O antifascismo de Ginzburg: um olhar acerca os condenados da terra
O escritor e historiador Carlo Ginzburg faleceu na madrugada do dia 15 de junho, deixando-nos um legado extraordinário de crítica social
Quis a fortuna da história que em minhas mãos esteja o livro “ A melhor época das nossas vidas”, justamente contando a saga dos Ginzburg, pelo biografo definitivo de Mussolini, Antonio Scuratti. Uma obra maravilhosa, que entrelaça os destinos das famílias Ginzburg, Scuratti e Ferrieri, na senda da luta antifascista durante os piores anos do regime Mussolini e a ocupação durante a Segunda Guerra.
Na mesma semana em que conhecemos o desaparecimento físico de Carlo, historiador de mão cheia e grande intelectual atento aos “famélicos da terra”, nem sempre presentes no carro-chefe da história oficial, me deparo com a saga política e intelectual do casal Luigi e Natalia. Com o ambiente que veio a formar a índole, os interesses e a mentalidade de Carlo.
Luigi se recusou a cumprir o juramento ao fascismo, em 1935, procedimento institucional durante o regime de Mussolini que obrigava os docentes a se submeterem a prédica oficial. Editor e tradutor, após deixar a cátedra, atuou na clandestinidade e na organização da resistência antifascista, como dirigente ativo. Morreu na prisão, em consequência das brutais torturas, ainda sob o regime transitório, em 1944, quando a Alemanha ainda ocupava a Itália.
Natalia Ginzburg, viúva e mãe de 3 filhos, superou as enormes dificuldades causadas pela morte de Luigi e o cenário da Itália desolada, se postulando como um das maiores escritoras do século XX. Suas obras mais conhecidas são “Léxico Familiar”(1963), “Todos Nossos Ontens”(1952), “As Pequenas Virtudes”(1962). Sua prosa memorialista e sintonizada com o espirito do tempo a elevou a uma das mais reconhecidas escritoras do século XX.
Carlo nasceu nesse entre esses dois mundos, separados pelo abismo que a Itália viveu na segunda grande guerra.
Meu primeiro contato foi com sua “alma mater”, “O queijo e os vermes”, numa disciplina de início de curso de Ciências Sociais. Foi uma experiência interessante e única. O protagonista Menochhio, moleiro e perseguido pela Igreja, tem sua voz restituída por Carlo, invertendo o ângulo dos vencidos, na explicação casuística da história.
Carlo Ginzburg se aventurou pelo conjunto das ciências humanas. Encontrou referência no escopo inicial na vertente francesa da nova historiografia, em especial na “Escola dos Annales”, com Marc Bloch e Lucien Fevbre como figuras de ponta.
Dedicado a um enfoque inovador, com a metodologia conhecida como “Microhistória”, Carlo Ginzburg não abdicou contudo do entendimento das grandes questões históricas, utilizando a dialética como unidade entre o particular e o universal. E foi da dialética que bebeu nas primeiras letras, estudando os cadernos do Cárcere de Antônio Gramsci, assim como seu pai morto nas masmorras do fascismo italiano. Mesmo não sendo um marxista ou um militante, Carlo foi consequente com o antifascismo. Foi generoso no enfoque dos seus diversos livros com aqueles que estavam nas “margens”.
Exemplo foi a influência dos grandes acontecimentos de 1968, que tiveram na Itália, um caráter transcendental. Suas primeiras obras tiveram direta relação com as revoltas que trouxeram o avesso para o cotidiano. Voltamos ao livro de Scuratti:
“Pouco antes, Carlo havia publicado “Os Andarilhos do Bem”, uma pesquisa sobre os cultos pagão-xamânicos difundidos entre os camponeses friulanos entre os séculos XVI e XVII. É um estudo originalíssimo que consegue penetrar em profundidade a história humana debruçando-se sobre fatos miúdos, sobre experiências cotidianas dos pequenos personagens nascidos, crescidos e mortos em comunidades pequenas, distantes e jamais visitadas pelos “grandes eventos”. Com a publicação desse livro, Carlo Ginzburg começa a se tornar aquele historiador insigne que, quarenta anos antes, muitos juraram que seu pai, Leone, um dia seria.”
Outras obras como “História Noturna”(1989), “Mitos, Emblemas, sinais”(1990), além da mais recente coletânea “O fio e os rastros” (2007) dão conta do tamanho do alcance da contribuição de Carlo, como pensador antifascista e um dos grandes do panteão das ciências humanas.
Crítico mordaz do capitalismo predatório, nos últimos anos de sua vida não deixou de assinalar as preocupações com temas políticos e ambientais. Ressoa uma entrevista no ano de 2023, quando denunciou o papel de Bolsonaro como agente da nova extrema direita, falando para o público brasileiro, terra onde suas obras fizeram sucesso.
Se cala uma inteligência ímpar, a serviço do coletivo. Se planta ainda mais um legado, de um pensamento crítico e em movimento. Carlo Ginzburg segue como leitura indispensável para as gerações presentes.