Acesso e cidadania pautam abertura do Emancipa Itapira
Emancipa Itapira

Acesso e cidadania pautam abertura do Emancipa Itapira

Encontro de abertura do cursinho popular reuniu estudantes e convidados para debater os desafios da educação pública, o impacto das plataformas digitais e a formação crítica da juventude

Vanderlei Tenório 16 jun 2026, 09:14

Foto: Edvaldo Matos/Mandato Mariana Conti

A inauguração do cursinho Emancipa Itapira, realizada no sábado (13), foi marcada por um amplo debate sobre os desafios da educação pública, a permanência estudantil, o avanço das grandes plataformas tecnológicas e as desigualdades que atravessam a sociedade brasileira.

O encontro reuniu estudantes de escolas públicas do município e contou com a participação do professor e vereador Leandro Sartori e da vereadora de Campinas, pesquisadora e doutoranda da Unicamp, Mariana Conti. A mediação ficou a cargo de Vanderlei Tenório e João Fray.

O vínculo inseparável entre sala de aula e luta política

O debate teve início com reflexões sobre a trajetória dos convidados e a relação entre educação e participação política. Leandro Sartori relembrou sua experiência como estudante da UNESP de Assis, no início dos anos 2000, destacando uma greve estudantil realizada em 2003 para impedir o cancelamento de contratos de moradia universitária.

“A luta política é um reflexo da luta que nós temos no nosso dia a dia. Não há uma divisão clara entre o professor e o vereador. A criticidade é um ponto crucial e a história deve ser sempre olhada sob um viés crítico”, afirmou.

Para o vereador, a atividade política não está dissociada da prática educativa. Segundo ele, as discussões que surgem nas salas de aula frequentemente refletem as experiências concretas vividas pelos estudantes.

Ao lecionar Filosofia e Sociologia, Sartori afirma observar alunos trabalhadores relacionando conceitos clássicos, como a mais-valia de Karl Marx, às condições que enfrentam diariamente no mercado de trabalho.

A seu ver, a educação só cumpre plenamente seu papel quando estimula a reflexão crítica sobre a história e a sociedade.

Aprendizados do movimento estudantil e a barreira da permanência

Ao ser questionada sobre aquilo que o movimento estudantil ensina para além dos conteúdos formais da universidade, Mariana Conti destacou o protagonismo e a capacidade de organização coletiva desenvolvidos nesses espaços.

Segundo a pesquisadora, os modelos tradicionais de ensino tendem a posicionar os estudantes como receptores passivos do conhecimento, enquanto a militância estudantil estimula a participação ativa e a intervenção na realidade.

Mariana também ressaltou conquistas obtidas por meio da mobilização social, como a ampliação das políticas de cotas raciais, sociais e de gênero nas universidades públicas. Ao mencionar a recente greve estudantil na Unicamp, destacou avanços relacionados à expansão de moradias universitárias e às discussões sobre mudanças nos programas de assistência estudantil.

“Não basta apenas conseguir o acesso e entrar na universidade. A luta para entrar é individual e coletiva, mas o grande desafio para os filhos da classe trabalhadora e para a negritude é a permanência. A bolsa trabalho, por exemplo, penaliza o estudante pobre ao exigir dele horas extras de serviços burocráticos e manuais em troca do auxílio, enquanto o jovem de classe alta pode dedicar-se exclusivamente à pesquisa”, afirmou.

Para Mariana Conti, a permanência estudantil segue sendo um dos principais desafios do ensino superior brasileiro, especialmente para jovens da classe trabalhadora. Segundo a pesquisadora, determinadas modalidades de assistência acabam reproduzindo desigualdades ao impor exigências adicionais aos estudantes mais pobres, dificultando sua dedicação plena às atividades acadêmicas e à produção de conhecimento.

A disputa cognitiva e as armadilhas da tecnologia nas escolas

Um dos momentos mais debatidos do encontro girou em torno do uso de celulares nas escolas e dos impactos da inteligência artificial na educação.

Ao comentar a legislação que restringiu o uso de smartphones em sala de aula, Leandro Sartori afirmou que os resultados observados foram positivos. Segundo ele, houve melhora na atenção dos estudantes durante as aulas e uma retomada das interações presenciais nos espaços escolares.

Contudo, Sartori alertou que a proibição dos celulares resolve apenas uma parte do problema. Para ele, o desafio mais profundo está na disputa de valores e visões de mundo promovida pelas Big Techs, cujos algoritmos expõem jovens e adultos a um fluxo constante de desinformação, notícias falsas e interpretações distorcidas da realidade.

Mariana Conti aprofundou essa análise ao discutir o avanço da inteligência artificial e o papel das plataformas digitais. Segundo a pesquisadora, os algoritmos tendem a privilegiar conteúdos capazes de gerar engajamento, mesmo quando promovem violência simbólica, desinformação ou ataques a grupos sociais.

Os palestrantes também criticaram a utilização de sistemas automatizados para corrigir produções textuais de estudantes. Na avaliação deles, esse modelo estimula a escrita padronizada e reduz a liberdade intelectual dos alunos, que passam a produzir textos orientados por critérios algorítmicos em vez de desenvolver sua própria capacidade argumentativa.

Durante a mediação do debate, Vanderlei Tenório observou que “o que está acontecendo hoje com o uso das plataformas digitais na educação é uma automação do pensamento. Os alunos estão sendo treinados para escrever redações que sejam aprovadas por um algoritmo de inteligência artificial, e não para desenvolver o pensamento crítico. Isso destrói a criatividade e a capacidade de reflexão porque, se o estudante sai do padrão que a máquina espera, zera a nota. Ele acaba gastando sua energia treinando o robô, em vez de aprimorar a própria escrita”.

Os debatedores alertaram que esse processo pode subordinar a formação dos estudantes às exigências das máquinas, comprometendo o exercício da criatividade, da reflexão e do pensamento crítico.

O apagão docente e a crítica à educação dual

Outro tema central do debate foi a escassez de professores e o crescente adoecimento dos profissionais da educação.

Leandro Sartori afirmou que o chamado apagão docente resulta de décadas de desvalorização salarial e profissional. Para o vereador, a situação tornou-se ainda mais grave após a pandemia, com a expansão da plataformização do ensino e o aumento das exigências burocráticas impostas aos educadores.

Segundo Sartori, muitos professores passaram a dedicar uma parcela significativa do tempo ao preenchimento de formulários, relatórios e metas administrativas, reduzindo o espaço para o trabalho pedagógico e contribuindo para o desgaste emocional da categoria.

Relacionando esse cenário às desigualdades estruturais do país, Mariana Conti abordou o conceito de educação dual. Segundo ela, coexistem no Brasil dois modelos educacionais distintos.

De um lado, escolas frequentadas pelas elites oferecem atividades culturais diversificadas, experiências formativas amplas e estímulo ao desenvolvimento criativo. De outro, grande parte da população trabalhadora recebe uma formação mais limitada, frequentemente orientada para atender demandas imediatas do mercado de trabalho.

“É uma educação pobre, com professores pobres, voltada para os pobres e pensada apenas para suprir as necessidades imediatas do mercado de trabalho”, ressaltou Conti.

Para a pesquisadora, essa divisão ajuda a compreender por que perspectivas pedagógicas voltadas para a emancipação e o pensamento crítico, como as defendidas por Paulo Freire, continuam a gerar resistência em setores conservadores da sociedade.

O Emancipa como janela e ponte para além do isolamento local

Na etapa final do encontro, a discussão voltou-se para a realidade dos jovens de Itapira e para o papel do cursinho popular na ampliação de oportunidades educacionais.

Leandro Sartori observou que, apesar da proximidade geográfica com instituições como Unicamp, USP e UNESP, muitos estudantes ainda percebem a universidade pública como um espaço distante ou inacessível. A falta de informação e as necessidades econômicas imediatas frequentemente levam jovens a abandonar os estudos e ingressar precocemente no mercado de trabalho.

Segundo ele, uma das funções centrais do Emancipa é justamente combater essa barreira simbólica, divulgando informações sobre programas de permanência estudantil, moradia universitária, restaurantes universitários e bolsas de auxílio existentes nas instituições públicas de ensino superior.

Nesse sentido, o cursinho funciona não apenas como um espaço de preparação para vestibulares, mas também como uma ponte entre a juventude periférica e os direitos educacionais frequentemente desconhecidos por grande parte da população.

No encerramento, os convidados destacaram que a experiência de um cursinho popular ultrapassa a preparação para exames. Leandro Sartori comparou a trajetória de estudos a uma maratona que exige persistência e constância.

Mariana Conti, por sua vez, enfatizou a importância da solidariedade e do apoio mútuo entre os estudantes. “Coragem é um sentimento do coletivo. Nós precisamos dar suporte e apoio umas às outras para as batalhas que estão por vir”, concluiu.


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