A coleção de crises de Flávio
Conflitos familiares, investigações, desgaste com aliados e decisões do STF se acumulam na pré-campanha do senador, que, apesar das turbulências, segue como principal nome da direita nas pesquisas
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
A pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atravessa uma sequência de crises que tem fragilizado sua tentativa de se consolidar como herdeiro político do bolsonarismo. O episódio mais recente expôs fissuras até mesmo entre aliados do Rio de Janeiro, tradicional reduto eleitoral da família Bolsonaro, e se soma a uma sucessão de desgastes políticos, familiares e judiciais que vêm marcando sua caminhada rumo ao Palácio do Planalto.
A nova turbulência surgiu após Flávio participar, sem consultar dirigentes do PL fluminense, de uma agenda em Duque de Caxias com o prefeito Netinho Reis (MDB), ligado ao grupo político de Washington Reis. A família Reis integra a chapa do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), principal adversário do PL na disputa pelo governo estadual. A movimentação irritou dirigentes do partido, que trabalham pela candidatura do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Douglas Ruas, ao Palácio Guanabara. Segundo relatos publicados pela imprensa, aliados passaram a responsabilizar a própria equipe de Flávio por falhas na condução política da campanha.
Sem Jair por 90 dias
A crise ocorre poucos dias depois de outra derrota significativa. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, durante 90 dias. A decisão foi tomada depois que o senador publicou nas redes sociais uma carta escrita por Jair, contrariando as restrições impostas ao ex-presidente, que está impedido de utilizar redes sociais direta ou indiretamente.
Na carta, Jair conclamava a família a deixar as divergências de lado e apoiar a candidatura do filho. Moraes entendeu que a divulgação configurou descumprimento das medidas cautelares impostas ao ex-presidente. A proibição alcança praticamente todo o período da campanha eleitoral e representa um revés para a estratégia de Flávio, que utilizava a proximidade com o pai como demonstração de liderança dentro do campo bolsonarista.
A carta, que pretendia pacificar a família, acabou produzindo o efeito contrário. Ela foi divulgada poucos dias após a explosão pública do conflito entre Flávio e sua madrasta, Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama divulgou vídeos criticando duramente o enteado, afirmando sentir-se “apunhalada” e aprofundando uma disputa interna que já vinha sendo alimentada por divergências sobre o comando político do bolsonarismo. Michelle, considerada uma das principais lideranças da direita entre mulheres e evangélicos, também se afastou da direção do PL Mulher, ampliando as incertezas sobre seu papel na campanha presidencial do senador.
Bolsomaster
Outro desgaste importante envolve o escândalo do Banco Master. As investigações da Polícia Federal revelaram mensagens indicando que Flávio Bolsonaro cobrou do então controlador da instituição financeira, Daniel Vorcaro, recursos prometidos para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Paralelamente, o STF analisa pedidos para aprofundar a investigação sobre a relação entre o senador e Vorcaro, enquanto a Polícia Federal também apura a destinação de emendas parlamentares para uma organização ligada à produtora responsável pelo longa. O caso ampliou o desgaste da campanha justamente quando a Operação Compliance Zero passou a revelar uma estrutura de desinformação, monitoramento ilegal e intimidação de jornalistas montada em favor dos interesses do ex-banqueiro.
A instabilidade também atingiu a coordenação política da campanha. A senadora Damares Alves deixou o grupo responsável pela elaboração do programa de governo, movimento interpretado por analistas como mais um sinal das dificuldades de articulação interna enfrentadas pelo pré-candidato, embora ela tenha negado rompimento político.
Nos bastidores do PL, cresce a avaliação de que muitos dos problemas enfrentados pela candidatura decorrem de decisões tomadas pelo próprio Flávio Bolsonaro. Aliados ouvidos pela imprensa afirmam que o senador frequentemente ignora orientações políticas, reproduzindo um estilo semelhante ao do pai, mas sem dispor do mesmo capital político para absorver os custos dessas escolhas. “Flávio não é Jair”, tornou-se uma frase recorrente entre integrantes da campanha, segundo relatos publicados pela imprensa.
Crises afastam mulheres e evangélicos
Os sucessivos episódios também afetam segmentos estratégicos do eleitorado. A crise com Michelle enfraquece a interlocução com parte do eleitorado feminino e evangélico, dois grupos nos quais a ex-primeira-dama possui forte influência política. Ao mesmo tempo, a sucessão de controvérsias dificulta o esforço da campanha para apresentar Flávio como um candidato capaz de ampliar a base bolsonarista para além do núcleo mais fiel.
Apesar da sequência de desgastes, Flávio Bolsonaro permanece como o principal nome da oposição de direita nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. Levantamentos divulgados nas últimas semanas continuam colocando o senador na segunda posição, atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora com oscilações e perda de competitividade em alguns cenários. Esse desempenho demonstra que, mesmo enfrentando crises sucessivas e disputas dentro do próprio campo conservador, Flávio ainda preserva parte significativa do capital político herdado do pai – um patrimônio que, ao menos até agora, tem impedido que os tropeços da campanha se convertam em um colapso eleitoral.