2025: a história se acelera rumo aos limiares que decidirão o futuro
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2025: a história se acelera rumo aos limiares que decidirão o futuro

José Corrêa Leite analisa a crise da ordem global, o retorno agressivo de Trump, o avanço do negacionismo climático e os riscos do poder das big techs para a democracia e a saúde mental

Gabriel Brito 13 jan 2026, 09:56

Via Correio da Cidadania

Foto: Fotos Públicas

Com­pleta-se um quarto de Sé­culo 21 e a hu­ma­ni­dade se vê cer­cada de di­lemas. No plano ge­o­po­lí­tico, países se ame­açam ou efe­ti­va­mente agridem, no que pa­rece re­pre­sentar fi­el­mente o fim dos acordos que cri­aram a ordem global co­nhe­cida por todos. A Cú­pula do Clima re­a­li­zada em Belém, neste sen­tido, foi fiel re­trato das câ­maras de eco que se tor­naram as dis­cus­sões entre as na­ções. O in­ter­regno pros­segue, en­quanto os alarmes da terra soam cada vez mais altos. Na en­tre­vista ao Cor­reio, o ci­en­tista po­lí­tico José Correa Leite ana­lisa todo este pro­cesso his­tó­rico, que pa­receu se com­primir mais dra­ma­ti­ca­mente neste ano.

Em sua visão, o re­torno de Trump à pre­si­dência dos EUA é o fato po­lí­tico que hi­e­rar­quiza os de­mais. Sua se­gunda pre­si­dência re­pete em di­mensão am­pliada as ofen­sivas de seu pri­meiro man­dato. De um lado, con­segue avançar em in­te­resses na­ci­o­nais mais evi­dentes e sub­mete a Eu­ropa a uma hu­mi­lhação exis­ten­cial. De outro, há uma China e todo um bloco asiá­tico que mos­traram estar prontos para seus botes.

“Trump e o setor da bur­guesia es­ta­du­ni­dense que o apoia têm uma ava­li­ação de que a inércia do sis­tema como mon­tado hoje não be­ne­ficia mais os Es­tados Unidos; be­ne­ficia a China. E há um quê de ver­dade neste di­ag­nós­tico con­ser­vador. Os Es­tados Unidos estão em de­clínio. Daí a agres­si­vi­dade tran­sa­ci­onal de Trump em ar­bi­tra­ri­a­mente não res­peitar ou al­terar as re­gras de re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais que não são ime­di­a­ta­mente fa­vo­rá­veis aos EUA”.

Para além das pai­xões po­lí­ticas des­per­tadas, José Corrêa Leite ana­lisa em termos ma­te­riais a agenda de Trump. E atesta que sua aposta é mais li­mi­tada, o que ten­derá a se ex­pressar apenas na reta final de seu man­dato. A opção por vencer a “Nova Guerra Fria” com uso ir­res­trito da in­dús­tria dos com­bus­tí­veis fós­seis e ali­ança com as big techs em seu brutal “ex­pe­ri­mento so­cial tec­no­ló­gico” tem tudo para fra­cassar.

“Não temos uma única re­vo­lução tec­no­ló­gica, a do di­gital (e da IA); temos, ao mesmo tempo, a re­vo­lução tec­no­ló­gica da ele­tri­fi­cação da so­ci­e­dade, a cha­mada tran­sição ener­gé­tica e a adoção de toda uma in­fra­es­tru­tura econô­mica da so­ci­e­dade ba­seada em ener­gias re­no­vá­veis, eó­lica, solar, ba­te­rias, es­quemas de ar­ma­ze­na­mento, com ele­tri­fi­cação dos trans­portes. Aqui a van­tagem da China era co­lossal e Trump fa­ci­litou sua di­an­teira”.

No en­tanto, o poder do ca­pital das pla­ta­formas di­gi­tais já pe­ne­trou as so­ci­e­dades de forma que a ta­refa para sua re­versão exi­girá uma mo­nu­mental en­ge­nharia po­lí­tica e também ide­o­ló­gica. Isso porque já es­tamos no mundo onde as re­la­ções so­ciais – das pro­du­tivas às afe­tivas – são me­di­adas por tais em­presas e sua ló­gica re­pro­du­tiva. E os danos à hu­ma­ni­dade são gran­di­osos como o poder econô­mico de tais atores.

“Nós já es­tamos com ge­ra­ções que nas­ceram com o smartphone e isso foi re­con­fi­gu­rando o cé­rebro dos agora ado­les­centes, assim como de cri­anças atuais, e li­te­ral­mente da­ni­fi­cando as ca­pa­ci­dades men­tais de par­celas im­por­tantes da po­pu­lação. Uma parte do dano é ir­re­pa­rável, mas temos que lutar pelo di­reito das novas ge­ra­ções à saúde mental”.

Como se não bas­tasse, há um co­lapso cli­má­tico ba­tendo na porta. Como ex­pli­cado por Leite, o pa­drão do clima e seus re­flexos eco­ló­gicos se ace­le­raram de forma ex­po­nen­cial nos úl­timos anos. O ce­nário pre­visto para 2050 chegou quase 30 anos antes. E as pontes es­ta­be­le­cidas pelos acordos his­tó­ricos de Paris, em 2015, foram im­plo­didas.

“O ne­ga­ci­o­nismo cli­má­tico é hoje um com­po­nente cen­tral da po­lí­tica da ex­trema-di­reita e do ne­o­fas­cismo. Está di­re­ta­mente vin­cu­lada a im­pe­ri­a­lismos mais agres­sivos e guerras de con­quista. Gaza é, nesse sen­tido, o la­bo­ra­tório do fu­turo das po­pu­la­ções des­car­tá­veis”.

Di­ante de tudo isso, o Brasil ocupa po­sição rara: exibiu con­di­ções de se de­fender da agres­si­vi­dade im­pe­ri­a­lista, mas tam­pouco está imune ao cerco ne­o­fas­cista. No en­tanto, re­pete a sina dos go­vernos pro­gres­sistas e não vai além do tri­vial na gestão do Es­tado e sua ló­gica econô­mica des­trui­dora.

“O Brasil é ex­ceção, mas pre­ci­samos zelar para que o caldo não en­torne. E ga­nhar tempo para en­frentar os dois pro­blemas es­tru­tu­rais sem os quais não há re­cons­trução da es­querda: que seja ecos­so­ci­a­lista e ba­talhe por um mo­delo econô­mico co­e­rente e que com­pre­enda a cen­tra­li­dade da so­be­rania e da re­gu­lação do di­gital. Se não ti­vermos os dois ele­mentos equa­ci­o­nados, di­fi­cil­mente po­derá ocorrer uma nova ofen­siva de um pro­jeto de es­querda no mundo”.

Leia a en­tre­vista com­pleta com José Corrêa Leite.

Cor­reio da Ci­da­dania: O ano pa­rece manter uma “es­ta­bi­li­dade” da crise geral da ci­vi­li­zação, tal qual os úl­timos, com im­passes de todo tipo, trocas de go­verno de polos opostos sem ne­nhuma mu­dança de na­tu­reza sis­tê­mica, ex­plo­sões de re­volta so­cial e um sen­tido de mu­dança ge­o­po­lí­tica, que pau­la­ti­na­mente co­loca a Ásia no centro do pro­ta­go­nismo econô­mico global. Uma sín­tese de 2025 e seu sen­tido con­jun­tural pas­saria pelas no­ções aqui des­critas?

José Corrêa Leite: Tenho acordo com essa sín­tese do ano, com uma pon­de­ração. A posse de um se­gundo go­verno Trump marca um salto de qua­li­dade na crise da ci­vi­li­zação ca­pi­ta­lista. Mas é ver­dade que es­tamos dentro dos marcos da po­li­crise aberta em 2008, para uti­li­zarmos o termo em­pre­gado, entre ou­tros, por Edgar Morin e Adam Tooze. O es­go­ta­mento da fase ex­pan­siva da glo­ba­li­zação ne­o­li­beral produz por todas as partes sin­tomas mór­bidos. Esse é o pano de fundo dos acon­te­ci­mentos que se su­cedem na con­jun­tura.

De um lado, há o acir­ra­mento da crise cli­má­tica, que, de­pois de 2023, apre­senta um forte agra­va­mento. A tem­pe­ra­tura que es­tava em torno de 1,3 grau deu um salto para 1,5 – e há in­dí­cios con­vin­centes de que pode se manter nesse pa­tamar. Pode pa­recer um au­mento pe­queno, mas é uma mu­dança de qua­li­dade gra­vís­sima, que produz mais ca­tás­trofes por todo o pla­neta.

Há também uma exa­cer­bação dos pro­cessos de ino­vação das tec­no­lo­gias di­gi­tais, agora cen­trados na cha­mada “in­te­li­gência ar­ti­fi­cial” (IA). Ela é o foco de uma ide­o­logia mis­ti­fi­ca­dora e car­rega, evi­den­te­mente, ame­aças, par­ti­cu­lar­mente no mo­delo es­ta­du­ni­dense. Mas a IA é apre­sen­tada como um ele­mento de de­ses­ta­bi­li­zação muito maior do que efe­ti­va­mente é para di­fundir in­se­gu­rança e medos que são fun­ci­o­nais para o sis­tema.

Nós temos as ten­dên­cias ao agra­va­mento ainda maior das de­si­gual­dades, que nunca ti­nham sido tão grandes na his­tória e ficam mai­ores a cada ano. Tudo isso con­tinua ge­rando ten­dên­cias au­to­ri­tá­rias de cor­rosão dos re­gimes de de­mo­cracia li­beral e for­ta­le­ci­mento de mo­vi­mentos po­lí­ticos e ide­o­lo­gias con­ser­va­doras, xe­nó­fobas e fas­cistas.

As ten­dên­cias sis­tê­micas, li­gadas ao de­clínio ou de­sar­ranjo da forma como o ca­pi­ta­lismo do­mi­nante se or­ga­ni­zava, cons­ti­tuem, então, o pano de fundo dos acon­te­ci­mentos cen­trais do ano de 2025 – e do que po­demos vi­su­a­lizar adi­ante, para 2026 e mais além.

Cor­reio da Ci­da­dania: A res­peito dessa noção de crise de ci­vi­li­zação, quando os Es­tados Unidos bom­bar­de­aram as ins­ta­la­ções nu­cle­ares do Irã o ex-chan­celer Celso Amorim falou em um se­mi­nário na USP que “a ordem global dos úl­timos 80 anos es­tava morta”. Tal ideia tem sido pro­pa­lada por di­versos ou­tros atores im­por­tantes. Con­corda com tal ra­ci­o­cínio, no âm­bito ge­o­po­lí­tico?

José Corrêa Leite: O grande acon­te­ci­mento do ano de 2025 foi, como disse, a volta do Trump ao poder nos Es­tados Unidos, com um pro­jeto na­ci­o­na­lista de corte ne­o­fas­cista. É o es­forço de uma par­cela da bur­guesia es­ta­du­ni­dense de tentar conter a ul­tra­pas­sagem econô­mica dos Es­tados Unidos pela China, con­cen­trando-se apenas na­quilo que a be­ne­ficia de ma­neira mais ime­diata.

A ordem saída do final da Se­gunda Guerra Mun­dial, a cha­mada de re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais ba­se­adas em leis e acordos mul­ti­la­te­rais, ali­cerçou-se em um pacto dos EUA com a União So­vié­tica, na for­mação da ONU e, dou­tri­na­ri­a­mente, até mesmo na apro­vação, em 1948, da De­cla­ração Uni­versal dos Di­reitos Hu­manos (DUDH). Com o co­lapso da URSS, os EUA se re­po­si­ci­o­naram para tor­narem estas ins­ti­tui­ções ainda mais fa­vo­rá­veis aos seus in­te­resses (por exemplo, com a cri­ação da Or­ga­ni­zação Mun­dial de Co­mércio e seu tra­tado de pro­pri­e­dade in­te­lec­tual), mas em um pro­cesso de glo­ba­li­zação que pa­recia vir­tuoso e be­ne­fi­ciava as classes ca­pi­ta­listas em todas as partes do mundo. A visão geral era que o de­sen­vol­vi­mento do mer­cado mun­dial de con­junto fa­vo­re­ceria a eco­nomia norte-ame­ri­cana. Isso mudou com a crise de 2008. Obama pro­curou manter os ve­lhos marcos, mas a eleição de Trump em 2016 já ex­pressou um des­con­ten­ta­mento com tal ori­en­tação. Agora Trump passa a des­cons­truir de ma­neira sis­te­má­tica muito do que vinha sendo cons­truído por Washington desde Fran­klin De­lano Ro­o­se­velt: os Es­tados Unidos como co­or­de­nador be­ne­vo­lente do sis­tema in­ter­na­ci­onal. Hoje, com Trump, os EUA se­quer as­si­na­riam a DUDH!

Trump e o setor da bur­guesia es­ta­du­ni­dense que o apoia têm uma ava­li­ação de que a inércia do sis­tema como mon­tado hoje não be­ne­ficia mais os Es­tados Unidos; be­ne­ficia a China. E há um quê de ver­dade neste di­ag­nós­tico con­ser­vador. Os Es­tados Unidos estão em de­clínio. Daí a agres­si­vi­dade tran­sa­ci­onal de Trump em ar­bi­tra­ri­a­mente não res­peitar ou al­terar as re­gras de re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais que não são ime­di­a­ta­mente fa­vo­rá­veis aos EUA.

Trump usou de todos os re­cursos pos­sí­veis para tentar obter van­ta­gens, às vezes as mais tri­viais, nas ne­go­ci­a­ções econô­micas in­ter­na­ci­o­nais, na con­tenção chi­nesa, no en­qua­dra­mento dos ali­ados, na pre­ser­vação de seus mer­cados e áreas de in­fluência. Ele tem o ob­je­tivo, a meu ver ilu­sório, de rein­dus­tri­a­lizar os EUA. Mas tem que se con­frontar com a re­si­li­ência chi­nesa. Di­fe­ren­te­mente de seu pri­meiro man­dato, quando ini­ciou guerras co­mer­ciais des­co­or­de­nadas, ele foi agora mais sis­te­má­tico, ob­tendo ga­nhos da Eu­ropa, Japão, Co­réia e muitos ou­tros países, que acei­taram so­bre­taxas uni­la­te­rais em suas ex­por­ta­ções para aos EUA. Mas agora a China es­tava pre­pa­rada para a ofen­siva, tirou de letra os ata­ques e o forçou a re­cuar em re­lação aos seus ob­je­tivos ime­di­atos frente a Pe­quim.

Vemos uma China muito mais con­fi­ante em suas pró­prias forças, mais pre­pa­rada e pre­sente no ce­nário in­ter­na­ci­onal. Mas não é só isso. Há também o co­lapso ge­o­po­lí­tico da Eu­ropa, pres­si­o­nada pela ex­pansão da Rússia na Ucrânia. Os eu­ro­peus se tor­naram muito mais sub­missos e dó­ceis ao go­verno de Washington. O go­verno Trump está cla­ra­mente contra a União Eu­ro­peia, quer es­ti­mular os pro­jetos na­ci­o­na­listas de ex­trema-di­reita contra os re­gimes de de­mo­cracia li­beral na Eu­ropa, por achar a União Eu­ro­peia, a de­mo­cracia li­beral, o wel­fare state e uma certa aber­tura aos imi­grantes uma ex­cres­cência, algo que vai contra os va­lores cris­tãos-oci­den­tais. As de­cla­ra­ções do vice-pre­si­dente Jack Vance e o que está dito na nova Es­tra­tégia de Se­gu­rança Na­ci­onal co­locam os EUA como ini­migo es­tra­té­gico da União Eu­ro­peia!

A po­sição eu­ro­peia no mundo recua para pa­ta­mares de qua­li­dade di­fe­rentes do que es­tavam evi­dentes até antes do início da in­vasão russa da Ucrânia. A po­la­ri­zação po­lí­tica é hoje entre Es­tados Unidos e China e a Eu­ropa perdeu toda a au­to­nomia que tinha para se po­si­ci­onar com au­to­nomia frente aos Es­tados Unidos. Al­guns pes­qui­sa­dores chamam de Nova Guerra Fria. Eu acho que, de fato, tem ana­lo­gias com a ri­va­li­dade entre Es­tados Unidos e União So­vié­tica no pós-Se­gunda Guerra Mun­dial, mas onde, di­fe­ren­te­mente da­quele mo­mento, os Es­tados Unidos não estão numa po­sição de su­pre­macia evi­dente. Os Es­tados Unidos estão ten­tando re­duzir suas perdas porque a China de­mons­trou es­tru­turar um ca­pi­ta­lismo de Es­tado mais efi­ci­ente no de­sen­vol­vi­mento das forças pro­du­tivas do que a eco­nomia ne­o­li­beral norte-ame­ri­cana.

Cor­reio da Ci­da­dania: De ma­neira que es­tamos di­ante de uma ir­re­sis­tível mu­dança de era?

José Corrêa Leite: A nova ordem ainda não está vi­sível, porque pre­cisa ou de um agra­va­mento do caos sis­tê­mico ou de uma pac­tu­ação que es­ta­bi­lize uma nova es­tru­tura sis­tê­mica. Tal pac­tu­ação não está no ho­ri­zonte. E não é só o pro­blema da China e Es­tados Unidos. É se a Eu­ropa vai aceitar ser uma es­pécie de colônia dos Es­tados Unidos; como a Índia vai se co­locar no ce­nário mun­dial, é a ter­ceira eco­nomia do mundo e ba­lança entre os EUA e o bloco China-Rússia; como a Rússia vai se po­si­ci­onar, pois tenta obter uma ne­go­ci­ação que lhe per­mi­tiria in­cor­porar uma parte da Ucrânia e neu­tra­lizar o res­tante (o que a União Eu­ro­peia vê como uma ameaça exis­ten­cial, já que ela “eu­ro­peizou” a Ucrânia que re­sistiu a Putin…).

Há vá­rios ele­mentos que não estão ainda de­fi­nidos, in­clu­sive sobre o Brasil, porque o Trump está ten­tando nor­ma­lizar a Amé­rica La­tina como quintal dos Es­tados Unidos. Mas vimos, através das po­si­ções de Lula, que o Brasil está tendo força para re­sistir. Lula con­se­guiu, pelo menos por en­quanto, se­gurar o tranco das ame­aças norte-ame­ri­canas e obter re­cursos de Trump na Guerra Ta­ri­fária, no apoio de Washington à Bol­so­naro, na sus­pensão da apli­cação da lei Mag­nitsky ao Ale­xandre de Mo­raes etc. Trump tentou en­qua­drar o Brasil e não con­se­guiu. E não con­se­guindo, ele re­con­fi­gura a ini­ci­a­tiva, bus­cando obter o que for pos­sível ao que en­xerga como in­te­resses dos EUA, ao mesmo tempo que es­cala a pressão sobre a Ve­ne­zuela.

É, con­tudo, im­por­tante res­saltar que quando fa­lamos de crise de ci­vi­li­zação, não es­tamos apenas fa­lando de pro­cessos po­lí­ticos, ge­o­po­lí­ticos ou econô­micos. Isso abarca o con­junto das formas de exis­tência hu­mana e de seu me­ta­bo­lismo com a na­tu­reza, que podem se tornar mais do­lo­rosos ou pe­nosos pelo cres­ci­mento dos pro­blemas li­gados à re­pro­dução so­cial ou pela des­truição do meio-am­bi­ente, mas também ao au­mento do es­tresse da vida co­ti­diana, à ex­pansão da vi­o­lência so­cial di­fusa, ao cres­ci­mento dos pa­de­ci­mentos men­tais, à di­fusão da de­ses­pe­rança e do vazio exis­ten­cial etc. Uma ci­vi­li­zação em crise deixa de ofe­recer um pro­pó­sito co­le­tivo para a exis­tência de seus mem­bros e se fra­tura. É por isso que vemos o re­torno ao tra­di­ci­o­na­lismo, a po­la­ri­zação po­lí­tica e ide­o­ló­gica e a di­fusão de fun­da­men­ta­lismos re­li­gi­osos.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como avalia mais es­pe­ci­fi­ca­mente o pri­meiro ano de go­verno Trump nos EUA? A des­peito dos dis­cursos hi­per­bó­licos de fazer ri­vais ajo­e­lhar, anexar países, ex­pulsar mi­lhões de imi­grantes, suas prá­ticas re­for­çaram uma ideia de de­ca­dência da he­ge­monia dos EUA?

José Corrêa Leite: Sim e não. Trump se co­locou uma ta­refa muito di­fícil e a so­ci­e­dade norte-ame­ri­cana está es­tru­tu­ral­mente di­vi­dida. Seu pro­jeto tem apelo po­pular, mas li­mi­tado. E o que é o pro­jeto Trump? É um pro­jeto de for­ta­lecer os EUA en­qua­drando seus ali­ados, fazê-los ar­carem com des­pesas que hoje são de Washington e pagar pela pro­teção mi­litar. Com isso, te­ríamos uma dre­nagem de re­cursos da Eu­ropa, do Japão, dos países com os quais os Es­tados Unidos ne­go­ciam para dentro de suas fron­teiras ge­o­po­lí­ticas. Ele quer tirar di­nheiro do resto do mundo e botar nos Es­tados Unidos com um pro­jeto de rein­dus­tri­a­li­zação que per­mita fazer frente à ex­pansão chi­nesa. É, ao mesmo tempo, a cri­ação in­terna de uma men­ta­li­dade de cerco, de modo a blo­quear o fluxo de imi­grantes e o de­clínio da base ét­nica, vin­cu­lado ao su­pre­ma­cismo branco, do mo­vi­mento MAGA.

Este ele­mento ex­pressa também, de forma en­vi­e­sada, uma cons­ci­ência de que a crise am­bi­ental vai pro­vocar gi­gan­tescos mo­vi­mentos de po­pu­lação já nas pró­ximas dé­cadas. É um mo­vi­mento pre­ven­tivo, que ob­vi­a­mente tem con­train­di­ca­ções. Não usar a mão de obra imi­grante em po­pu­la­ções que estão en­ve­lhe­cendo é con­tra­pro­du­cente para o ca­pi­ta­lismo. Mas na men­ta­li­dade do Trump é ne­ces­sário, assim como é ne­ces­sário rein­dus­tri­a­lizar os Es­tados Unidos.

Ele con­se­guiu al­gumas dessas coisas, al­guma dre­nagem de re­cursos através das ta­rifas, ou seja, se paga mais para ne­go­ciar com os Es­tados Unidos e estar sob o seu guarda-chuva nu­clear. In­ter­na­mente, sua po­lí­tica é fac­tível en­quanto não afetar o poder de compra de sua base elei­toral ou a mo­bi­li­zação da opo­sição a ele não es­calar. Mas a in­flação está cres­cendo e al­gumas ne­go­ci­a­ções, em es­pe­cial com a China, já estão pro­du­zindo danos. O caso da soja é o mais evi­dente. Os chi­neses não com­prarem a soja norte-ame­ri­cana des­trói uma par­cela da agri­cul­tura do meio-oeste do país. Assim, Trump teve de re­cuar, prin­ci­pal­mente em re­lação à China, mas também em re­lação ao Brasil. Foram os dois países do mundo que for­çaram Trump a re­cuar de­vido às con­tra­di­ções da sua po­lí­tica – co­meçam a pro­duzir, por exemplo, in­flação, falta de terras raras etc.

De outro lado, isso também tem efeitos in­ternos de mo­bi­li­zação da po­pu­lação imi­grante e dos se­tores pro­gres­sistas, ao per­filar se­tores do Par­tido De­mo­crata mais à es­querda. Veja-se a eleição de Zohran Mam­dani como pre­feito de New York. Assim, há uma maior po­la­ri­zação. Nós vamos ter uma sín­tese po­lí­tica na eleição de meio de man­dato, em no­vembro de 2026. Até agora, os de­mo­cratas ga­nharam todas as elei­ções im­por­tantes. Ou seja, Trump não pa­rece ter vida fácil no pro­cesso ins­ti­tu­ci­onal in­terno, em­bora tenha a mai­oria do Con­gresso e da Su­prema Corte.

O outro ponto é que a China se armou para essa guerra. Ela de­sen­volveu ini­ci­a­tivas muito sa­gazes. O que vimos sobre a questão das terras raras não foi feito de im­pro­viso. Isso é um pro­cesso que vem sendo cons­truído há 10 anos, porque as terras raras não são raras, mas exigem es­tru­turas de mi­ne­ração muito com­plexas e tem im­pactos im­por­tantes do ponto de vista am­bi­ental. Os chi­neses co­lo­caram muita energia para de­sen­vol­veram pro­cessos de mi­ne­ração desses ele­mentos.

A mesma coisa na questão dos chips. Os chi­neses estão de­sen­vol­vendo uma in­dús­tria na­ci­onal de chips desde o plano Made in China ini­ciado em 2015, ob­vi­a­mente, muito re­for­çado pelas dis­putas com o go­verno Trump I, Biden etc. A China já vinha se ar­mando para en­frentar uma pos­sível ten­ta­tiva dos Es­tados Unidos de des­co­nectar o país das ca­deias pro­du­tivas glo­bais de chips. Mas o grau de in­te­gração sis­tê­mica segue muito forte e vemos muito mais uma guer­rilha do que uma guerra aberta (veja-se como a China forçou a Ho­landa a re­cuar no caso da Nex­peria).

Cor­reio da Ci­da­dania: Aqui a cor­rida tec­no­ló­gica entra em cena nesta “Nova Guerra Fria”?

José Corrêa Leite: Sim, é es­tra­té­gico. É uma guerra fria di­fe­rente da época so­vié­tica, não estão mais no centro as armas nu­cle­ares ou os mís­seis ba­lís­ticos. Estão em jogo no mo­mento os chips uti­li­zados para trei­na­mento de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, que são con­ce­bidos pela NVIDIA, na Ca­li­fórnia, feitos pela TSMC de Taiwan e com má­quinas da ASML, da Ho­landa. Os EUA, em tese, con­trolam a ca­deia pro­du­tiva dos chips de ponta. E pen­savam que seria su­fi­ci­ente para conter o avanço da China na área.

Mas em­bora a China pre­cise de chips de ponta, está con­se­guindo con­tornar o pro­blema e busca de­sen­volver sua pró­pria ca­deia pro­du­tiva de chips avan­çados (como a série As­cend de ace­le­ra­dores de IA, pro­du­zida pelo Hu­awei). O mais de­ci­sivo, con­tudo, é que os chi­neses de­sen­vol­veram uma es­tra­tégia al­ter­na­tiva de abor­dagem das in­te­li­gên­cias ar­ti­fi­ciais. En­quanto os norte-ame­ri­canos estão bus­cando a in­te­li­gência ar­ti­fi­cial geral – isto é, OpenAI, Go­ogle, Meta estão bus­cando uma in­te­li­gência ar­ti­fi­cial capaz de, em úl­tima ins­tância, mi­me­tizar a mente hu­mana -, os chi­neses de­sen­vol­veram, ao in­vestir mais em ma­te­má­tica, in­te­li­gên­cias ar­ti­fi­ciais pe­ritas. Trata-se de sis­temas es­pe­cí­ficos, muito mais fun­ci­o­nais, com mais im­pacto e ra­ci­o­na­li­dade econô­mica: IAs para di­rigir drones, carros autô­nomos, ana­lisar ima­gens mé­dicas, fazer di­ag­nós­tico… Os chi­neses estão em outra es­tra­tégia de IA, que está dando certo e não ne­ces­sita dos mesmos chips da Nvidia. É evi­dente que eles também estão de­sen­vol­vendo as pes­quisas de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial geral a partir dos grandes mo­delos de lin­guagem (LLM), como vimos no caso do De­ep­Seek. Mas não es­tamos vendo, e talvez nunca ve­jamos, o im­pacto econô­mico desses mo­delos que as em­presas norte-ame­ri­canas ima­ginam que ob­terão.

Acho muito im­por­tante des­tacar outro ponto. Não temos uma única re­vo­lução tec­no­ló­gica, a do di­gital (e da IA); temos, ao mesmo tempo, a re­vo­lução tec­no­ló­gica da ele­tri­fi­cação da so­ci­e­dade, a cha­mada tran­sição ener­gé­tica e a adoção de toda uma in­fra­es­tru­tura econô­mica da so­ci­e­dade ba­seada em ener­gias re­no­vá­veis, eó­lica, solar, ba­te­rias, es­quemas de ar­ma­ze­na­mento, com ele­tri­fi­cação dos trans­portes. Aqui a van­tagem da China era co­lossal e Trump fa­ci­litou sua di­an­teira.

Os chi­neses es­tavam na frente, mas o Biden per­cebeu o pro­blema e or­ga­nizou os Es­tados Unidos para en­trar nessa dis­puta com a Lei de Re­dução da In­flação (In­fla­tion Re­duc­tion Act – IRA), que re­pre­sentou o maior in­ves­ti­mento em ener­gias re­no­vá­veis da his­tória dos EUA. Quando Trump as­sumiu, co­meçou a des­montar uma por uma todas as ini­ci­a­tivas do Biden di­zendo: “nós vamos ga­nhar dos chi­neses com as ta­rifas, a IA e os com­bus­tí­veis fós­seis”. É uma aposta te­me­rária, porque os chi­neses mexem com muito mais ele­mentos. O mo­vi­mento da eco­nomia chi­nesa, desse ponto de vista, me pa­rece muito mais or­gâ­nico do que o da eco­nomia norte-ame­ri­cana. Na foto da posse de Trump, es­tavam per­fi­lados os mag­natas das big techs que agora estão ami­gui­nhos dos mag­natas do pe­tróleo, do frac­king, dos com­bus­tí­veis fós­seis.

É claro que eles sabem que não podem se ba­sear em com­bus­tí­veis fós­seis para mover todos os data cen­ters que con­si­deram ser ne­ces­sá­rios para o salto tec­no­ló­gico da IA geral. O Bill Gates, por exemplo, está de­fen­dendo a volta das usinas nu­cle­ares. Mas é um mo­vi­mento caó­tico por parte da eco­nomia norte-ame­ri­cana e o Trump não dá ne­nhuma pre­vi­si­bi­li­dade, não dá ne­nhuma ra­ci­o­na­li­dade es­tra­té­gica para além de ga­rantir que não vai de­pre­ciar as es­tru­turas da eco­nomia fóssil e dará apoio in­con­di­ci­onal às big techs em tudo que elas qui­serem.

En­tendo que a aposta de Trump é li­mi­tada. Sua ori­en­tação geral está cau­sando mais pre­juízo do que aju­dando os Es­tados Unidos. Mas nós só vamos ver o re­sul­tado final disso em três, cinco anos.

Cor­reio da Ci­da­dania: Im­pos­sível falar da ar­qui­te­tura do sis­tema global sem co­locar o Ca­pital em sua es­fera di­gital e fi­nan­cista no centro do de­bate, dado que parte dos pro­pri­e­tá­rios de al­gumas grandes em­presas ou fundos fi­nan­ceiros acu­mulam mais poder que de­zenas de Es­tados na­ci­o­nais ou blocos re­gi­o­nais e in­cidem nos rumos de so­ci­e­dades de ma­neira que chega a pa­recer ir­re­sis­tível. Que im­por­tância você con­fere a estas ins­tân­cias na luta po­lí­tica do nosso tempo, con­si­de­rando ainda todas as so­ci­a­bi­li­dades me­di­adas pelas pla­ta­formas di­gi­tais e seus al­go­ritmos?

José Corrêa Leite: São vá­rias di­men­sões. Uma é que as big techs estão do­brando suas apostas com a IA geral. Sig­ni­fica que estão fa­zendo in­ves­ti­mentos co­los­sais em data cen­ters. Uma per­gunta com o ChatGPT con­some dez vezes mais energia do que uma per­gunta que você faria ao Go­ogle. Ou que o De­ep­Seek chinês de­mandou para o seu trei­na­mento. Os Es­tados Unidos estão in­ves­tindo uma quan­ti­dade co­lossal de di­nheiro nessa aposta da IA geral. E há quase um con­senso entre os es­pe­ci­a­listas de que isso é uma bolha. Por outro lado, o grau de sim­biose entre o ca­pital fi­nan­ceiro e o ca­pital das big techs é tal que não há outra saída para os Es­tados Unidos se não do­brar a aposta, a fim de evitar a per­cepção de bolha. Se não o fizer, se não do­brar a aposta sis­te­ma­ti­ca­mente, o pro­cesso afunda em uma di­nâ­mica de pi­râ­mide. Mas uma bolha só é bolha quando es­toura. Al­gumas vezes con­segue-se geri-la para que não es­toure e é isso que o ca­pi­ta­lismo es­ta­du­ni­dense está ten­tando fazer. Com que re­sul­tado, ve­remos. Este é um as­pecto.

Mas não gosto muito de falar das big techs vin­cu­ladas prin­ci­pal­mente à IA. Eu acho que o fenô­meno de fundo é a da­ti­fi­cação, porque as big techs cres­ceram na me­dida em que, com os smartphones e as redes so­ciais, re­a­li­zaram uma cap­tura geral de dados pes­soais. Todo tipo de in­for­mação foi trans­for­mada em dados, que podem ser pro­ces­sados ma­te­ma­ti­ca­mente e ge­ridos al­go­rit­mi­ca­mente. Daí que as big techs cres­ceram com a da­ti­fi­cação geral das re­la­ções econô­micas e da so­ci­a­bi­li­dade e com a me­di­ação di­gital de tudo pelas redes so­ciais e pla­ta­formas. O Fa­ce­book foi aberto para uso geral em 2006 e Iphone lan­çado em 2007. Em vinte anos a pai­sagem econô­mica e so­cial do mundo se al­terou ra­di­cal­mente. As IAs são apenas as ce­rejas do bolo da so­ci­e­dade da­ti­fi­cada e me­diada di­gi­tal­mente.

O poder das big techs norte-ame­ri­canas não é só econô­mico, é antes de mais nada uma fer­ra­menta de do­mi­nação ide­o­ló­gica. Tanto que Trump tem, frente às ame­aças de­cor­rentes da re­gu­lação das big techs por ou­tros países (como a União Eu­ro­peia e a Aus­trália), re­a­gido como se fossem ata­ques à so­be­rania ou aos in­te­resses es­tra­té­gicos dos Es­tados Unidos. E para os fas­cistas norte-ame­ri­canos, isso é ver­dade. Os norte-ame­ri­canos estão tra­tando pra­ti­ca­mente todo o resto do mundo que não con­segue impor li­mites às pla­ta­formas como o seu quintal, à ex­ceção da China e da Rússia.

Mas as re­sis­tên­cias existem. A Aus­trália, por exemplo, aprovou um pro­cesso de des­pla­ta­for­mi­zação das cri­anças até 16 anos. É lei, já en­trou em vigor e é um pro­cesso in­dis­pen­sável. O Par­la­mento Eu­ropeu também aprovou uma re­gu­lação se­me­lhante, para que me­nores de 16 anos não acessem as redes so­ciais. Bernie San­ders acaba de propor que me­nores de idade não possam ter acesso aos pro­gramas de chatbox; os pro­blemas men­tais – in­clu­sive sui­cí­dios – estão au­men­tando nas con­versas de cri­anças com as IAs que vão se tor­nando suas “con­fi­dentes” ou “me­lhores amigas”.

Isso é muito, muito im­por­tante. Nós es­tamos as­sis­tindo a uma pan­demia de en­fer­mi­dades men­tais (an­si­e­dade, de­pressão, dé­ficit de atenção, bur­nout…), cuja causa mais óbvia são as pla­ta­formas, as redes so­ciais, aos pro­gramas de IA, a adição ao uso do smartphone e às telas desde cedo. Se­gundo al­guns in­di­ca­dores, elas já atingem 25 a 30% da hu­ma­ni­dade. Nós já es­tamos com ge­ra­ções que nas­ceram com o smartphone e isso foi re­con­fi­gu­rando o cé­rebro dos agora ado­les­centes, assim como de cri­anças atuais, e li­te­ral­mente da­ni­fi­cando as ca­pa­ci­dades men­tais de par­celas im­por­tantes da po­pu­lação. Uma parte do dano é ir­re­pa­rável, mas temos que lutar pelo di­reito das novas ge­ra­ções à saúde mental, a uma vida com va­lores po­si­tivos, a expor-se menos à enorme vi­o­lência sim­bó­lica que as redes atu­al­mente exis­tentes car­regam. Esse é um em­bate ci­vi­li­za­ci­onal de maior al­cance, que vi­a­bi­li­zará a exis­tência ou não de novas ge­ra­ções aptas a lu­tarem pelo fu­turo ou serem ades­tradas como zumbis ou fas­cistas.

Quem tra­balha com edu­cação sabe que o nível de pro­blemas vai muito além do de­clínio cog­ni­tivo. Uma pes­quisa no sis­tema es­colar norte-ame­ri­cano mos­trou que existia um au­tista para cada 2.500 cri­anças em 1980. Hoje existe um au­tista para cada 31 cri­anças. Mesmo que os dados não sejam exatos, é uma mul­ti­pli­cação im­pres­si­o­nante. Ou seja, as big techs estão re­a­li­zando o maior ex­pe­ri­mento de tec­no­logia so­cial da his­tória da hu­ma­ni­dade. E com re­sul­tados cla­ra­mente de­sas­trosos para a hu­ma­ni­dade, mas muito lu­cra­tivos para seus donos. As big techs de­sen­vol­veram tec­no­lo­gias adi­tivas e me­ca­nismos de ga­mi­fi­cação de todas as di­men­sões das re­la­ções com as redes, que criam me­ca­nismos de de­pen­dência atrozes e têm im­pacto grande sobre sua au­to­es­tima, ca­pa­ci­dade de ini­ci­a­tiva e es­ta­bi­li­dade psí­quica. As pes­soas que crescem nessas con­di­ções têm muito menos con­di­ções de res­ponder às de­mandas do mer­cado de tra­balho, às de­mandas de vida autô­noma.

Não vou me es­tender aqui sobre tal tema, mas essa é uma questão de so­bre­vi­vência para a es­querda. As redes e pla­ta­formas pri­vadas se tor­naram o apa­relho ide­o­ló­gico cen­tral do fas­cismo con­tem­po­râneo e estão tendo uma con­tri­buição fun­da­mental para a di­fusão de mo­vi­mentos na­ci­o­na­listas re­gres­sivos, con­ser­va­dores, re­a­ci­o­ná­rios, ne­o­fas­cistas, todo es­pectro tra­di­ci­o­na­lista, fun­da­men­ta­lista re­li­gioso. Pre­ci­samos romper com isso, cons­truindo so­be­rania di­gital e de­sen­vol­vendo uma nova es­fera pú­blica sub­me­tida às re­gras do de­bate ci­dadão, que con­tenha os dis­cursos de ódio.

Cor­reio da Ci­da­dania: No Nepal, o go­verno caiu porque tentou blo­quear todas as redes so­ciais de uma só vez, o que na prá­tica in­ter­dita a vida so­cial real. Como en­frentar um poder tão avas­sa­lador, que atra­vessa nossas re­la­ções so­ciais, pes­soais, afe­tivas, pro­du­tivas, in­te­lec­tuais?

José Corrêa Leite: Há uma re­mi­ti­fi­cação do ima­gi­nário dos usuá­rios dessas em­presas que agora está se agra­vando. Bi­lhões de pes­soas não vão mais con­se­guir dis­tin­guir vi­su­al­mente entre ver­dade e men­tira com os pro­dutos feitos por IAs. Ainda é meio pre­cário, vemos coisas gro­tescas, mas cres­cen­te­mente a dis­tinção entre ver­dade e men­tira pela imagem se torna mais di­fícil. Se al­guém conta uma lo­rota, a hu­ma­ni­dade aprendeu, ao longo de mi­lê­nios, a ter des­con­fi­ô­metro para ques­ti­onar sua ve­ra­ci­dade. Mas se al­guém vê uma imagem na cir­cu­lação fugaz das redes, a re­ação ime­diata, até in­tui­tiva, dos seres hu­manos é con­si­derar que isso é ver­dade. Isso agora deixou de cor­res­ponder à re­a­li­dade com a di­fusão das IAs. As IAs são ex­pressão or­gâ­nica de um novo tipo de im­pe­ri­a­lismo que não é só econô­mico, é também um im­pe­ri­a­lismo psí­quico.

Isso sig­ni­fica que, a menos que um país ob­tenha sua so­be­rania di­gital, terá sempre quinta co­lunas atu­ando no seu in­te­rior via Big Techs. E a busca por tal so­be­rania vai exigir ati­tudes po­lí­ticas muito drás­ticas. Tem de ser ob­jeto de po­lí­ticas es­tra­té­gicas, os países devem ter redes pró­prias, re­le­gi­timar li­mi­ta­ções às pla­ta­formas, como a Aus­trália faz. As redes não podem tudo. Não po­demos en­tregar a for­mação do ima­gi­nário da in­fância à vo­ra­ci­dade das big techs – já vemos o im­pacto disso sobre os me­ninos que vão ade­rindo à “ma­chos­fera”. De­vemos cons­truir gra­da­ti­va­mente a per­cepção de que devem existir li­mites – como o Felca co­meçou a fazer no Brasil, com a proi­bição ainda par­cial dos ce­lu­lares nas es­colas. Porque as tec­no­lo­gias di­gi­tais podem ter ou­tras con­fi­gu­ra­ções. Pode-se ter pla­ta­formas co­o­pe­ra­tivas, já ti­vemos há dé­cadas no mo­vi­mento do software livre. Pre­ci­samos re­con­quistar a le­gi­ti­mi­dade para se romper com a na­tu­ra­li­zação do poder das big techs e sua co­lo­ni­zação do nosso ima­gi­nário.

Cor­reio da Ci­da­dania: Além da es­fera pro­du­tiva in­for­ma­ci­onal-di­gital, a te­má­tica am­bi­ental apa­rece como as­sunto in­con­tor­nável sobre as pos­si­bi­li­dades fu­turas da hu­ma­ni­dade.

José Corrêa Leite: Como dito no início, o sis­tema cli­má­tico deu um salto de qua­li­dade para um pa­tamar mais quente. Grosso modo, todo o re­fe­ren­cial do de­bate cli­má­tico é dado pelo Acordo de Paris de 2015. A ideia era que os países ne­go­ci­assem re­du­ções das emis­sões de modo a pre­servar as tem­pe­ra­turas abaixo de 1,5 grau em re­lação ao nível pré-in­dus­trial.

Ora, a tem­pe­ra­tura já subiu mais de 1,5 graus no ano pas­sado e no ano an­te­rior e, por­tanto, já deu um salto para um pa­tamar que se ima­gi­nava como meta para 2050 – foram 35 anos em 10. Neste pa­tamar, por exemplo, os co­rais de re­cife do pla­neta estão sendo des­truídos; uma grande parte já foi bran­queada. Sig­ni­fica que os mai­ores ha­bi­tats de peixes, dos quais de­pendem de grandes po­pu­la­ções de pes­ca­dores, deixam de existir.

Os re­cifes de co­rais são um dos pontos de vi­rada, de rup­tura. O sis­tema cli­má­tico já co­meça a co­nhecer rup­turas. Por exemplo, se ima­gi­nava que a Amazônia po­deria se­gurar uma ele­vação de tem­pe­ra­tura de até 4 graus sem co­lapsar. Mas a flo­resta está muito de­gra­dada. Nós já temos 17%, 18% da flo­resta des­truída e, por­tanto, a re­si­li­ência e ca­pa­ci­dade de re­sistir, manter os seus fluxos em tem­pe­ra­turas mais altas, se reduz. Talvez ela não re­sista a um au­mento de tem­pe­ra­tura de 2 graus. A mesma coisa com o de­gelo do per­ma­frost, que tem enormes re­ser­va­tó­rios de me­tano, um gás de efeito es­tufa muito mais po­de­roso do que o CO2. Nós es­tamos co­me­çando a ter o de­gelo da Gro­en­lândia e com isso o início da re­dução da força da cor­rente do Golfo, ou mais am­pla­mente do motor das cor­rentes ma­rí­timas (a cha­mada cir­cu­lação ter­moha­lina global). Uma par­cela ainda pe­quena da An­tár­tica, con­ti­nente des­pro­vido de ve­ge­tação, co­meçou a se es­ver­dear; lí­quens estão agora cres­cendo na Pe­nín­sula An­tár­tica. Tudo isso sig­ni­fica que o pro­cesso de aque­ci­mento está muito mais rá­pido do que se ima­gi­nava.

Cor­reio da Ci­da­dania: Quais se­riam, nesse con­texto, os im­pactos hu­manos das ques­tões am­bi­en­tais?

José Corrêa Leite: Os im­pactos sobre as po­pu­la­ções crescem ainda mais ve­loz­mente. Nós vimos Porto Alegre e o Rio Grande do Sul em 2024. No início de de­zembro, mais de mil pes­soas mor­reram na In­do­nésia, em en­chentes. A re­gião em torno do tró­pico de câncer – sul dos Es­tados Unidos, norte do Mé­xico, sul da Eu­ropa, norte da África, Ori­ente Médio, Pa­quistão, Índia, Ban­gla­desh – está aque­cendo de uma ma­neira ex­plo­siva.

Qual o ho­ri­zonte disso? In­vi­a­bi­lizar a agri­cul­tura, su­ca­tear in­fra­es­tru­turas so­ciais e econô­micas, in­vi­a­bi­lizar a pre­sença hu­mana em muitos dias do ano. O Brasil, por exemplo, que é um grande ex­por­tador de com­mo­di­ties agrí­colas, pro­du­zidas no Cer­rado, em Ma­to­piba e no Su­deste, de­pende dos rios vo­a­dores da Amazônia que já estão se re­du­zindo. Um de­serto já nasceu no Nor­deste.

Qual é a con­sequência so­cial mais es­tra­té­gica? Grandes des­lo­ca­mentos de po­pu­lação. A am­bi­en­ta­lista in­glesa Gaia Vince pu­blicou um livro em que de­fine o sé­culo XXI como o “Sé­culo Nô­made”. É um fenô­meno que os his­to­ri­a­dores com uma visão ampla co­nhecem muito bem. No pas­sado, exis­tiram grandes co­lapsos de ci­vi­li­zação que ti­veram como ele­mento de­to­nador grandes mi­gra­ções. Foi o caso do co­lapso da Era do Bronze, lá pelo ano 1000 a.C. Foi o caso do co­lapso do Im­pério Ro­mano do Oci­dente, nos sé­culos IV e V. Foi o caso de todas as ci­vi­li­za­ções des­truídas pelos des­lo­ca­mentos das po­pu­la­ções mon­góis, por volta de 1200. Pe­ri­o­di­ca­mente, quando uma so­ci­e­dade mais or­ga­ni­zada tem algum ele­mento ex­tre­ma­mente dis­fun­ci­onal, po­pu­la­ções se movem, mi­gram e des­troem as que se opõem a isso. O Im­pério Ro­mano foi ab­sor­vendo mi­grantes em todo o seu pro­cesso de de­clínio. Chegou um mo­mento, no sé­culo V, onde as mi­gra­ções foram mai­ores do que a ca­pa­ci­dade ro­mana de ab­sorver os recém-che­gados. Esse é um com­po­nente, em­bora nem de longe o mais im­por­tante, do que po­demos chamar de co­lapso. O cen­tral é que o sis­tema já não fun­ciona mais.

As so­ci­e­dades ur­banas estão tran­si­tando para outra “lei de po­pu­lação”, di­fe­rente do pe­ríodo de maior êxodo rural, e a queda na na­ta­li­dade é ex­pressão disso (e do em­po­de­ra­mento das mu­lheres). Os imi­grantes são a so­lução para que essa tran­sição seja mais suave. Mas a imagem de “hordas bár­baras de gente pobre e ame­a­ça­dora que vai in­vadir a nossa terra” as­sola boa parte da ex­trema di­reita iden­ti­ta­rista e xe­nó­foba na Eu­ropa, nos Es­tados Unidos e mesmo na Ásia, que adere a te­o­rias de cons­pi­ração para “subs­ti­tuição de po­pu­la­ções”. Isso não pode ser ex­pli­ci­ta­mente re­co­nhe­cido pelo Trump, porque ele diz que o aque­ci­mento global é uma fan­tasia. Mas os es­tra­te­gistas do De­par­ta­mento de De­fesa, agora De­par­ta­mento de Guerra, já estão can­sados de pu­blicar en­saios sobre o im­pacto das mu­danças cli­má­ticas na se­gu­rança norte-ame­ri­cana que le­vantam tais temas.

Cor­reio da Ci­da­dania: Neste sen­tido, a COP-30 foi sín­tese fiel deste im­passe ge­ne­ra­li­zado das ci­vi­li­za­ções?

José Corrêa Leite: As ne­go­ci­a­ções cli­má­ticas che­garam a um ponto li­mite. Belém deixou evi­dente que é im­pos­sível ne­go­ciar qual­quer tran­sição ener­gé­tica com a Arábia Sau­dita, Rússia e ou­tros países pe­tro­leiros. Mesmo o Brasil também teve uma po­sição muito am­bígua. De­fende uma tran­sição ener­gé­tica no dis­curso, mas dobra a aposta na ex­plo­ração de pe­tróleo. Não dá para pensar que as COPs vão en­frentar as mu­danças cli­má­ticas.

Oi­tenta países dis­seram, na COP-30 que pre­ci­sá­vamos de um mapa da tran­sição para fora dos com­bus­tí­veis fós­seis, nas ne­go­ci­a­ções am­bi­en­tais. É im­pres­cin­dível, mas se o es­quema é o con­senso das COPs, não vamos ter nunca. Es­gotou. Colômbia e Ho­landa con­vo­caram a Pri­meira Con­fe­rência In­ter­na­ci­onal para a Eli­mi­nação Pro­gres­siva dos Com­bus­tí­veis Fós­seis, agen­dada para 28 e 29 de abril de 2026. É uma ini­ci­a­tiva frágil porque o go­verno da Colômbia pro­va­vel­mente ex­pi­rará no mês se­guinte, quando tem eleição pre­si­den­cial e as pes­quisas in­dicam que a di­reita vai ga­nhar. Mas é tudo que temos.

O ne­ga­ci­o­nismo cli­má­tico é hoje um com­po­nente cen­tral da po­lí­tica da ex­trema-di­reita e do ne­o­fas­cismo. Está di­re­ta­mente vin­cu­lada a im­pe­ri­a­lismos mais agres­sivos e guerras de con­quista. Gaza é, nesse sen­tido, o la­bo­ra­tório do fu­turo das po­pu­la­ções des­car­tá­veis. A si­tu­ação pa­les­tina é um pro­cesso pelo qual se in­sen­si­bi­liza po­pu­la­ções para com o ge­no­cídio e se ba­na­liza as mor­tan­dades em es­cala in­dus­trial. Gos­taria de chamar a atenção para o pe­queno li­vrinho do An­dreas Malm “A des­truição da Pa­les­tina é a des­truição do pla­neta”, que des­nuda muito bem essas co­ne­xões.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como fica nossa re­gião nesta di­nâ­mica im­pe­ri­a­lista?

José Corrêa Leite: Temos um re­cru­des­ci­mento dos es­forços do im­pe­ri­a­lismo ame­ri­cano de en­qua­drar a Amé­rica La­tina como sua zona de in­fluência pri­vi­le­giada, como seu quintal. Mas isso vale também para o Ca­nadá e a Gro­en­lândia, as­so­ciada à Di­na­marca.

Eu diria que, para dis­cutir as pers­pec­tivas do Brasil e da Amé­rica La­tina, de­vemos des­tacar a nova na­tu­reza do im­pe­ri­a­lismo. Trump quer aplicar em todo o con­ti­nente um im­pe­ri­a­lismo de ca­nho­neira. É um im­pe­ri­a­lismo aber­ta­mente in­ter­ven­ci­o­nista, que volta a ga­nhar aquelas con­fi­gu­ra­ções mais ul­tra­jantes do final do sé­culo 19 e início do sé­culo 20, que ge­raram a ideia de re­pú­blica de ba­nana. Isto é, se a United Fruits tinha um pro­blema na Ni­ca­rágua, li­gava para pre­si­dente dos EUA, que man­dava os ma­ri­ners der­ru­barem o go­verno ou en­fren­tarem re­be­liões.

Essa fa­ceta mais rude do im­pe­ri­a­lismo tinha sido ate­nuada de­pois da Se­gunda Guerra Mun­dial pelos mo­vi­mentos de des­co­lo­ni­zação e pelas der­rotas de mo­vi­mentos in­ter­ven­ci­o­nistas (prin­ci­pal­mente no Vi­etnã). Mas agora vol­tamos a um ne­oim­pe­ri­a­lismo em que as fa­cetas mais bru­tais se co­locam no pri­meiro plano, como vemos agora no tra­ta­mento da Ve­ne­zuela de Ma­duro. Is­rael é li­te­ral­mente uma guar­nição dos Es­tados Unidos que tru­cida toda a po­pu­lação em volta em favor de seus de­síg­nios de manter um Es­tado de fa­ná­ticos re­li­gi­osos. Trump bom­bar­deou, nesses dias, uma re­gião da Ni­géria que co­nhece con­flitos que ele avalia serem per­se­guição dos mul­çu­manos aos cris­tãos (e ana­listas crí­ticos serem um con­flito entre pas­tores e agri­cul­tores). Ele abre os EUA para re­ce­berem brancos afri­ca­ners, que eram pi­lares do re­gime do apartheid na África do Sul, con­si­de­rando-os ví­timas de per­se­guição! Su­pre­ma­cismo branco e cristão, im­pe­ri­a­lismo gro­tesco e fas­cismo se mis­turam nas re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais sob Trump.

Eu acho que em um mundo onde a força pode ser usada ar­bi­tra­ri­a­mente em função do in­te­resse na­ci­onal, os países vão se di­vidir entre aqueles que con­se­guem manter sua so­be­rania e aqueles que se su­bor­dinam, ou têm que se su­bor­dinar. O Brasil, a Índia, a Rússia, a China, a África do Sul (os cha­mados BRICS), não são países pe­quenos e vul­ne­rá­veis. Uma bur­guesia como a bra­si­leira passou a fazer ne­gó­cios de uma ma­neira muito mais mul­ti­la­teral. Hoje ela tem na eco­nomia chi­nesa sua prin­cipal cli­ente. Isso dá mais margem de ma­nobra para a eco­nomia bra­si­leira do que, por exemplo, os países centro-ame­ri­canos.

Mesmo um país como o Mé­xico, vi­zinho dos Es­tados Unidos e muito vin­cu­lado à sua eco­nomia, é um país cuja eco­nomia tem um peso que lhe dá con­di­ções de fazer certas ne­go­ci­a­ções. O Sa­muel Pi­nheiro Gui­ma­rães fa­lava da era dos gi­gantes; eu acho que o Brasil, por qual­quer cri­tério, é um país que, quando con­segue uni­dade in­terna, tem con­di­ções de força em ne­go­ci­a­ções in­ter­na­ci­o­nais. É um dos poucos países no mundo que está es­tru­tu­ral­mente em con­di­ções de manter uma po­sição de não ali­nha­mento, porque des­locou o eixo das suas ex­por­ta­ções para a China e das im­por­ta­ções também. E a China, es­per­ta­mente, também co­meça a in­vestir for­te­mente ca­pi­tais no Brasil, o que re­força a margem de ma­nobra do país.

Cor­reio da Ci­da­dania: Você vê o Brasil sob Lula como palco pri­vi­le­giado de uma po­la­ri­zação também de viés ci­vi­li­za­tório que opõe, para além de elei­ções e per­so­na­li­dades po­lí­ticas, uma dis­puta de pro­jeto so­cial que varia entre o so­li­dário e o seu oposto?

José Corrêa Leite: O go­verno Lula tem cla­reza de al­guns dos pro­blemas es­tru­tu­rais da nova con­fi­gu­ração ge­o­po­lí­tica do mundo. A ma­neira como re­agiu às ta­rifas foi muito hábil. E o Lula é uma ser­pente capaz de en­cantar os es­pec­ta­dores. O Brasil está, dessa forma, exer­cendo sua so­be­rania na­quilo que ela tem de mais bá­sica. Mas se­ri­amos mais ri­go­rosos se fa­lás­semos, como o Jorge Al­meida, que o “go­verno Lula está con­for­tável com uma po­sição sub­so­be­rana”.

Quais são, então, os pro­blemas? O pri­meiro é que o exer­cício efe­tivo de so­be­rania não se detém na questão das ta­rifas, mas ne­ces­sita ques­ti­onar o re­gime econô­mico do livre-co­mércio, a glo­ba­li­zação ne­o­li­beral, que é uma es­tru­tura de poder for­te­mente hi­e­rar­qui­zada. A es­querda deve ser contra o livre-co­mércio, que ar­ti­cula as classes do­mi­nantes dos países im­pe­ri­a­listas com a dos países do­mi­nados. O co­mércio mun­dial deve obe­decer a de­ter­mi­na­ções de de­sen­vol­vi­mento na­ci­onal so­be­rano e a con­di­ci­o­nantes so­ciais e am­bi­en­tais, que devem su­bor­dinar a ação das em­presas ca­pi­ta­listas.

O se­gundo é a pró­pria na­tu­reza do mo­delo econô­mico mon­tado nos úl­timos 35 anos no país, um ne­o­li­be­ra­lismo de­sin­dus­tri­a­li­zante, ne­o­ex­tra­ti­vista, fos­si­lista e pre­dador da na­tu­reza, in­capaz de res­ponder às ne­ces­si­dades das massas ur­banas de um país onde 85% da po­pu­lação vive nas ci­dades, mas o co­ração da eco­nomia está nas ati­vi­dades pri­mário-ex­por­ta­doras. Não temos po­lí­tica in­dus­trial e Lula apa­rece como um de­fensor in­gênuo de um ne­o­li­be­ra­lismo ex­tem­po­râneo em um mundo que se des­glo­ba­liza e volta a se blocar.

O ter­ceiro é que a so­be­rania passa cada vez mais por li­mitar o papel po­lí­tico das big techs, por re­gulá-las, como faz a Eu­ropa; já vimos isso aqui com o X de Elon Musk. Mas a Meta e o Go­ogle estão co­ti­di­a­na­mente uti­li­zando suas pla­ta­formas para be­ne­fi­ciar as forças con­ser­va­doras. Sem re­gu­lação e li­mi­tação do poder das redes e pla­ta­formas, armas de des­truição em massa estão di­a­ri­a­mente nas mãos do Cen­trão e do fas­cismo bra­si­leiro e vamos vê-las sendo usadas nas elei­ções. Aí não só o Brasil é mais vul­ne­rável, mas também existe uma menor cons­ci­ência po­lí­tica dos atores pro­gres­sistas sobre o tema – a visão de boa parte do pe­tismo de tais temas não se dis­tingue da di­reita, como vemos no caso do Mi­nis­tério da Edu­cação con­tra­tando uma em­presa fas­cista como a Pa­lantir! O go­verno Lula não é capaz nem mesmo de proibir as bets, que es­folam di­a­ri­a­mente a classe tra­ba­lha­dora bra­si­leira. O pe­tismo está pelo menos três dé­cadas de­fa­sado em tudo que diz res­peito ao di­gital. Este é o te­lhado de vidro mais ime­diato da dis­cussão sobre so­be­rania hoje no Brasil.

O ju­di­ciário bra­si­leiro teve um papel muito im­por­tante em neu­tra­lizar os gol­pistas de 8 de ja­neiro e isso cria re­a­li­dades in­con­tor­ná­veis. A di­reita no Brasil está di­vi­dida e com di­fi­cul­dades de ne­go­ci­ação, em­bora seja pos­sível que no final feche em torno do Tar­císio. Mas o pro­cesso está sendo cus­toso e dá mais es­paço po­lí­tico para ma­no­brar – em­bora o go­verno Lula não tenha ne­nhuma po­lí­tica es­tra­té­gica senão des­colar uma parte do Cen­trão para apoiá-lo nas pró­ximas elei­ções. Mas, ao fazê-lo, tem que aceitar po­lí­ticas con­ser­va­doras que re­forçam so­ci­al­mente as bases “do boi, da bala e da bí­blia”.

Al­gumas me­didas po­si­tivas foram apro­vadas, como o Im­posto de Renda, em­bora sejam ainda li­mi­tadas, mas podem ga­nhar uma nova qua­li­dade se o go­verno con­se­guir aprovar o fim da jor­nada 6×1 e a re­dução para 40 horas se­ma­nais. A ex­trema-di­reita aposta na agenda de se­gu­rança pú­blica, uma fra­gi­li­dade da es­querda, e nas guerras cul­tu­rais, que sempre trazem os temas do con­ser­va­do­rismo para a cena po­lí­tica. Nos dois, as redes e pla­ta­formas estão ao lado da ex­trema-di­reita.

Cor­reio da Ci­da­dania: Aqui, vol­tamos ao pro­blema de­ba­tido nos úl­timos anos, isto é, a es­querda tenta fazer go­vernos so­ci­al­mente mais justos, porém, sem mexer nos mo­delos econô­micos pro­du­tores das de­si­gual­dades, in­jus­tiças e vi­o­la­ções de todo tipo. Do outro lado, a ul­tra­di­reita apa­rece com sua crí­tica do “sis­tema”, da forma mais frau­du­lenta pos­sível, pois no fim das contas apenas apro­funda a vi­ru­lência deste sis­tema e ainda por cima se re­vela com­ple­ta­mente cor­rupta.

José Corrêa Leite: No caso do Brasil, o Banco Cen­tral é uma enorme bola de ferro pren­dendo qual­quer go­verno pro­gres­sista. Temos uma dre­nagem ab­surda de re­cursos para os se­tores fi­nan­cei­ri­zados. O ren­tismo de­fende seus pri­vi­lé­gios com unhas e dentes. E o pe­ríodo do bol­so­na­rismo deixou uma pa­to­ló­gica he­rança de fi­si­o­lo­gismo no Con­gresso Na­ci­onal. A pa­lavra de ordem “Con­gresso ini­migo do povo” é um pá­lido re­flexo dessa re­a­li­dade.

Na ver­dade, está mais para aquilo que o Lula fa­lava lá nos anos 90, dos “300 pi­ca­retas com anel de doutor”, do que qual­quer outra coisa. É ficha po­li­cial. Tal con­fi­gu­ração faz com que cen­trão e a ex­trema-di­reita tendam a uni­ficar-se, mas com di­fi­cul­dades, porque o bol­so­na­rismo não larga o osso.

O go­verno Lula, com todos os seus pro­blemas e tendo, pelo menos mo­men­ta­ne­a­mente, dri­blado o pro­blema maior do trum­pismo, dá algum ho­ri­zonte de res­piro nesse mundo tão hostil. E como mos­trou a eleição chi­lena, e pode mos­trar a da Colômbia – em­bora Petro tenha um le­gado mais só­lido a ofe­recer à can­di­da­tura de Ivan Ce­peda – a si­tu­ação está di­fícil na Amé­rica La­tina. A ex­trema di­reita está na ofen­siva, não na de­fen­siva. O Brasil é a ex­ceção, mas pre­ci­samos zelar para que o caldo não en­torne. E ga­nhar tempo para en­frentar os dois pro­blemas es­tru­tu­rais sem os quais não há re­cons­trução da es­querda: uma es­querda que seja ecos­so­ci­a­lista e ba­talhe por um mo­delo econô­mico co­e­rente e que com­pre­enda a cen­tra­li­dade da so­be­rania e da re­gu­lação do di­gital.

Se não ti­vermos os dois ele­mentos equa­ci­o­nados, di­fi­cil­mente po­derá ocorrer uma nova ofen­siva de um pro­jeto de es­querda no mundo. O ca­pi­ta­lismo de Es­tado chinês é mais efi­ci­ente do que o norte-ame­ri­cano, mas não é re­pli­cável porque em úl­tima ins­tância re­pousa na he­rança de uma re­vo­lução so­ci­a­lista vi­to­riosa, uma das mai­ores do sé­culo 20, a Re­vo­lução Chi­nesa de 1949 e a res­tau­ração ca­pi­ta­lista con­so­li­dada em 1989. Em­bora a China seja um ca­pi­ta­lismo de Es­tado, temas como o da so­be­rania não são abertos à dis­cussão na­quele país, como o são aqui.

Cor­reio da Ci­da­dania: Con­ti­nu­amos na al­ter­nância de go­vernos de es­querda e di­reita que não con­tornam as es­tru­turas ge­ra­doras da frus­tração so­cial em suas po­pu­la­ções.

José Corrêa Leite: De modo mais pre­ciso, é uma al­ter­nância de go­vernos pro­gres­sistas ou re­a­ci­o­ná­rios. Ex­plica grande parte do que ocorre na Amé­rica La­tina, mas está sendo sub­ver­tida pela di­reita. Porque se a di­reita trum­pista re­al­mente fizer es­cola e con­se­guir se es­ta­bi­lizar, o es­paço para os pro­gres­sismos será fe­chado. Temos hoje pelo mundo uma di­fusão de re­gimes au­to­ri­tá­rios desde dentro de de­mo­cra­cias li­be­rais ou de­mo­cra­cias re­pre­sen­ta­tivas, que estão sub­ver­tendo as bases das li­ber­dades de­mo­crá­ticas. Isso vale para a Índia e para a Tur­quia, não é um pro­cesso só da Eu­ropa ou das Amé­ricas. Temos re­a­ções pro­gres­sistas (Mam­dani, Your Party do Corbyn…), mas en­quanto não exis­tirem grandes par­tidos e mo­vi­mentos an­tis­sis­tê­micos, o es­paço pri­vi­le­giado para agi­tação an­tis­sis­tê­mica con­ti­nuará, em cada eleição, nas mãos dos fas­cistas.

Para fe­char, po­demos dizer que a ta­refa po­lí­tica cen­tral co­lo­cada para 2026 é, mais do que nunca, não apenas com­bater as ame­aças elei­to­rais fas­cistas, mas cons­truir es­querdas que sejam an­tis­sis­tê­micas e fe­chem o es­paço para a ex­trema-di­reita se apre­sentar como porta-voz do des­con­ten­ta­mento po­pular.

***

Pós-es­crito de 8 de ja­neiro de 2026:

A en­tre­vista acima foi re­a­li­zada em 16 de de­zembro de 2025. No dia 3 de ja­neiro, Trump atacou a Ve­ne­zuela e se­ques­trou Ni­colás Ma­duro. É um acon­te­ci­mento de enorme re­le­vância, que jus­ti­fica um pós-es­crito à en­tre­vista.

Ele gira es­sen­ci­al­mente em torno da per­gunta “Es­tamos di­ante de uma ir­re­sis­tível mu­dança de era?”, e da minha res­posta “A nova ordem ainda não está vi­sível, porque pre­cisa ou de um agra­va­mento do caos sis­tê­mico ou de uma pac­tu­ação que es­ta­bi­lize uma nova es­tru­tura sis­tê­mica… Há vá­rios ele­mentos que não estão ainda de­fi­nidos, in­clu­sive sobre o Brasil, porque Trump está ten­tando nor­ma­lizar a Amé­rica La­tina como quintal dos Es­tados Unidos”.

Mas o ataque de Trump à Ve­ne­zuela, não só pela ação mi­litar em si (que pa­rece ter con­tado com o apoio ativo de ele­mentos in­ternos ao cha­vismo), mas prin­ci­pal­mente pela forma como ela foi apre­sen­tada e jus­ti­fi­cada, marca um salto adi­ante na mi­li­ta­ri­zação das re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais. Trump eli­minou todo ro­deio ide­o­ló­gico para apre­sentar a ope­ração como uma ga­rantia do con­trole do que Washington vê como sua es­fera de in­fluência e afirmar o pe­tróleo da Ve­ne­zuela como pro­pri­e­dade dos Es­tados Unidos. É a pi­lhagem de re­cursos pela força bruta, roubo à mão ar­mada. Ne­nhuma ve­lei­dade de res­taurar a de­mo­cracia na Ve­ne­zuela – a ad­mi­nis­tração do país é dei­xada às fac­ções do PSUV, desde que as pe­tro­leiras ian­ques possam ex­trair o “ouro negro”.

Em­bora a Amé­rica Cen­tral e o Ca­ribe co­nhe­cessem múl­ti­plas in­ter­ven­ções mi­li­tares dos EUA (a úl­tima foi no Pa­namá, em 1989), é a pri­meira ope­ração desse es­tilo na Amé­rica do Sul. De­pois de Gaza, do Irã, da Ni­géria (outro país pe­tro­leiro), Trump mul­ti­plica as ame­aças: a Gro­en­lândia, o Pa­namá, a Colômbia, o Mé­xico, o Ca­nadá, quem sabe se amanhã o Brasil. Os EUA se tor­naram um “rogue state”, um “es­tado fora da lei”.

Ju­lian Borger, cor­res­pon­dente in­ter­na­ci­onal sê­nior do The Guar­dian, afirmou que a “pu­ti­ni­zação da po­lí­tica ex­terna dos EUA chegou na Ve­ne­zuela”. Vla­dimir Sa­fatle es­creveu que es­tamos frente a uma ter­ceira onda co­lo­nial. Trump nos diz como pre­tende gerir o de­clínio do poder es­ta­du­ni­dense, cada vez mais vi­sível de­pois de 2008 – pelo uso da força mi­litar para im­pul­si­onar pro­cessos ne­o­co­lo­niais. Essa ope­ração evi­dencia a pro­funda iden­ti­dade com outro au­to­crata, Vla­dimir Putin, que, in­con­for­mado com o co­lapso so­vié­tico, quer re­a­firmar o poder russo ane­xando mi­li­tar­mente o que puder da Ucrânia e de ou­tros países vi­zi­nhos.

Es­ta­ríamos vol­tando, como diz Sa­fatle, às prá­ticas das po­tên­cias que, em Berlim, em 1885, di­vi­diram a África? Ou ao “grande jogo” entre o Reino Unido e o Im­pério Cza­rista na Ásia Cen­tral, no final do sé­culo 19? Creio que as re­fe­rên­cias para as li­de­ranças ne­o­fas­cistas dos EUA são bem mais rús­ticas: a po­lí­tica de ca­nho­neira da vi­rada para o sé­culo 20, o “big stick”, o por­rete grande, de The­o­dore Ro­o­se­velt…

Essa ex­pe­ri­ência maior pa­rece apontar para uma cer­teza, ao mesmo tempo em que des­taca outro as­pecto que ainda pa­rece estar em aberto (ao menos no que eu con­sigo hoje en­xergar).

Es­ta­be­leceu-se uma po­lí­tica de re­co­lo­ni­zação tru­cu­lenta da Amé­rica La­tina por parte de Washington que re­de­fine o ho­ri­zonte es­tra­té­gico dos países da re­gião. Isso de­manda uma forte uni­dade na luta anti-im­pe­ri­a­lista como não víamos desde o ciclo da Re­vo­lução Cu­bana. Trump quer os re­cursos na­tu­rais do con­ti­nente – antes de tudo o pe­tróleo que se es­gota nos Es­tados Unidos -, mas também negar acesso aos mer­cados da re­gião para os con­cor­rentes chi­neses.

Como afirma Pedro Fu­entes: “A ta­refa his­tó­rica in­con­clusa da uni­dade la­tino-ame­ri­cana volta a ser uma ne­ces­si­dade es­tra­té­gica di­ante da crise mun­dial. Par­tindo da so­li­da­ri­e­dade ativa com a Ve­ne­zuela, é pre­ciso pensar na ne­ces­si­dade da de­fesa comum da so­be­rania, no con­trole po­pular dos re­cursos es­tra­té­gicos e na co­or­de­nação das lutas contra o ca­pital trans­na­ci­onal e o mi­li­ta­rismo im­pe­rial. O ne­ga­ci­o­nismo de Trump — que tem em Milei, Katz e Bu­kele ali­ados in­con­di­ci­o­nais — não só leva a mais ex­plo­ração dos tra­ba­lha­dores, mas também à ex­pro­pri­ação dos re­cursos na­tu­rais, à de­vas­tação da Amazônia, à con­ta­mi­nação dos rios e a mai­ores crises cli­má­ticas”.

A ta­refa não é fácil, em parte porque a es­querda ou o pro­gres­sismo vem se en­fra­que­cendo em cada ex­pe­ri­ência de go­verno ou de poder no con­ti­nente. Se o pro­gres­sismo so­cial-li­beral en­ca­minha po­lí­ticas de mer­cado que en­fra­quecem a base so­cial da es­querda, os casos de de­ge­ne­ração bu­ro­crá­tica da Ni­ca­rágua e da Ve­ne­zuela pre­pa­raram o ter­reno onde Trump pode de­sen­ca­dear, como afirma Pablo Ste­fa­noni, “a mais grave e im­pune in­ter­venção im­pe­ri­a­lista dos úl­timos tempos”. O autor se per­gunta, no El País, se “um Muro de Berlim não está caindo para a es­querda la­tino-ame­ri­cana?” Pa­rece-me que a frase tem um al­cance maior do que o autor dá a ela no seu ar­tigo. Não po­demos nos es­quecer que Cuba – que so­bre­viveu ao co­lapso so­vié­tico de 1989/91 – se apre­senta, para Marco Rubio e os gu­sanos de Miami, como uma ob­sessão e agora como um alvo vul­ne­rável.

O ataque contra a Ve­ne­zuela, não foi apenas contra a Ve­ne­zuela, foi contra o Brasil. Como o país da Amé­rica La­tina com mais con­di­ções es­tru­tu­rais de se opor a Trump, a luta anti-im­pe­ri­a­lista passa pela pró­xima eleição pre­si­den­cial. Ela vai de­finir se quem go­ver­nará o país será um bra­si­leiro, mi­ni­ma­mente fo­cado em algo que pode ser qua­li­fi­cado como in­te­resses na­ci­o­nais, ou um fun­ci­o­nário de Trump. Uma par­cela da bur­guesia bra­si­leira tem uma in­serção mul­ti­la­teral na eco­nomia mun­dial e fica des­con­for­tável com a ori­en­tação de su­primir o sis­tema global de co­mércio. De todo modo, creio que a te­má­tica anti-im­pe­ri­a­lista pode ser um fator im­por­tante para em­purrar a po­lí­tica bra­si­leira mais para a es­querda.

Por outro lado, a ti­bieza das re­a­ções eu­ro­peias – com ex­ceção da Es­panha – aponta para sua mar­gi­na­li­zação no ce­nário ge­o­po­lí­tico global. Isso co­loca uma questão muito im­por­tante, que vou as­si­nalar, mas não res­ponder: a crise do ne­o­li­be­ra­lismo pa­rece levar as classes ca­pi­ta­listas em todas as partes a de­ri­varem para saídas au­to­ri­tá­rias ou, o que a longo prazo leva à mesma con­clusão, sen­tirem-se im­po­tentes para ofe­re­cerem res­postas re­pu­bli­canas a ela. O atual trio de go­ver­nantes eu­ro­peus – Merz, Ma­cron e Starmer – é tão me­díocre que não pode ex­pressar apenas ca­rac­te­rís­ticas pes­soais, mas pro­va­vel­mente prin­ci­pal­mente traços es­tru­tu­rais do de­clínio po­lí­tico do con­ti­nente.

A gestão mi­litar do de­clínio norte-ame­ri­cano com o ca­ráter na­ci­o­na­lista ra­cista e xe­nó­fobo que o trum­pismo lhe dá con­du­zirá a hu­ma­ni­dade, quase que cer­ta­mente, para uma “ar­ma­dilha de Tu­cí­dides”. Os EUA, o he­gemon de­cli­nante, pre­fere a des­truição ge­ne­ra­li­zada do que re­cuar – como já vemos na questão dos com­bus­tí­veis fós­seis. Com a agra­vante que as armas nu­cle­ares se apre­sentam como um risco su­ple­mentar às ten­dên­cias ao co­lapso am­bi­ental e aos pe­rigos das tec­no­lo­gias dis­rup­tivas. Tudo in­dica que muita coisa será de­ci­dida pela força das armas.

Mas há um ele­mento em aberto: a re­ação da China. Ela pro­cu­rará ou acei­tará uma pac­tu­ação im­plí­cita? Washington acei­tará o preço disso (que passa, no mí­nimo, pela ane­xação de Taiwan)? Mas Trump abriu o pre­ce­dente e perde con­dição de ques­ti­onar uma even­tual in­vasão da ilha… Pe­quim está, por ora, se co­lo­cando como de­fen­sora do mul­ti­la­te­ra­lismo e di­zendo que não vai abrir mão de seus ne­gó­cios na Amé­rica La­tina. Mas não sa­bemos até quando.

Vol­tando à per­gunta, creio que agora po­demos dizer que Trump está nos em­pur­rando ra­pi­da­mente para uma mu­dança de era, en­ter­rando o que so­brava do sis­tema mul­ti­la­teral do pós-Se­gunda Guerra Mun­dial. Temos um forte agra­va­mento das ten­dên­cias de­sa­gre­ga­doras do sis­tema in­ter­na­ci­onal, que se torna qua­li­ta­ti­va­mente mais caó­tico.

O mundo ficou muito mais pe­ri­goso em 3 de ja­neiro!

Ga­briel Brito é jor­na­lista, re­pórter do site Outra Saúde e editor do Cor­reio da Ci­da­dania


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