A selfie da barbárie

Existem vidas atrás dos algoritmos.

Guilherme Ferlete Bonfim 4 jun 2021, 11:14

6h 40m. O despertador toca. Um novo dia começa. Você levanta-se da cama ainda meio cansado e sem ter tido uma boa noite de sono, faz seus afazeres rotineiros, prepara um bom café e já pega o seu celular para dar uma olhada nas novidades do dia. Entre emojis e figurinhas descobre que mais uma criança morreu de bala perdida, sem muita comoção segue acompanhando as notícias e percebe que mais uma família foi assassinada na guerra que ocorre na Palestina, você segue indiferente e nota desta vez que o número de mortos pela pandemia de Covid-19 já se aproxima de 500 mil pessoas. Tiros, balas, bombas e mortes. O que você faz depois de saber de tudo isso? Posta a foto do seu café da manhã e vai ao trabalho normalmente.

No caminho para o trabalho, em seu carro com ar-condicionado, ouve no rádio sobre o aumento da insegurança alimentar e do desemprego, o que você faz então? Irrita-se com as pessoas nos semáforos pedindo ajuda para sobreviver. Chega no serviço, passa horas atrás de uma máquina de computador, escuta os comentários sobre um novo caso de suicídio na cidade e reclama com os colegas do aumento dos preços dos combustíveis. Por fim, vai para casa depois de passar na academia e dizer “hoje tá pago”.

E então? Então já acabou o dia. Você prepara-se para no dia seguinte começar tudo de novo. Assim vamos vivendo, normalizando a tragédia na qual estamos inseridos.

No entanto, alguns corajosos ainda gritam que o cenário atual não pode ser considerado algo normal. Mortes, violência, fome, desigualdade e injustiças não são algo normal. Esses fatos tornaram-se cotidianos e comuns, porém não podem ser julgados como obra do destino e algo que “é assim mesmo”. Afinal, se for normal mais de duas mil vidas morrerem diariamente por uma doença que já existe vacina, o que vem depois? A barbárie já está ocorrendo e é aqui e agora.

Não! Isso tudo não é normal! É um projeto político e econômico que domina o Brasil há mais de 500 anos e que mantém o lucro para poucos enquanto carrega muito sangue de brasileiros nas mãos. Esse projeto econômico é demonstrado em várias vertentes, desde o desmonte da educação, os cortes em investimentos, o IGF não regulamentado, o sequestro da previdência social, os atentados contra os serviços públicos e até a dívida pública não auditada que corrói o orçamento nacional em prol da entrega de recursos para os grandes bancos enquanto um auxílio incrédulo é pago para as famílias brasileiras.

Enquanto tudo isso ocorre, por que não nos indignamos? Estamos ocupados demais nas redes sociais postando e preocupando-se com coisas supérfluas como o número de seguidores. As correntes alienadoras não precisam mais de tanto trabalho, nós mesmos fazemos login nelas.

Mas e aí? É, não está fácil, mas se nós não tivermos esperança em dias melhores, quem há de ter? Que construamos em nossos meios sociais laços sólidos de amor, amizade, bondade, alegria, alteridade e solidariedade para que possamos enfrentar a barbárie atual.

Afinal, existem vidas atrás dos algoritmos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.