Avibras, os irmãos Batista e o caráter da burguesia brasileira
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Avibras, os irmãos Batista e o caráter da burguesia brasileira

A compra da empresa de indústria bélica pelos irmãos Batista expõe as relações entre a burguesia e o estado brasileiro

Frederico Henriques 31 ago 2026, 20:46

Foto: Fábrica da Avibras. (Divulgação)

Há poucos meses, ao discutir o escândalo do Banco Master1, procurei argumentar que o caso de Daniel Vorcaro não poderia ser compreendido apenas como mais um episódio de corrupção, fraude financeira ou proximidade indevida entre empresários e agentes públicos. O que aquele episódio revelava era uma característica mais profunda do capitalismo brasileiro: a capacidade das classes dominantes de transformar o Estado em espaço de organização de seus negócios e, na etapa contemporânea de financeirização, em verdadeira plataforma de alavancagem privada. Fundos públicos, bancos estatais, fundos de pensão, contratos, concessões e diferentes formas de garantia estatal passaram a compor uma engrenagem na qual os riscos são progressivamente socializados, enquanto as possibilidades de valorização permanecem privadas.

Essa relação não foi inventada pela financeirização. A utilização do Estado como instrumento de organização dos interesses das classes dominantes acompanha a própria formação do capitalismo brasileiro. O que se modifica são suas formas históricas. Se durante o desenvolvimentismo essa mediação aparecia principalmente no crédito produtivo, nas empresas estatais, nas grandes obras de infraestrutura e na política industrial, nas últimas décadas ganhou enorme peso a captura direta e indireta dos fundos públicos pelos circuitos financeiros.

O caso Master tornava especialmente visível esse mecanismo porque a própria expansão do banco dependia de uma complexa rede de fundos, ativos, relações com governos e instituições públicas. Mais do que um desvio exterior ao funcionamento normal do sistema, Vorcaro parecia expressar de maneira quase caricatural uma forma contemporânea de constituição da burguesia brasileira. Sua capacidade de acumulação não decorria simplesmente da competição no mercado, mas da possibilidade de se movimentar no interior das instituições, articular relações políticas, acessar fundos e transformar decisões públicas em instrumentos privados de valorização.

A proximidade entre grandes empresários, bancos, fundos, operadores políticos e diferentes instâncias do Estado não constitui, portanto, uma anomalia que possa ser eliminada apenas por melhores mecanismos de controle ou pela moralização da administração pública. Ela precisa ser compreendida como uma relação social e política, como uma das formas pelas quais determinadas frações das classes dominantes organizam sua presença no Estado e disputam sua direção.

Essa interpretação exige deslocar o problema da oposição abstrata entre Estado e mercado. O Estado não aparece simplesmente como uma instituição externa que eventualmente é capturada por interesses econômicos, mas como parte de uma relação mais ampla de forças na qual as classes e suas diferentes frações disputam direção e procuram apresentar interesses particulares como interesses gerais.

A burguesia brasileira não é forte, apesar de sua relação com o Estado. Historicamente, parte importante de sua força foi constituída justamente através dele. Crédito subsidiado, proteção tarifária, obras de infraestrutura, política cambial, encomendas públicas, privatizações, concessões e fundos estatais foram fundamentais para formar diferentes frações do grande capital brasileiro. A questão decisiva, portanto, não é saber se o Estado intervém ou deixa de intervir, mas quem dirige essa intervenção, quais interesses ela fortalece e qual projeto de sociedade procura organizar.

A trajetória recente da Avibras permite observar esse mesmo mecanismo em um terreno diferente e talvez ainda mais revelador. Se o Banco Master mostrava a alavancagem no interior de uma economia crescentemente financeirizada, a Avibras permite observar como o Estado participa da constituição de uma capacidade produtiva e tecnológica estratégica e, posteriormente, ajuda a criar as condições para que essa capacidade permaneça sob controle privado.

A diferença é fundamental. Não estamos mais falando apenas da circulação financeira ou da captura de fluxos permanentes do orçamento público. Estamos falando de foguetes, mísseis, sistemas de artilharia, propulsão, propriedade intelectual, engenheiros altamente especializados e de um conjunto de conhecimentos acumulados durante décadas. Trata-se, portanto, de discutir não somente a relação entre Estado e acumulação privada, mas o próprio significado da soberania em uma formação social dependente.

A Avibras e a alavancagem estatal do capital privado

A Avibras ocupa uma posição singular na indústria brasileira de defesa. Constituída em 1961, tornou-se uma das principais empresas privadas do setor e desenvolveu capacidades tecnológicas que poucos países possuem. O sistema ASTROS tornou-se seu produto mais conhecido, mas a importância da companhia ultrapassa a fabricação de veículos ou lançadores. Ela acumulou conhecimento em propulsão, foguetes, mísseis, sistemas de comando e controle e integração de sistemas complexos. Essa capacidade, entretanto, não foi produzida isoladamente pelo capital privado. A história tecnológica da empresa se confunde com sua relação com as Forças Armadas e com diferentes instrumentos de financiamento, pesquisa e política industrial do Estado brasileiro.

A relação com a Finep remonta à década de 1970. Somente no ciclo mais recente do programa ASTROS 2020, a financiadora pública destinou R$ 115,5 milhões ao financiamento de três projetos estratégicos, envolvendo o desenvolvimento do míssil tático de cruzeiro, do foguete guiado e de novas viaturas. Em um período anterior de dez anos, outros seis projetos receberam aproximadamente R$ 50 milhões por meio de subvenção econômica. Um deles permitiu desenvolver uma planta piloto para produção de Polibutadieno Hidroxilado, o PBHT, insumo estratégico utilizado no combustível sólido de foguetes.

Depois dessa etapa, o BNDES firmou contrato de R$ 65 milhões para uma nova fábrica de PBHT com capacidade de 2,2 mil toneladas anuais. Esses números não representam a totalidade dos recursos públicos mobilizados ao longo de décadas, mas são suficientes para demonstrar que a capacidade tecnológica associada ao patrimônio da Avibras foi construída numa relação estrutural com o Estado brasileiro.

Isso não significa afirmar que a Avibras tenha sido simplesmente criada pelo dinheiro público. A empresa acumulou receitas próprias, exportou seus produtos, assumiu riscos empresariais e conquistou importantes mercados externos. Mas seria igualmente incorreto tratar sua tecnologia como resultado exclusivo do empreendedorismo privado. A indústria de defesa possui uma característica que torna essa separação particularmente artificial: seu principal mercado é o próprio Estado, sua pesquisa envolve objetivos estratégicos definidos pelas Forças Armadas e grande parte de suas tecnologias depende de programas de longa duração que dificilmente poderiam ser sustentados exclusivamente pela demanda privada.

O Estado aparece simultaneamente como financiador, comprador, planejador e parceiro tecnológico, reduzindo incertezas que o capital privado dificilmente assumiria sozinho e criando as condições materiais para a formação de capacidades que levam décadas para amadurecer.

É nesse contexto que a crise aberta em 2022 precisa ser compreendida. A entrada da Avibras em recuperação judicial, os atrasos salariais, as demissões e a paralisação da produção produziram uma situação aparentemente contraditória: a empresa estava profundamente fragilizada financeiramente, mas os ativos tecnológicos sob seu controle continuavam extremamente valiosos. Uma companhia pode estar próxima da insolvência e, ao mesmo tempo, controlar tecnologias cuja reprodução exigiria décadas de investimento. Essa dissociação entre valor financeiro imediato e valor estratégico ajuda a explicar por que a crise rapidamente deixou de ser apenas um problema empresarial e passou a mobilizar trabalhadores, governo, Forças Armadas e interessados estrangeiros.

A solução tampouco ocorreu espontaneamente através do mercado. A recuperação envolveu reorganização societária, negociações com credores, articulações com diferentes órgãos públicos e uma nova capitalização privada. Em 2026, aproximadamente R$ 300 milhões foram mobilizados para permitir a retomada das operações, processo do qual Joesley Batista participou como investidor. Poucos meses depois, a Globe Investimentos, veículo de investimentos da família Batista, firmou acordo para adquirir o controle da estrutura que concentra a operação da Avibras Aeroco e seus ativos estratégicos.

A entrada dos irmãos Batista no setor de defesa não ocorreu, portanto, como uma aquisição isolada de uma empresa funcionando normalmente. Eles chegaram ao final de um longo processo de crise, desvalorização, reorganização e recuperação de uma capacidade produtiva cuja existência dependeu de décadas de interação com o Estado.

É justamente aqui que a ideia de alavancagem utilizada para analisar o Banco Master pode ser ampliada. Não se trata de alavancagem financeira no sentido técnico de uma aquisição realizada por endividamento, mas de uma alavancagem estatal da capacidade privada de acumulação. O Estado financia parte do desenvolvimento tecnológico, sustenta programas estratégicos, cria demanda através das Forças Armadas, forma infraestrutura e reduz riscos. Quando a empresa entra em crise, novamente aparecem diferentes braços do Estado interessados em preservar sua capacidade produtiva. Depois de socializados durante décadas parte dos custos e dos riscos necessários à formação daquele patrimônio tecnológico, entretanto, o controle permanece privado.

Por isso, a discussão sobre uma eventual nacionalização da Avibras não era simplesmente uma reivindicação ideológica exterior ao problema econômico. Os trabalhadores defenderam essa saída durante a longa crise da empresa, enquanto o governo buscou preservar sua capacidade tecnológica através de uma solução de capital privado nacional. O Estado brasileiro demonstrou disposição para proteger a Avibras, participar das condições de sua recuperação e garantir a continuidade de uma empresa considerada estratégica, mas não para assumir diretamente seu controle. Reconheceu-se que aquele patrimônio possuía importância nacional suficiente para justificar a intervenção pública, sem que essa importância colocasse em questão a própria estrutura de propriedade.

A chegada dos Batista torna essa contradição ainda mais expressiva. Joesley e Wesley não representam uma burguesia hostil ao Estado. A história de expansão de seus negócios demonstra justamente como grandes grupos privados brasileiros podem utilizar políticas públicas, financiamento, relações institucionais e oportunidades abertas pelo próprio Estado para alcançar escala internacional. Determinadas frações burguesas reivindicam permanentemente a intervenção estatal quando ela contribui para criar mercados, reduzir riscos, financiar investimentos e proteger seus interesses. O problema nunca foi simplesmente Estado contra mercado, mas a capacidade de transformar a expansão de determinados grupos privados em sinônimo de desenvolvimento nacional.

É aí que a Avibras começa a revelar algo maior sobre o caráter da burguesia brasileira. O fato de o comprador possuir passaporte brasileiro aparece como suficiente para apresentar a operação como preservação do controle nacional. Entretanto, nacionalidade jurídica do capital e interesse nacional não são a mesma coisa. Essa diferença torna-se ainda mais importante quando o patrimônio em questão deixa de ser apenas uma empresa e passa a envolver tecnologias que condicionam a própria capacidade de um país decidir autonomamente sobre sua defesa.

Tecnologia, guerra e soberania em um mundo em disputa

A soberania não pode ser reduzida à independência jurídica de um Estado ou à nacionalidade formal dos proprietários de suas empresas. Um país pode possuir instituições políticas próprias e, ao mesmo tempo, depender de outros Estados para produzir semicondutores, controlar sistemas de comunicação, processar dados ou fabricar componentes essenciais de seus equipamentos militares.

Quanto mais complexa se torna a estrutura produtiva contemporânea, mais a autonomia política depende do domínio de determinados elos tecnológicos. Essa relação se torna particularmente evidente na indústria de defesa, porque uma dependência administrável em períodos de normalidade pode transformar-se rapidamente em vulnerabilidade estratégica diante de uma guerra, de um embargo ou de uma ruptura nas cadeias internacionais de fornecimento.

As guerras recentes e a nova corrida armamentista recolocaram a capacidade industrial no centro da política internacional. Estoques de munições precisam ser repostos, equipamentos exigem manutenção permanente e sistemas militares sofisticados dependem de cadeias produtivas espalhadas por diferentes países. Possuir um sistema de armas sem dominar componentes fundamentais de sua fabricação significa possuir uma soberania condicionada. Sanções, embargos ou simplesmente a decisão de um fornecedor estrangeiro podem restringir a utilização de equipamentos que formalmente pertencem a um Estado.

É por isso que uma empresa como a Avibras não pode ser avaliada apenas por seu balanço contábil. O conhecimento acumulado em torno do sistema ASTROS, dos foguetes guiados, do míssil tático de cruzeiro, da produção de propelentes e da integração de sistemas constitui uma capacidade que não pode ser improvisada quando surge uma emergência. Engenheiros podem ser demitidos e laboratórios desmontados rapidamente, mas reconstruir uma cadeia tecnológica dessa complexidade exige anos ou décadas.

A própria crise da Avibras deveria ter aberto, portanto, uma discussão mais ampla sobre planejamento estatal. Se determinadas tecnologias são indispensáveis à defesa nacional, sua existência não pode depender exclusivamente da rentabilidade de curto prazo de uma empresa privada. O histórico da companhia demonstra justamente essa contradição. Finep, BNDES, Exército e outras estruturas públicas sustentaram durante décadas projetos cuja importância ultrapassava o retorno empresarial imediato. A sociedade assumiu parte do risco porque o desenvolvimento dessas tecnologias produzia capacidades consideradas estratégicas para o país.

Entretanto, o caráter estratégico que justifica a utilização de recursos públicos não produz consequências equivalentes sobre a propriedade e a direção da empresa. Socializam-se parcelas importantes do risco tecnológico enquanto permanece privado o poder de decidir sobre investimentos, alianças empresariais, exportações e estratégias de longo prazo.

A disputa aberta em torno da Avibras durante sua crise demonstrou concretamente as consequências dessa contradição. Diferentes grupos estrangeiros manifestaram interesse na companhia, mas a possibilidade de entrada da chinesa Norinco produziu uma tensão qualitativamente distinta. A empresa integra o complexo industrial de defesa chinês e sua eventual participação na Avibras colocaria as tecnologias brasileiras diretamente no interior da crescente disputa entre China e Estados Unidos.

Em 2024, quando a estatal chinesa manifestou interesse em adquirir participação na empresa, representantes norte-americanos demonstraram preocupação e alertaram o governo brasileiro para as possíveis consequências da presença da Norinco, submetida a sanções dos Estados Unidos, inclusive sobre o acesso da Avibras a componentes e tecnologias norte-americanas. A crise financeira de uma empresa brasileira transformava-se, assim, em uma pequena janela através da qual era possível observar uma disputa muito maior pela tecnologia e pela capacidade militar no sistema internacional.

A China ocupa uma posição cada vez mais importante nessa disputa porque sua ascensão deixou de se concentrar na condição de grande plataforma industrial integrada ao mercado mundial e passou a envolver uma competição crescente pelo controle de tecnologias, cadeias produtivas, infraestrutura, mercados e recursos estratégicos. Sua expansão internacional combina empresas estatais e privadas, financiamento, grandes projetos de infraestrutura, acesso a matérias-primas e uma política deliberada de desenvolvimento tecnológico. A indústria militar faz parte desse movimento.

O avanço chinês em áreas como mísseis, espaço, telecomunicações, inteligência artificial, construção naval e sistemas não tripulados acompanha a transformação do país em uma potência capaz de disputar com os Estados Unidos setores que durante décadas estiveram sob predomínio ocidental. O interesse da Norinco pela Avibras precisa ser compreendido dentro desse processo mais amplo. Não era simplesmente uma empresa chinesa procurando um ativo barato no exterior, mas uma corporação vinculada a um complexo industrial e militar em expansão interessada em uma companhia que concentra tecnologias, mercados e décadas de experiência brasileira na produção de foguetes e mísseis.

Isso não significa tratar a presença chinesa como equivalente mecânico da longa relação de dependência construída entre o Brasil e os Estados Unidos. As duas relações possuem histórias, estruturas e pesos distintos. Os Estados Unidos exerceram durante mais de um século uma influência econômica, política e militar sobre a América Latina que não encontra correspondência histórica na presença chinesa.

Mas reconhecer essa diferença não exige transformar a China em um polo exterior às disputas imperialistas contemporâneas ou supor que sua expansão internacional seja determinada por alguma solidariedade automática com os países periféricos. A China disputa mercados, matérias-primas, infraestrutura, tecnologia e influência política segundo os interesses de sua própria expansão como potência. Para um país dependente como o Brasil, a possibilidade de diversificar relações internacionais e explorar as contradições entre as grandes potências pode ampliar margens de manobra, mas não substitui a construção de capacidade própria.

Perspectivas anti-imperialistas

É precisamente aqui que a discussão proposta por Israel Dutra2 sobre soberania ajuda a recolocar o problema. Recuperar uma perspectiva anti-imperialista não pode significar restaurar uma leitura na qual o enfrentamento à hegemonia norte-americana conduza automaticamente à caracterização de qualquer potência adversária dos Estados Unidos como aliada estratégica dos povos dependentes. Uma política externa independente pode estabelecer relações econômicas e políticas com a China, aproveitar contradições entre as grandes potências e recusar as pressões de Washington sem transformar essa relação em um novo alinhamento automático.

A soberania não consiste em escolher de qual centro internacional depender, mas em ampliar a capacidade nacional de decidir sobre seu desenvolvimento, seus recursos e suas tecnologias estratégicas. Nesse sentido, a Avibras fornece um exemplo particularmente concreto: impedir que uma tecnologia militar decisiva seja subordinada aos interesses chineses não significa subordiná-la aos interesses norte-americanos, assim como preservá-la formalmente nas mãos de um empresário brasileiro não garante, por si só, qualquer autonomia.

O interesse chinês e a reação norte-americana demonstram, portanto, como as grandes potências compreendem de maneira bastante concreta aquilo que chamamos de soberania. Empresas de defesa não são ativos econômicos comuns. Elas concentram propriedade intelectual, redes de fornecedores, instalações industriais, conhecimento acumulado e trabalhadores altamente especializados. Seu controle pode modificar relações tecnológicas e militares entre Estados, abrir ou fechar canais de cooperação e alterar dependências construídas durante décadas.

O interesse da Norinco e a preocupação de Washington mostravam, paradoxalmente, aquilo que o próprio tratamento empresarial da crise da Avibras tendia a obscurecer: uma companhia financeiramente fragilizada podia continuar controlando um patrimônio tecnológico de enorme valor estratégico.

Foi nesse contexto que ganhou força a busca por uma solução capaz de manter a Avibras sob controle nacional. A preocupação era compreensível. Transferir uma empresa responsável por tecnologias de foguetes e mísseis a uma companhia ligada ao complexo militar de outra potência teria consequências que ultrapassariam qualquer aquisição empresarial convencional.

O problema começa quando a preservação do “controle nacional” passa a ser identificada automaticamente com a transferência da empresa para um capitalista brasileiro. A solução encontrada com a entrada dos irmãos Batista preserva formalmente a nacionalidade brasileira do controle, mas não elimina a questão colocada pela própria disputa entre Estados Unidos e China: quem controla a tecnologia, quais interesses orientam sua utilização e em que relações internacionais está inserido esse capital?

A trajetória dos Batista torna essa questão particularmente importante. Sua ascensão não representa uma exceção à formação da burguesia brasileira, mas sintetiza características fundamentais do grande capital contemporâneo no país. A expansão da JBS combinou políticas públicas, financiamento e oportunidades abertas pelo Estado brasileiro com uma agressiva estratégia de internacionalização.

Os Estados Unidos tornaram-se um espaço central dessa expansão. O grupo construiu naquele país uma enorme estrutura produtiva, adquiriu o controle da Pilgrim’s Pride e transformou o mercado norte-americano em uma parte fundamental de seus negócios. O capital permanece controlado por uma família brasileira, mas sua reprodução econômica ocorre em escala internacional e encontra-se profundamente integrada ao capitalismo dos Estados Unidos.

É nesse contexto que também deve ser compreendida a aproximação política dos Batista com Donald Trump. Essa relação não autoriza afirmar que os irmãos representem os interesses do governo norte-americano, muito menos que Washington tenha organizado sua entrada na Avibras. O problema é mais estrutural e, justamente por isso, mais importante. Uma das frações mais poderosas da burguesia brasileira possui enormes interesses econômicos nos Estados Unidos e estabelece relações políticas com o centro do poder norte-americano, ao mesmo tempo em que utiliza o Estado brasileiro para defender e expandir seus negócios. Não existe qualquer incompatibilidade entre essas posições do ponto de vista de sua estratégia de acumulação. A contradição surge quando os interesses desse capital internacionalizado são apresentados automaticamente como expressão do interesse nacional brasileiro.

O contraste entre Norinco e Batista permite reunir as diferentes dimensões do problema. Diante da empresa chinesa, a relação entre propriedade e geopolítica aparece imediatamente: ninguém imagina que a Norinco tomaria decisões sobre a Avibras abstraindo os interesses estratégicos da China. Com os Batista, ao contrário, a nacionalidade brasileira tende a produzir a aparência de que essa questão desaparece, embora estejamos diante de empresários cuja acumulação ocorre em escala global e cuja internacionalização está profundamente ligada ao mercado norte-americano.

A origem jurídica do capital importa, mas não determina por si mesma seu conteúdo nacional. Tampouco a diversificação das relações internacionais resolve o problema. A disputa entre Estados Unidos e China pode ampliar as margens de atuação de países como o Brasil, mas a alternativa à histórica subordinação a Washington não pode ser uma nova dependência em relação a Pequim. A possibilidade de explorar as contradições entre as grandes potências somente se converte em soberania quando está subordinada a um projeto próprio de desenvolvimento e autonomia.

O problema remete ao próprio caráter da burguesia brasileira. Não estamos diante de uma burguesia nacional que, por alguma deficiência histórica, tenha fracassado em realizar um projeto autônomo de desenvolvimento. Sua formação ocorreu através de uma relação estrutural com o Estado brasileiro e, simultaneamente, da associação com o capital internacional. Dependência externa e utilização privada dos recursos estatais não constituem obstáculos exteriores ao seu desenvolvimento, mas elementos de sua constituição enquanto classe dominante.

Por isso, o fortalecimento econômico de grandes grupos brasileiros não produz necessariamente maior autonomia para o país. Empresas podem crescer, internacionalizar-se e tornar-se gigantes globais ao mesmo tempo em que aprofundam sua integração aos principais centros do capitalismo mundial. O Estado pode criar gigantes empresariais brasileiros sem criar, por isso, uma suposta burguesia nacional.

É justamente essa caracterização que dá sentido à defesa da nacionalização da Avibras. Não se trata simplesmente de aumentar o número de empresas pertencentes ao Estado, nem de imaginar que a propriedade estatal resolva automaticamente as contradições da dependência brasileira. O problema está na relação entre a natureza social do investimento realizado, o caráter estratégico da tecnologia produzida e o poder de decidir sobre seu destino.

Se o Estado financia pesquisa, garante encomendas, sustenta programas militares, reduz riscos e intervém para preservar uma capacidade tecnológica considerada indispensável, sua atuação não pode terminar justamente onde começa o controle sobre essa capacidade. A soberania exige instrumentos capazes de definir prioridades tecnológicas, preservar conhecimento, organizar cadeias produtivas e subordinar capacidades estratégicas a um planejamento nacional, em vez de socializar os custos de sua construção enquanto permanece privado o poder de decidir sobre seus resultados.

Essa conclusão recoloca o problema histórico apontado por Israel Dutra. Durante boa parte do século XX, setores da esquerda brasileira trabalharam com a expectativa de uma fração nacional da burguesia capaz de participar da realização das tarefas democráticas e anti-imperialistas deixadas inconclusas pelo desenvolvimento dependente, subordinando muitas vezes a independência política dos trabalhadores a alianças com projetos burgueses apresentados como nacionais.

A Avibras demonstra a atualidade dessa crítica em um cenário internacional distinto, marcado pela ascensão chinesa e pelo acirramento de sua disputa com os Estados Unidos. A soberania não pode ser construída pela escolha da fração burguesa aparentemente mais nacional, pela substituição de um comprador estrangeiro por um empresário brasileiro ou pela opção entre Washington e Pequim. A tarefa não consiste, portanto, em encontrar uma burguesia nacional que finalmente realize aquilo que historicamente deixou de fazer, mas em construir outra direção social e política para enfrentar as contradições da dependência brasileira.

Isso significa articular trabalhadores e setores subalternos em torno de um projeto nacional-popular capaz de colocar o desenvolvimento tecnológico, a capacidade produtiva e os recursos estratégicos do país a serviço da soberania. Se o Estado brasileiro foi capaz de financiar foguetes, formar engenheiros, desenvolver sistemas de mísseis e sustentar durante décadas uma indústria estratégica, essas capacidades podem ser submetidas a outra lógica de propriedade, planejamento e direção.

O caso da Avibras mostra, nesse sentido, que a disputa pela soberania é também uma disputa pelo controle da tecnologia e pela própria direção do Estado. Num mundo marcado pela intensificação das guerras e pela rivalidade entre as grandes potências, ampliar a autonomia brasileira exige construir uma força social capaz de transformar as contradições abertas no sistema internacional em possibilidades para um projeto próprio de nação, em vez de apenas administrar novas formas de dependência.

Notas

  1. HENRIQUES, Frederico. O que o Banco Master nos fala sobre a privatização da educação. Esquerda em Movimento, 3 fev. 2026. Disponível em: movimentorevista.com.br/2026/02/o-que-o-banco-master-nos-fala-sobre-a-privatizacao-da-educacao/. Acesso em: 31 ago. 2026. ↩︎
  2. DUTRA, Israel. O que é soberania? Esquerda em Movimento, 30 ago. 2026. Disponível em: movimentorevista.com.br/2026/08/o-que-e-soberania/. Acesso em: 31 ago. 2026. ↩︎

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