Cury vende tecnologia como solução para tudo, mas tropeça na falta de respostas
Augusto Cury

Cury vende tecnologia como solução para tudo, mas tropeça na falta de respostas

Candidato do Avante promete IA, drones e enxugamento do Estado, mas não explica como pretende executar propostas; checagem aponta erros sobre dívida, Bolsa Família e neurodivergência

Tatiana Py Dutra 31 ago 2026, 14:59

Foto: Reprodução

A participação de Augusto Cury (Avante) no Jornal Nacional, no sábado (29), expôs uma contradição central da candidatura que tenta se apresentar como alternativa à polarização entre Lula e o bolsonarismo: o discurso de modernização e eficiência veio acompanhado de propostas pouco detalhadas, números sem sustentação e dificuldades para responder às perguntas mais concretas sobre como governaria o país.

Conhecido como escritor de best-sellers de autoajuda e médico psiquiatra, Cury chegou à sabatina com um repertório baseado em inteligência artificial, robótica, telemedicina e educação emocional. A tecnologia apareceu como resposta para praticamente todos os problemas nacionais — da burocracia à violência contra a mulher. O problema, apontado pela imprensa, foi que, quando Renata Vasconcellos e César Tralli deixaram de perguntar sobre ideias genéricas e passaram a questionar custos, evidências e mecanismos de implementação, as respostas começaram a perder consistência.

A proposta que mais chamou atenção foi a utilização de drones para combater a violência contra as mulheres. Cury defendeu um aplicativo com botão de emergência que permitiria acionar equipamentos instalados em delegacias. Os drones, segundo ele, poderiam chegar antes das viaturas ao local de uma agressão, emitir sirenes e tentar impedir o feminicídio.

A ideia rapidamente virou meme nas redes sociais. A própria Folha registrou a avalanche de brincadeiras produzidas a partir da proposta, que foi considerada inusitada por parte do público.

Mais importante do que a repercussão humorística, entretanto, foi o que a proposta revelou sobre a candidatura. Questionado sobre sua viabilidade, Cury chegou a interromper a discussão e dizer: “Esquece o drone, Renata.”

A frase sintetizou um dos momentos mais difíceis da entrevista. Afinal, se o drone havia sido apresentado como uma das principais ferramentas de uma política nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, a pergunta sobre como ele funcionaria não era uma provocação lateral dos jornalistas: era justamente a pergunta que um candidato à Presidência deveria estar preparado para responder.

O mesmo padrão apareceu em outras propostas.

Cury afirmou que pretende reduzir o número de ministérios para algo entre oito e dez, mas não conseguiu especificar quais pastas seriam extintas. Também defendeu a utilização de inteligência artificial para reduzir custos da administração pública e substituir parte do trabalho realizado por servidores, mas não apresentou uma engenharia detalhada para essa transformação. A imprensa destacou justamente a falta de detalhamento de seus planos econômicos.

Há uma contradição evidente nessa agenda. Cury fala em diminuir o número de ministérios, mas ao mesmo tempo propõe criar um Ministério da Inteligência Artificial e Robótica. A tecnologia, em sua campanha, aparece simultaneamente como instrumento para enxugar o Estado e como justificativa para criar uma nova estrutura ministerial.

Na saúde, a mesma dificuldade voltou a aparecer. Cury defendeu que 80% das consultas básicas do SUS sejam realizadas por telemedicina. A proposta pode parecer moderna, mas os jornalistas perguntaram qual seria a base para estabelecer justamente o percentual de 80%. O candidato respondeu de maneira genérica, recorrendo à experiência profissional e à existência de estudos sobre telemedicina, sem apresentar uma evidência específica que justificasse o número.

A questão ganhou outra dimensão quando os jornalistas lembraram que Cury já havia aparecido como embaixador de uma empresa privada de telemedicina. Questionado sobre um possível conflito de interesses, ele respondeu que não mantinha mais vínculo com a companhia e afirmou que o endosso seria retirado “imediatamente”.

Esse tipo de questionamento é especialmente importante quando se trata de políticas públicas. Defender que o Estado adote uma determinada tecnologia não é apenas apresentar uma inovação: significa decidir como serão empregados recursos públicos, quais empresas poderão fornecer serviços e quais interesses econômicos estarão envolvidos.

Foi justamente nesse ponto que a sabatina cumpriu uma função importante. O JN obrigou Cury a sair do terreno confortável da palestra motivacional e entrar no terreno mais árido da administração pública: orçamento, evidências, estrutura estatal, implementação e fiscalização.

E o desempenho não foi convincente.

A Agência Lupa identificou uma série de problemas factuais nas declarações do candidato. Cury afirmou, por exemplo, que cada criança e adolescente brasileiro já nasceria devendo pelo menos R$ 50 mil por causa da dívida pública. A afirmação foi considerada incorreta pela checagem. A agência também apontou que o candidato subestimou a tributação das bets e apresentou dados sem sustentação sobre o número de pessoas neurodivergentes no Brasil.

Outro exemplo é o Bolsa Família. Cury prometeu permitir que beneficiários que obtenham uma segunda fonte de renda continuem recebendo o benefício, apresentando a medida como uma mudança de sua proposta de governo. O problema é que essa possibilidade já existe nas regras do programa, segundo a checagem da Lupa. Ou seja, uma promessa apresentada como novidade era, na realidade, uma política já existente.

A questão é reveladora porque toca em uma característica recorrente de candidaturas que prometem “gestão” e “eficiência” como substitutos da disputa política tradicional: muitas vezes, a simplificação do discurso produz a impressão de novidade sem necessariamente representar uma política nova.

Cury também defendeu taxar as empresas de apostas esportivas em mais de 50%. O candidato comparou a tributação das bets com a de produtos e serviços e afirmou que a mudança produziria “uma economia muito grande”. Mais uma vez, faltaram números capazes de demonstrar quanto seria arrecadado e qual seria o impacto efetivo da medida sobre as contas públicas.

O problema não é defender uma tributação maior das bets. Pelo contrário: cobrar mais de um setor que movimenta bilhões e está associado a uma série de problemas sociais pode ser uma discussão legítima. O problema é transformar uma porcentagem em solução mágica sem explicar o desenho tributário, os efeitos econômicos e a fiscalização necessária.

Na segurança pública, Cury também apostou na tecnologia como resposta rápida para problemas estruturais. Mas violência contra a mulher não é apenas uma questão de tempo de chegada da polícia. Envolve prevenção, atendimento às vítimas, rede de proteção, casas de acolhimento, investigação, responsabilização dos agressores, políticas educacionais e enfrentamento da desigualdade e da misoginia.

Reduzir esse problema a um drone com sirene pode produzir uma imagem poderosa para as redes sociais, mas está muito distante da complexidade de uma política nacional de enfrentamento ao feminicídio.

O próprio comportamento do candidato durante a entrevista reforçou a impressão de desconforto quando suas ideias eram submetidas a perguntas mais rigorosas. Em outro momento, ao ser questionado sobre suas propostas relacionadas à saúde e à tecnologia, Cury reagiu: “Sou médico, esqueceu disso?”

A frase, entretanto, não responde à questão central. Ser médico não transforma automaticamente uma proposta política em política pública viável. Governar um país exige conhecimento sobre orçamento, legislação, administração, relações federativas e capacidade de implementação — além, evidentemente, de evidências para sustentar decisões que afetarão milhões de pessoas.

Cury tenta se apresentar como alguém acima da polarização. Sua fórmula é resumida pela frase de que pretende reunir “o melhor da direita na mente e o melhor da esquerda no coração”. Mas a tentativa de ocupar esse espaço intermediário não elimina a necessidade de escolhas políticas concretas.

Quem vai financiar o SUS? Como será ampliado o investimento em educação? Qual será a política para os trabalhadores? Como enfrentar a desigualdade? Qual será a relação com o setor privado? Que papel terá o Estado na economia? Como será financiada a Previdência? Como enfrentar a violência contra as mulheres para além de soluções tecnológicas?

Foram justamente essas perguntas que ficaram parcialmente sem resposta.

Isso não significa que Cury tenha sido um fracasso absoluto no JN. Ele conseguiu apresentar propostas, ganhou exposição nacional e demonstrou habilidade para transformar conceitos em frases facilmente compreensíveis. A entrevista também ampliou sua visibilidade justamente em um momento em que sua candidatura vinha crescendo nas redes.

Mas a repercussão posterior mostrou que visibilidade não é sinônimo de consistência. A Folha registrou que as propostas de drones e de um Ministério da Inteligência Artificial viraram meme, enquanto a Lupa identificou erros e promessas que não eram propriamente novas.

E há uma questão política ainda mais profunda. A candidatura de Cury se alimenta da insatisfação de uma parcela do eleitorado com a polarização. Seu crescimento nas pesquisas revela que existe demanda por uma alternativa a Lula e ao bolsonarismo. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (31) mostrou Cury com 11% das intenções de voto, nove pontos a mais que no levantamento anterior.

Mas o crescimento eleitoral não resolve a fragilidade programática. Pelo contrário: quanto mais Cury cresce, maior passa a ser a necessidade de transformar o discurso de autoajuda, tecnologia e eficiência em um projeto efetivo de país.

O JN mostrou justamente esse desafio.

Diante das câmeras, Augusto Cury apresentou muitas ideias. Quando os jornalistas perguntaram como elas seriam realizadas, quanto custariam e quais evidências as sustentariam, porém, o discurso perdeu força.

No fim, a sabatina deixou uma pergunta que vai além dos drones, da inteligência artificial e da telemedicina: Cury está oferecendo uma nova forma de fazer política ou apenas uma nova embalagem para velhas promessas de eficiência e gestão?

Por enquanto, o JN mostrou que há uma distância considerável entre as duas coisas.


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