Paulo terá repercussão em todo país e em todas as classes.

Tarcísio não foi à convenção de Caiado, que quer se consolidar como candidato prioritário da Faria Lima, centro importante também da política paulista. Renan Santos corre por fora, com bastante repertório, mas ainda sem votos.

Qual será o efeito sobre a burguesia, sobretudo a de São Paulo, da alta penalidade imposta por Trump no tarifaço? Milei, convenhamos, não é a figura mais popular para salvaguardar Tarcísio e Flávio, ou seja, como a crise da campanha nacional vai influir no terreno da conjuntura estadual.

A política no posto de comando: “Volta, CPTM”

Diante do cenário, as eleições de São Paulo esquentaram mais do que se pensara lendo os números frios das últimas pesquisas.

Outros fantasmas rondam o Palácio dos Bandeirantes, como a crise hídrica que ira se expandir com as previsões climáticas ou as relações do PCC com agentes da cúpula das policiais, e ainda o lugar de Vorcaro e do Master nos núcleos dirigentes da extrema direita paulista.

Um lema está ganhando força, como se noticiou em pixações e murmúrios: “Volta, CPTM”. Isso como expressão para defender em alto e bom a reestatização imediata, para além dos 90 dias concertados entre o governo e a Artesp. Uma campanha de massas que opere com essa ideia seria fundamental, para dar as tintas políticas gerais, unificando não só a campanha de Haddad mas de todos os candidatos e setores à esquerda que farão campanha nos próximos 90 dias.

Esse seria o ponto de partida para dar volume de força, junto a um plano de mobilização das categorias, para abrir caminho para um questionamento mais amplo que tome Sabesp, defesa das universidades e do metrô e se alastre para politizar a campanha eleitoral.

As pesquisas indicam uma folgada maioria contra as privatizações. Uma consciência ainda difusa que é o ponto de apoio para organizar o centro da luta política no estado mais importante da federação.

Uma nova dinâmica pode estar se abrindo

Ainda é muito recente o processo, mas sem dúvidas podemos cogitar que pode estar se abrindo uma nova dinâmica, onde não se sabe como vai refletir no processo eleitoral e na mobilização social.

Como já alertamos em texto anterior, é central a existência de um segundo turno em São Paulo, por razões táticas e estratégicas, sejam eleitorais ou sejam da medida da relação de forças mais geral. Isso é uma tarefa política, eleitoral, mas também do movimento.

A assembleia dos ferroviários indicou greve a partir de 4 de agosto, a ser ratificada em nova assembleia na véspera. Uma greve desse tipo é arriscada, difícil, mas parece ser necessária. Se jogar no apoio e na unificação da defesa dessa greve é a tarefa mais importante do período.

As experiências anteriores de unificação são embriões para pensar em como apoiar a greve e dar continuidade à campanha pela reestatização. Duas delas devem ser seguidas de perto, a dos sindicatos que impulsionaram o plebiscito popular contra as privatizações e a luta das três categorias das três universidades paulistas. São experiências que podem ajudar a impulsionar uma unidade mais ampla, inclusive superando as diferentes fórmulas eleitorais, com Haddad, Vera, Vivian e Machado. Há uma oportunidade de se golpear junto e reunir expectativas da vanguarda e as pulsões da sociedade.

É uma hipótese de trabalho complexa, mas central para derrotar o projeto de Tarcisio, se apoiando no eco contra as privatizações, levando a eleição para um segundo turno e ampliando o volume de forças e coordenação das diferentes categorias e trabalhadores.


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