Depois da frustração brasileira na Copa
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Depois da frustração brasileira na Copa

Para toda frustração, lições são necessárias e precisamos usar do espírito de ação e reflexão coletiva para pensar nos próximos passos da luta

Israel Dutra 9 jul 2026, 18:53

Foto: Jogadores da seleção brasileira de futebol. (Tom Weller/GI)

O Brasil esteve com os olhos vidrados nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, na paixão pelo futebol, elemento fundante da cultura nacional, durante a dramática despedida do Brasil da Copa; em outra chave, pela discussão no terreno estadunidense do tarifaço que Trump quer implementar e deverá ter repercussões centrais no cenário político e econômico.

A derrota futebolística foi amarga. O Brasil caiu nas oitavas de final, diante da Noruega, equipe com pouca ou nenhuma tradição no futebol mundial. Foi a pior campanha desde 1990, quando a Argentina de Cannigia e Maradona eliminou o Brasil na segunda fase da Copa da Itália. Lamúria geral.

A frustração brasileira caminha junto a uma seleção que não empolgou. Fruto do espírito do tempo, encarnou a razão neoliberal: jogadores desentrosados, falta de um projeto comum, treinador estrangeiro, quase todo elenco jogando fora do país. As raras exceções traçadas pelo brilhante Vini Jr e o carismático Endrick não foram capazes de suplantar um projeto esvaziado de sentido. Fica o símbolo de um arrogante e mimado Neymar, capitaneando um projeto que se tornou um multiplicador de propagandas de Bets, sem condição de unir a paixão nacional e a eficácia esportiva. Retrato das crises do esporte nacional, onde a CBF acumula corrupção e descrédito.

A derrota diante da Noruega só não foi pior que o escândalo da Copa, envolvendo a política e o trumpismo. O todo poderoso Gianni Infantino, presidente da FIFA, simplesmente alterou as regras do torneio para favorecer o jogador norte-americano Balogun, expulso na partida contra a Bósnia. Trump ligou para a FIFA “ordenando” a retirada do cartão vermelho.

A impronta de Trump é um sintoma de como a extrema direita força sua linha: quebrando regras e acordos previamente existentes, para pela via da força fazer valer seus interesses. O caso do cartão vermelho, desmoralizando um árbitro brasileiro reconhecido e experiente, Raphal Clauss, é uma decisão sem precedentes. Arranha a Copa e o futebol, anunciando um mundo “sem limites” disputado pela extrema direita.

A soberania em questão

Na semana em que tivemos a eliminação brasileira e o escândalo Trump, tivemos a rodada de audiências acerca do tarifaço, organizadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), contando com a participação do governo brasileiro e de setores da oposição de direita. O veredito final deve sair até o dia 15 de julho.

Com o comércio entre os países no menor nível da história, um ano após o começo do debate do “tarifaço”, a decisão do dia 15 terá impacto direto na economia nacional.

Mauro Vieira declarou ainda que a classificação do PCC e CV como organizações terroristas poderiam abrir caminho para uma intervenção militar no país, o que Trump refutou como “absurdo”.
Flávio Bolsonaro, envolto nas crises provocadas pelo caso Master e pela fissura com Michelle, busca dialogar com Trump para “adiar” as tarifas, o que na prática, é um atestado de vassalagem.

O evidente argumento de que os Bolsonaro são agentes direto do trumpismo, ou seja, “vendilhões da pátria”, como Lula chegou a declarar, serve como peça importante do debate político. Contudo, é preciso ir muito além.

É preciso fazer da defesa da soberania um dos motores principais da luta política no país.

Virar o jogo

Para toda frustração, lições são necessárias. É triste ver milhões de famílias, de trabalhadores, de crianças, cabisbaixas e desanimadas com a derrota da seleção brasileira. É triste ver aqueles que vendiam bandeiras, usando a camiseta para ganhar um “troco a mais” nos dias de jogo ter que voltar para a casa agora sem essa possibilidade. Porém, precisamos usar do espírito de ação e reflexão coletiva para pensar nos próximos passos.

Quem não vibrou com a seleção de Cabo Verde, pequena, coletiva e aguerrida, dando exemplo de força coletiva? A Copa “dos de baixo” é a outra face da moeda de um mundo cada vez mais marcado pela crise do capitalismo e pela disputa do sentido comum.

Para tanto, devemos nos empoderar da força do coletivo, de todo povo brasileiro, resiliente, que como diz o ditado “não desiste nunca”. E elencar na vida social, mas também política quais são os desafios:

Lutar finalmente para fazer valer a redução da jornada de trabalho, começar uma campanha para regular e taxar as terríveis bets e preparar o time para a disputa central do segundo semestre, a luta contra a extrema direita e pela soberania nacional. Aliás, a redução da jornada de trabalho, materializada na lei que vai abolir a odiosa escala 6×1 está travada no Senado, pelas mãos do Centrão de Alcolumbre, ecoando a burguesia que ainda quer desmontar o projeto. É preciso insistir num plano de lutas verdadeiro para pressionar.

Cada uma dessas tarefas tem seus caminhos, mas articula-se a partir de uma esquerda independente e anticapitalista que vai para as eleições para afirmar um programa.

O Diretório Nacional do PSOL do próximo dia 18 de ulho tem a oportunidade de “armar o time” para dar cabo dessas lutas, que só são possíveis com mobilização nas ruas, redes e locais de trabalho, moradia e estudo. Precisamos virar o jogo.


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