Resultado eleitoral expressa a polarização social e política

Sobre as eleições peruanas.

Tito Prado 19 abr 2021, 18:26

Em meio à polarização extrema exacerbada pela pandemia, 18 candidaturas disputaram eleições nas quais prevaleceu a fragmentação, ao ponto de o vencedor no primeiro turno não ter alcançado 20%. Isto sugere que a crise política de governabilidade será uma constante no próximo período, tornando mais urgente a necessidade de uma solução constituinte. Todas as forças de direita concorrentes procuraram preencher o vácuo de representação política que o regime vem sofrendo há alguns anos; junto com isto, impedir o avanço de uma alternativa de mudança, concentrando suas baterias contra Verónika Mendoza, que aparecia no topo das urnas. E eles fizeram seu trabalho, mas a ação da direita não é suficiente para explicar a derrota de JP.

O desempenho medíocre do governo de Sagasti pulverizou as aspirações das opções apresentadas como centristas (Forsyth, Guzmán, Salaverry, Acuña). Em uma situação de crise, a estabilidade é a coisa menos importante, as pessoas preferem correr riscos optando por opções disruptivas. Aqueles que se posicionaram nos extremos capitalizaram sobre o descontentamento de uma forma ou de outra. Keiko à direita, Castillo à esquerda. A situação não permitia soluções “centrais”, era necessário radicalizar o discurso. Isto implicou, desde o JP, em conectar com a raiva do povo expressa em dezenas de batalhas ao longo destes anos.

O primeiro desafio foi recuperar o sul, onde o radicalismo foi expresso em 2016 na votação esmagadora da Vero e depois, em janeiro deste ano, na votação da FRAPAP e da UPP, que foi uma votação de protesto. O segundo desafio era unir as medidas urgentes diante da emergência sanitária com as soluções fundamentais, concentrando-se na necessidade de uma Nova Constituição e soberania sobre nossos recursos. Neste processo, assumir uma atitude de confronto aberto com os responsáveis pela crise, empresários e políticos de direita que lucram com o infortúnio de nosso povo.

À luz dos resultados, é óbvio que Castillo soube expressar melhor este radical anti-sistema, enquanto JP deu à campanha uma inclinação moderada que no final nos custou caro. Muitas de nossas propostas diante da emergência marcaram o campo, como o Bônus Universal, imposto sobre grandes fortunas, eliminação de contratos de estabilidade fiscal, entre outros. Mas, contraditoriamente, o apelo a um pacto estratégico com os empresários, a saudação às “nossas” Forças Armadas e à polícia, assim como o anúncio da permanência no Grupo Lima, quando a Argentina já havia se retirado, deram sinais de buscar um certo entendimento com os responsáveis pela crise.

Quer queiramos ou não, isto contribuiu para desfocar a proposta de mudança que a Vero e o PJ representaram nestas eleições. Sem dúvida, abre-se um período de reflexão coletiva para aprofundar o equilíbrio e extrair todas as lições sem renunciar ao nosso compromisso de construir uma nova esquerda a partir do Novo Peru. E em relação ao segundo turno, a única coisa que resta é cerrar fileiras com o professor Castillo, sem dar um cheque em branco. Há questões sobre as quais é necessária uma posição firme da esquerda, em primeiro lugar, nenhum pacto com a direita. Devemos pôr um fim ao “pragmatismo” de que tudo se justifica para chegar lá. Ou com o “realismo” que acaba se adaptando ao sistema. O povo disse sua palavra, eles querem uma mudança profunda, que continue sendo nosso norte.

Reprodução da versão publicada na Fundação Lauro Campos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.