A vitória da greve dos ferroviários de São Paulo
Dirigentes sindicais do MES-PSOL falam sobre a recente greve dos ferroviários contra o governo Tarcísio de Freitas
Foto: Trens da CPTM. (GESP/Reprodução)
Em entrevista exclusiva para a Esquerda em Movimento, os dirigentes sindicais do MES-PSOL Roberto Morato e Carolina Ucha falam sobre a recente greve dos ferroviários da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) em São Paulo.

Esquerda em Movimento: Quais foram os motivos que deram início à greve?
Carolina Ucha: Logo na primeira semana em que começou, de fato, a concessão da CPTM para a ViaMobilidade – que foi a empresa que ganhou o processo do governo do estado de São Paulo – a cidade de São Paulo e a região metropolitana ficaram caóticas a partir das linhas 11, 12 e 13. Então, já no primeiro dia, teve problema de trem, as pessoas tiveram que sair dos vagões e andar nos trilhos. E no segundo dia, a gente viu algo mais grave ainda: um dos trens pegou fogo , o que demonstra que a privatização não é só prejudicial àqueles que trabalhavam na CPTM, mas também à população da região metropolitana como um todo. Foi provado por A+B que a ViaMobilidade é uma empresa que não tem capacidade para garantir o manuseio dos trens e o seu próprio pessoal também não tem capacitação para isso. Eu acho que principalmente o fogo, mas também a situação no dia anterior, foram a gota d’água para a população de São Paulo, que já sabia que a privatização é ruim por conta da própria experiência com as linhas 8 e 9 ou mesmo a experiência com a Sabesp – que gerou aumento da conta de água e também uma piora na qualidade, explosão de dutos, entre outras coisas.
E já havia um descontentamento por parte da categoria. Havia uma promessa por parte do governador de que essa categoria iria ser assimilada em outras empresas estatais, como o Metrô, entre outras, mas nunca houve, de fato, uma movimentação por parte do governo para colocar e para indicar onde esses trabalhadores iriam. Então, o fato é que mais de 400 pessoas ali estavam com risco de não serem realocadas, de perderem seus empregos. Então, o caos na vida da população junto com essa questão dos empregos da categoria fez com que a categoria entendesse que esse era o momento de começar uma greve. Não só uma greve para a manutenção dos seus empregos, mas também uma greve pelo fim das privatizações e pela reestatização. Foi assim que teve início a greve.
E como foi a construção da greve?
A construção do movimento, na verdade, foi de baixo para cima. Hoje o sindicato é responsável por mais de uma empresa espalhadas pelo Brasil – tanto é que a sede oficial do sindicato, que é a Central do Brasil, não é aqui em São Paulo, é no Rio de Janeiro. Então, é um sindicato muito distante da base. E ele chamou, obviamente, a assembleia de onde foi tirada a greve. Mas foi uma assembleia não tão forte. Foi uma assembleia em que teve a aprovação de greve, mas com um quórum não tão significativo se a gente parar para pensar que são mais de 400 trabalhadores que estavam diretamente envolvidos na questão das linhas 11, 12 e 13.
Mas sindicato, por conta do caos, e também temendo pelos seus próprios empregos, chamou a categoria para se organizar e fazer uma assembleia. Mas a assembleia, a radicalidade e a indignação foram colocadas principalmente por aqueles trabalhadores que, em sua grande maioria (90%), não são organizados em nenhum partido, mas que estavam indignados com o que estava acontecendo, ao mesmo tempo que estavam com medo em relação aos seus empregos. Então, foi um movimento principalmente organizado a partir do Comitê da CPTM Contra a Privatização. Foi um movimento, de fato, de baixo para cima.
E é uma categoria que não tem muita tradição de fazer greves. A última greve que a categoria conseguiu construir sozinha foi em 2013. Teve uma em 2023, que foi a greve unificada entre Sabesp, Metrô e CPTM, mas que, de fato, a maior força ali foi do próprio Metrô, que tem uma tradição de luta até por conta da sua formação. É um sindicato que há muitos anos está na mão da esquerda, o próprio PSTU, o MES agora… foi filiado à Conlutas por muitos anos, é um sindicato mais à esquerda do que o geral, tem uma tradição de luta, nomes muito fortes. Então, o Sindicato dos Metroviários conseguiu tocar uma greve forte em 2023. A CPTM parou uma linha, mas muito parcialmente, com muita dificuldade, e a Sabesp também teve dificuldade de fazer essa greve, mas no fim a greve aconteceu em 2023. Uma greve dessa categoria só aconteceu há mais de 10 anos. Justamente por conta dessa dificuldade da categoria de se organizar, uma alta burocratização do sindicato, um sindicato muito distante da base…
Então, foi um movimento que começou de baixo para cima a partir da realidade concreta, que era a perda de empregos e o debate da privatização, do caos da privatização e de como a ViaMobilidade era incapaz.
E qual foi o impacto geral do movimento?
Acho que o impacto da greve foi sentido diretamente na população. Se a gente for observar um pouco como a mídia cobriu a greve, desde coisas mais numéricas, como “1 milhão de pessoas foram afetadas diretamente”, “no primeiro dia de greve teve mais de 700 quilômetros de congestionamento”. E muitas pessoas que foram entrevistadas pela Record, pela Globo, ao vivo, falaram que eram, sim, contra a privatização porque não estavam contentes de não poder conseguir pegar seu trem. Havia muitos problemas porque o governo também se mostrou incapaz de garantir, por exemplo, o sistema PAESE (o serviço de ônibus de emergência que substitui os trens). O governo não conseguiu responder à altura para garantir o mínimo de infraestrutura para a população para que ela não fosse atingida. Então, a culpa da greve foi diretamente do governo e a culpa do sofrimento da população nesses dois dias de greve foi direto do governo.
Quem observou os comentários nas redes sociais sobre as notícias em relação à greve viu que boa parte dos comentários era a favor da greve e contra a privatização. Pelo que pudemos sentir, no tete à tete, na conversa com a população, estavam no geral a favor. Nessa situação, a resposta do governo Tarcísio foi ceder à pressão e protocolar um projeto de lei que garantisse o emprego dessa categoria, que fosse realocada para outras empresas estatais.
Mas o Tarcísio só cedeu a um dos pedidos da categoria por conta da pressão e porque a população estava sofrendo e clamando para que ele respondesse às reivindicações da categoria. Não à toa, por exemplo, nesses jornais sensacionalistas da tarde — Cidade Alerta, enfim, Band não sei o que —, o próprio filho do Datena estava junto com o presidente da CPTM, junto com um dos representantes do sindicato, e ele mesmo falando que o Tarcísio deveria garantir esse projeto de lei para a manutenção dos empregos. Ele falava que a reestatização não era possível, mas falava que era papel do presidente da CPTM e do governo do Estado a manutenção dos empregos. Mesmo essa mídia que é mais à direita, com todos os seus problemas, também estava do lado da categoria.
Acho que isso é bastante importante porque de fato demonstra que o governo foi atingido diretamente, né? Foi tipo um cruzado na cara do Tarcísio, em que ele teve que ceder e teve que prometer mais direitos para a categoria, ou melhor, a manutenção do emprego da categoria. E aí acho que isso é bastante importante de se colocar, porque o projeto de lei é muito débil, né? A redação do projeto de lei deixa claro que o governo, se quiser, pode realocar, mas não existe uma obrigatoriedade e também tem muitos temas que precisam ser colocados.
Então, por exemplo, se o governo quiser realocar esses trabalhadores em outras empresas, ele pode. Isso significa que pode ser que ele também possa não fazer isso. Esse é um primeiro ponto. Outro: é muito importante que esses trabalhadores, que inclusive já trabalham há 20, 30 anos na CPTM, mantenham a mesma base salarial, os mesmos direitos. Mas não só isso. Às vezes, um trabalhador que é de Poá ou de Suzano, não pode ser realocado para outra cidade como, por exemplo, Itaquaquecetuba ou Itú, onde tenha algum tipo de empresa estatal. Então, tem que manter o emprego dessa pessoa num lugar próximo de onde ela trabalha, de onde ela atua, com funções parecidas. Esse tipo de coisa precisa ser garantido e precisa haver no projeto de lei algo que seja imperativo, que obrigue o governo a, de fato, garantir que essas pessoas não sejam demitidas, porque são pessoas que têm toda a sua formação de vida, toda a sua família sustentadas pela CPTM e não podem simplesmente perder seus empregos.
Após o caos, o Tarcísio assinou que a CPTM voltaria a administrar as linhas 11, 12 e 13 por 90 dias. Isso dá exatamente o tempo até a eleição. Então a gente sabe que essa movimentação foi eleitoral. Mas a categoria conseguiu demonstrar que as ferramentas históricas de luta da classe trabalhadora — que é uma das ferramentas históricas de luta da classe trabalhadora, que é a greve — de fato ainda funcionam e conseguem emparedar um dos maiores exemplos de governo aliados à extrema direita hoje, que é o governo Tarcísio.
E qual foi o balanço final do processo?
Acho que os trabalhadores da CPTM conseguiram ser um exemplo não só para aqueles que hoje estão no estado de São Paulo, mas também nacional: que é possível, sim, impor uma derrota ao governo; que é possível, sim, manter os seus direitos. E eu acho que agora nós temos outros desafios. Primeiro: garantir que esse projeto de lei seja melhorado. Nós vamos ter até segunda-feira para apresentar emendas a partir dos mandatos e principalmente do mandato da Mônica Seixas e das Pretas (PSOL) na Assembleia Legislativa. Acho que a batalha da manutenção dos empregos foi importante, acho que ela está a caminho, mas a luta contra a privatização segue. Ela segue porque a gente sabe que, mesmo que haja a manutenção dos empregos dessa categoria, o melhor – e o nosso plano ideal, o nosso programa máximo -, é o fim das privatizações e a reestatização da CPTM.
E ainda que a categoria tenha conseguido essa primeira vitória, ela segue em movimento, atenta para garantir que ocorra o fim das privatizações. E não só a categoria dos ferroviários, mas também a categoria dos metroviários, dos condutores, professores, tanto estaduais quanto municipais, enfim, outras categorias… A própria Sabesp, que também já foi privatizada. É preciso agora uma unidade não só entre a classe trabalhadora, mas também junto com a juventude, com as mulheres e todos os setores da sociedade que, de fato, sofrem com as privatizações, para que a gente siga em luta constante, em movimento, para que nós sigamos em movimento para derrotar as privatizações que ainda estão por acontecer, mas mais do que isso: pra gente garantir a reestatização das empresas. Porque a gente sabe que a vida da população do estado de São Paulo piorou muito depois que as privatizações aconteceram.

Esquerda em Movimento: Como foi o processo de construção do movimento?
Roberto Morato: No final de junho, a CPTM apresentou um dispositivo de suspensão do contrato de trabalho de 491 trabalhadores da empresa. No dia 21 de julho, se iniciou a operação comercial 100% feita pela empresa Trivia, sem nenhum acompanhamento de funcionários da CPTM.
No dia 23 de julho, aconteceu um incêndio no trem que quase provocou uma tragédia. A partir desse incêndio e da inabilidade da empresa Tivia, foram fechadas todas as estações e a circulação de trens das linhas 11, 12 e 13, algo nunca visto antes.
A partir desse incêndio, com a opinião pública questionando o Governo Tarcísio dessa privatização dessas linhas, a categoria marcou uma greve que tinha como principais pontos a garantia dos contratos de trabalho, a garantia dos empregos de todos os trabalhadores da CPTM e a reestatização das linhas 11, 12 e 13.”
O processo de construção do movimento veio a partir da criação do Comitê Contra as Privatizações da CPTM. Esse comitê cumpriu um papel de dialogar com os trabalhadores e a população para o caos que seria a privatização da CPTM e, assim, apresentar opções de luta para reverter essa privatização.
Como atuou o sindicato? Qual era o estado da categoria?
O Sindicato atuou de forma muito ruim, tendo o objetivo de travar qualquer tipo de mobilização mais radicalizada, sendo uma greve o ápice dos trabalhadores da CPTM neste processo todo de privatização.
No dia do leilão das linhas, se tinha uma greve marcada, mas no dia anterior a diretoria do sindicato, em parceria com a diretoria da empresa, conseguiu desmontar essa greve que já estava marcada pela base da categoria.
Nesse movimento atual de greve, o sindicato tentou atuar no início para paralisação e travar também a greve. Mas o sentimento da categoria, de descontentamento e de possível perda dos empregos, fez com que a base atropelasse a diretoria do sindicato, aprovando a greve de forma massiva, somente com a defesa contrária de algumas figuras do sindicato no dia que deflagrou a greve na assembleia.
A partir disso, a diretoria ficou refém da radicalidade da greve dos companheiros da base. Então a base atropelou a diretoria do sindicato.
Como o impacto da greve foi sentido na população
O impacto da greve para a população foi imenso. Cerca de 1 milhão de pessoas foram impactadas pela greve, pela paralisação de parte das linhas 11 e 12 e da total, do fechamento total da linha 13. Essa linha que liga São Paulo ao Aeroporto de Guarulhos.
Quais foram as consequências políticas políticas para o governo Tarcísio?
Existiu uma grande derrota do Governo Tarcísio nesse processo de greve. A política de privatizações, um dos seus carros-chefes, está sendo questionada por toda a população. Principalmente por esse caso do acidente da CPTM e também a privatização da Sabesp, que está prejudicando e piorando o serviço de abastecimento de água para a população.
Ele iniciou a greve acusando o movimento de ser político e os funcionários, os trabalhadores, sendo acusados de vagabundos. Depois de dois dias de paralisação, ele precisou recuar apresentando um PL com regime de urgência para a ALESP para garantir a aprovação da garantia dos empregos dos trabalhadores.
Agora existe uma disputa por esse PL: como será construído esse PL, mudanças nesse PL. E, além disso, o processo de privatização que ele vem cumprindo no estado de São Paulo teve seu questionamento no ápice desse movimento.
Inclusive, as palavras de ordem “Volta CPTM” e “Reestatização Já” estão na boca da população e existe um movimento real para que essas palavras de ordem sejam consolidadas.