O Rio Paraná é parte da disputa geopolítica mundial
A sanha do imperialismo e da extrema direita exige dos povos uma resistência cada vez maior
Milei renovou a concessão da hidrovia Paraná–Paraguai, entregando-a à empresa belga Jan De Nul, culminando um processo de privatização que vem se acelerando. Nada é mais emblemático do que esse novo ataque à soberania nacional e ao meio ambiente na mesma semana em que se celebrava o Dia da Bandeira, feriado pátrio argentino, em 20 de junho.
Milei esteve em Rosário nessa data, sendo recebido por um importante protesto e enfrentando alta rejeição por parte da população. Trata-se de uma ilustração do atual cenário político da Argentina e da localização dessa disputa no âmbito da geopolítica mundial, visto o papel do porto de Rosário na distribuição mundial de alimentos e grãos.
A resistência à privatização e à entrega vem sendo organizada pelo Fórum pela Recuperação do Rio Paraná, que se contrapõe à devastação promovida por grandes empresas de capital estrangeiro, como a Cargill.
Tive a oportunidade de participar do IV Encontro pela Soberania Nacional, em Rosário, a convite de companheiros e companheiras do Fórum, debatendo, em diversos painéis, tarefas comuns para a resistência e a integração latino-americana. Foi um debate intenso, plural e que ocorreu no momento certo.
O Encontro de Rosário
A quarta edição do Encontro Federal pela Soberania ocorreu durante as celebrações do Dia da Bandeira, como já citado, em Rosário. Além de representar uma resposta objetiva ao ato de Milei, o encontro teve um caráter combativo, diverso e plural.
A abertura contou com mais de mil participantes, oriundos de diferentes partes da Argentina. Havia uma numerosa delegação da juventude, presença sindical, lideranças dos povos originários e camponeses, além de representantes da intelectualidade e do movimento popular. Alguns deputados também estavam presentes, como Blanca Osuna, da província de Entre Ríos. O destaque do ato de abertura foi a presença de uma delegação de ex-combatentes das Malvinas, que leu uma declaração em defesa da soberania nacional após a execução do Hino Nacional. O movimento piqueteiro também esteve presente, com lideranças como Juan Carlos Alderete.
Foram realizadas 25 oficinas e debates simultâneos, reunindo mais de 150 painelistas, com temas que iam do movimento operário às questões de soberania alimentar, cultura, recursos estratégicos e meio ambiente.
Pude participar da mesa que discutiu a conjuntura internacional, ao lado de companheiros do Uruguai, Paraguai, Bolívia e Argentina. A atividade foi mediada e coordenada pelos companheiros Luciano Orellano, um dos intelectuais e dirigentes do Fórum pela Recuperação do Rio Paraná, e pela experiente dirigente Elena Ríos, responsável pelas relações internacionais do Partido Comunista Revolucionário da Argentina.
O espaço foi muito fértil, pois abriu caminho para um debate sobre a conjuntura internacional que condenou o imperialismo estadunidense sem cair no campismo daqueles que fazem apologia a outros imperialismos, como o chinês e o europeu. A solidariedade com a rebelião boliviana, o interesse pela derrota estratégica de Trump no Irã e a defesa da integração latino-americana foram os temas comuns que sintetizaram os debates.
Havia também uma delegação de brasileiros, entre eles companheiros da UP de Porto Alegre, militantes do núcleo do PT na Argentina e ativistas do movimento estudantil da UNR, onde a combativa gestão do Centro de Estudantes de Ciências Médicas mantém estreita relação com a comunidade brasileira.
A abertura do encontro, conduzida pela dirigente Evangelina Codoni, demonstrou a pluralidade do espaço ao receber todos com muita hospitalidade e generosidade, sob os lemas “A pátria não se vende” e “Fora ianques da América Latina”.
Privatização e entrega do Rio Paraná
Responsável pela circulação de 80% das exportações agroindustriais e automotivas da Argentina, o Rio Paraná e sua bacia hidrográfica são parte fundamental da disputa geopolítica mundial.
A empresa belga Jan De Nul, por exemplo, acaba de conquistar a concessão para a dragagem do Porto de Santos. Disputado por potências como os Estados Unidos, a China e países europeus, o controle da hidrovia do Paraná e da circulação de mercadorias que passa por ela é considerado estratégico.
O Paraná é o principal rio da Bacia do Prata, sendo considerado um dos dez mais importantes do mundo. Com quase cinco mil quilômetros de extensão, percorre diversos países da América do Sul, destacando-se no território brasileiro e abastecendo a Usina Hidrelétrica de Itaipu. Na Argentina, atravessa sete províncias e abriga, em Rosário, um dos portos mais importantes do planeta, responsável por concentrar o comércio e o transporte de grãos e outros produtos.
Vale citar uma das obras de Luciano Orellano, Argentina sangra pelas barrancas do Rio Paraná, na qual realiza um dos estudos mais completos e extensos sobre o tema.
“Não há dúvidas de que na Argentina cresceu exponencialmente sua produção e seu comércio agropecuário. Porém, esse crescimento está tragicamente concentrado e centralizado, enquanto reina soberano o capital estrangeiro. Monopólios imperialistas como Cargill, Bunge, ADM e Toepfer (estadunidenses), Dreyfus (francesa), Cofco e Nidera (chinesas), entre outras, dominam o setor estratégico de nossa economia e, portanto, delineiam grande parte das políticas econômicas em aliança com os latifundiários nativos e estrangeiros.” (Orellano, 2013, p. 29)
A privatização do Paraná obedece à lógica ultraliberal de Milei, sustentando também um projeto de reversão neocolonial que entrega a soberania nacional ao imperialismo liderado por Trump.
Tapajós e Paraná: nossos rios sob a sanha dos bilionários
Personagem constante nessa história de destruição e saque, a Cargill aparece como uma das principais empresas operadoras desse projeto. Não por acaso, trata-se da mesma empresa que esteve por trás da tentativa de privatização dos rios amazônicos.
A batalha, expressa sobretudo na comunidade do Baixo Tapajós, foi exemplar. O movimento indígena organizou a resistência desde a COP-30, realizada em Belém no final do ano passado, e derrotou a proposta do governo federal após uma heroica ocupação da planta da Cargill em Santarém.
O Brasil, mesmo tendo à frente um governo dito progressista, também mantém as transnacionais no controle da produção do agronegócio e de olho nas riquezas naturais. O conluio entre os grandes latifundiários brasileiros e as grandes corporações transnacionais constitui a base da devastação, unindo o agronegócio, o extrativismo e os garimpeiros na destruição do meio ambiente. É também a base social de apoio ao golpismo, expresso em Bolsonaro e em Ricardo Salles, ministro que entrou para a história como o principal propagandista da ideia de “passar a boiada”. A linha da extrema direita é desregulamentar ainda mais e destruir nossas riquezas.
A força do movimento indígena foi impressionante. De forma coletiva e organizada, o movimento torceu o braço da Cargill e da linha do governo, conquistando uma das maiores vitórias do ano.
A defesa de ambos os rios é uma tarefa central, que reúne questões ambientais, econômicas e políticas. Ela faz parte de uma unidade multissetorial capaz de colocar em ação movimentos populares e sociais em torno de uma pauta comum: a defesa dos rios como bens públicos. Essa é uma forma de conter a sangria promovida pela extrema direita e pelas grandes corporações dos diferentes imperialismos contra nossas nações.
Um projeto que combine a defesa incondicional do meio ambiente com as tarefas de libertação nacional deve ser construído por meio de um bloco social e histórico que una indígenas, ribeirinhos, juventude e a classe trabalhadora do campo, da cidade e da floresta.
Paraná e Tapajós: podemos ecoar a consigna de que nossa luta é uma só.
Um passo à frente para resistir
Conhecer, interagir e construir pontes para fortalecer a integração latino-americana é uma tarefa central. O encontro de Rosário foi um passo à frente nessa direção. Da mesma forma, a realização da I Conferência Antifascista, em Porto Alegre, foi um exemplo da convergência dessas lutas.
O exemplo da recente rebelião do povo boliviano também aponta caminhos.
Os processos estão se radicalizando. A sanha do imperialismo e da extrema direita exige dos povos uma resistência cada vez maior. Saio de Rosário com a certeza de que temos muitas convergências e de que Milei, mais cedo ou mais tarde, será derrotado pelo combativo povo argentino, o mesmo que lutou no Cordobazo, enfrentou a ditadura militar, combateu bravamente nas Malvinas e, em 2001, protagonizou a rebelião popular conhecida como Argentinazo.