Violência escolar e a crise da educação pública brasileira
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Violência escolar e a crise da educação pública brasileira

O copo d’água que expôs a escalada da violência nas escolas em tempos de crise dos vínculos sociais

Juca Batista Lopes 4 jul 2026, 08:00

Imagem: Lunetas/Reprodução

Poucos episódios recentes conseguiram simbolizar de forma tão contundente a crise vivida pela escola pública brasileira quanto o ocorrido em uma unidade da rede municipal de São José dos Campos. Ao iniciar mais um dia de trabalho, uma professora encontrou cacos de vidro colocados dentro do copo de água que utilizaria durante a aula. A notícia rapidamente ganhou repercussão nacional e provocou indignação entre educadores, estudantes e toda a sociedade.

A tentativa de ferir uma professora não pode ser reduzida a um ato isolado de indisciplina ou violência individual. Ela revela o aprofundamento de uma crise que há anos atravessa a educação pública brasileira. A responsabilização dos envolvidos é indispensável, mas, se quisermos impedir que episódios como esse se repitam, é preciso enfrentar suas causas estruturais.

Nas últimas décadas, diferentes pesquisas nacionais e internacionais têm indicado o crescimento e a diversificação das formas de violência no ambiente escolar. Agressões verbais, ameaças, intimidações, humilhações públicas e episódios de violência física contra professores e funcionários passaram a compor, infelizmente, parte do cotidiano de muitas escolas.

Relatórios de organismos internacionais como a UNESCO e estudos de pesquisa educacional no Brasil indicam que esse fenômeno não está restrito a territórios específicos, mas se distribui de forma ampla, ainda que se intensifique em contextos de maior vulnerabilidade social e institucional.

A violência que hoje invade as escolas não nasceu dentro delas. Ela é produzida por uma combinação de desigualdade social, precarização das políticas públicas, desvalorização do trabalho docente e disseminação de uma cultura de intolerância que transformou professores, estudantes e a própria escola pública em alvos permanentes.

Nas últimas décadas, sucessivos governos optaram por administrar a crise da educação sem enfrentar seus problemas centrais. A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), consolidada após o golpe de 2016, e do chamado Novo Ensino Médio aprofundou uma lógica empresarial para a escola pública. O currículo foi fragmentado, o conhecimento perdeu espaço para competências padronizadas e a educação passou a ser organizada cada vez mais por indicadores, metas e avaliações de desempenho.

O governo Lula promoveu mudanças parciais no Novo Ensino Médio, mas manteve intacta a estrutura da BNCC construída no período anterior. Enquanto isso, estados e municípios seguem ampliando políticas de controle, plataformização do ensino e responsabilização individual dos profissionais, sem enfrentar questões essenciais como valorização docente, infraestrutura, redução do número de estudantes por sala, equipes multiprofissionais e investimento público.

Em São Paulo, essa lógica atingiu um grau preocupante. Professores convivem diariamente com excesso de burocracia, plataformas digitais, metas, ranqueamentos e mecanismos permanentes de avaliação. Em algumas políticas recentes, estudantes passaram a ser utilizados para avaliar seus próprios professores, reforçando uma cultura de vigilância incompatível com uma relação pedagógica baseada na confiança e no diálogo. A pressão por resultados substitui o compromisso com a aprendizagem, enquanto docentes são classificados por desempenho e escolas competem entre si como se fossem empresas.

Ao mesmo tempo, programas apresentados como solução para a educação, como a expansão das escolas cívico-militares e determinados modelos de tempo integral, procuram responder a problemas complexos com medidas superficiais. Em muitas unidades, faltam profissionais, estrutura e projetos pedagógicos consistentes, enquanto estudantes convivem com longos períodos ociosos e atividades que pouco dialogam com uma formação crítica e emancipadora.

Quando a escola passa a tratar professores como executores de metas e estudantes como números em planilhas, todos perdem. Os profissionais adoecem, perdem autonomia e trabalham sob permanente pressão. Os jovens deixam de ser reconhecidos como sujeitos de direitos e passam a experimentar uma escola mais burocrática, padronizada e distante de suas realidades. Colocar professores e estudantes em lados opostos interessa apenas aos que defendem o enfraquecimento da educação pública.

Esse cenário foi agravado pela radicalização política dos últimos anos. Campanhas como Escola Sem Partido, perseguições ideológicas, ataques às universidades e o discurso de que professores seriam “doutrinadores” ajudaram a deslegitimar socialmente a profissão docente. Parlamentares, influenciadores e até autoridades públicas passaram anos incentivando a desconfiança em relação aos educadores, estimulando gravações clandestinas em sala de aula e tratando o conhecimento científico como inimigo. Esse tipo de narrativa, amplificada em ambientes digitais e redes sociais, não permanece apenas no campo discursivo. Ela produz efeitos concretos na vida escolar: legitima abordagens agressivas contra professores, estimula denúncias infundadas, fragiliza a autoridade pedagógica e cria um ambiente de desconfiança permanente.

As redes sociais ampliaram esse processo. A lógica da polarização, da desinformação e da busca permanente pela “lacração” normalizou discursos de ódio e incentivou comportamentos agressivos. Muitos pais passaram a reproduzir esse ambiente dentro das escolas, enquanto crianças e adolescentes cresceram assistindo à desmoralização cotidiana daqueles que deveriam representar uma referência de conhecimento e autoridade pedagógica.

Mas seria igualmente equivocado transformar os estudantes em inimigos. A maioria deles também é vítima desse processo. Frequentam escolas precarizadas, enfrentam insegurança alimentar, violência nos territórios, dificuldades de acesso à cultura, ao esporte e à saúde mental. São jovens que também tiveram sua formação atravessada pela pandemia, pela intensificação das desigualdades e pela circulação permanente de discursos de intolerância. A violência contra professores e a violência sofrida pelos estudantes têm a mesma origem: o abandono das políticas públicas e a deterioração dos vínculos sociais.

É nesse contexto que a reflexão de Paulo Freire permanece profundamente atual, “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Para ele, educar é construir relações de diálogo, respeito e reconhecimento mútuo. A autoridade do professor não nasce do autoritarismo, mas da competência, da escuta e do compromisso com a formação humana. Quando a escola substitui o diálogo pela vigilância, a cooperação pela competição e o conhecimento pelo controle burocrático, perde sua própria razão de existir.

O episódio ocorrido em São José dos Campos simboliza muito mais do que um ataque contra uma professora. Ele representa o resultado de anos de desmonte da educação pública, de ataques ao trabalho docente, de políticas que esvaziam o sentido da escola e de discursos que alimentam o ódio contra quem ensina. Nenhuma câmera, plataforma digital, escola militarizada ou novo sistema de avaliação será capaz de resolver essa crise.

A escola pública segue sendo um dos principais campos de disputa de projeto de sociedade. E é justamente por isso que ela continua sendo, ao mesmo tempo, um dos espaços mais frágeis e mais estratégicos da vida social brasileira. O caminho deve ser por outra direção: reconstruir a escola pública como espaço de convivência democrática, fortalecer a gestão participativa, investir na valorização dos trabalhadores da educação, garantir condições dignas de aprendizagem aos estudantes e recuperar os vínculos entre escola, famílias e comunidade.

Defender a escola pública passa, necessariamente, por defender quem ensina, quem aprende e o projeto de sociedade que queremos construir. Afinal, quando a violência entra na escola, é o futuro do país que passa a estar em risco.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 79. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

UNESCO. Behind the numbers: Ending school violence and bullying. Paris: UNESCO, 2019.

CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO. Balanço da Educação Brasileira: avanços, retrocessos e desafios. São Paulo, diversas edições.


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