Espanha: 90 anos da Guerra Civil
Há 90 anos, o levante militar contra a República mergulhou a Espanha em uma guerra que antecipou os horrores do fascismo e da Segunda Guerra Mundial
Foto: Trabalhadores comemorando nas ruas de Barcelona após derrotar a rebelião militar pró-Franco em Barcelona em 19 de julho de 1936. (WS/Reprodução)
Enquanto o povo espanhol tomava as ruas das principais cidades para celebrar a vitória da seleção, encabeçada por Yamine Lamal, se completavam 90 anos do começo da guerra civil, o mais importante evento da história do Estado Espanhol. Revisitar a derrota da revolução espanhola é também refletir sobre os desafios do presente.
A derrota parcial da intentona golpista de 17 e 18 de Julho de 1936 precipitou uma sangrenta guerra civil, que dividiria a Espanha e marcaria todo o século XX.
A II Guerra foi o principal palco de disputa de projetos civilizatórios do Século. A grandeza e dramaticidade dessa guerra se conta por todos os lados. Não seria exagero indicar a guerra civil espanhola como antessala da guerra mundial. E o triunfo das forças franquistas foi na contramão da derrota do nazifascismo de Hitler e Mussolini. A derrota da República levou a décadas da ditadura de Franco.
A “vitória possível” da classe trabalhadora levaria a outro destino. Os anos em que a Península Ibérica viveu dois regimes autoritários e policialescos com Franco e Salazar mergulharam Portugal e Espanha num retrocesso histórico para a classe trabalhadora.
Um pequeno registro dessa efeméride vale a pena para as novas gerações conhecerem a profundidade de um processo histórico desse alcance. Algumas obras merecem ser lidas e indicadas para quem quiser se aprofundar na história da Guerra Civil Espanhola. Desde o magistral filme “Terra e Liberdade”, de Ken Loach (1992); “As Libertárias” de Vicente Andrada: o livro de Pierre Broué e Emil Tamine publicado em 1961 “La Révolution et la Guerre d’Espagne” (publicado em inglês como The Revolution and the Civil War in Spain); a vasta literatura sobre o POUM, com destaque para as obras de autoria de Andy Durgan. Há importantes estudos sobre a participação dos brasileiros nas Brigadas Internacionais, sobre os quais sugiro os artigos de Dainis Karepovs, Angela Mendes de Almeida, do diplomata Paulo Pinheiro, além da publicação da autobiografia de Afonso Gay de Castro, “Um Brasileiro na Espanha”; curiosamente, até na literatura, Orwell, ainda que menos conhecida no Brasil, as marcas da guerra civil se notaram, com o épico romance “Saga”, de Erico Verissimo.
Há 90 anos começava a guerra. Suas contradições são extremamente atuais, num mundo onde fascismo, guerras e crises capitalistas voltam a fazer parte do cotidiano de bilhões. Que nos desafiemos a conhecer mais essa história que, tal qual a da classe operária internacional, é repleta de coragem, derrotas, traições, vitórias e desastres.
Antecedentes históricos e políticos
A vitória eleitoral republicana em 1931 terminou com o regime da restauração bourbônica, em vigor desde 1874, dando origem ao período que ficaria conhecido como II República, abrindo uma nova situação política no país.
A derrota da ditadura de Primo Rivera reabriu novas contradições, latentes no país, quanto ao seu próprio desenvolvimento. A Espanha, ao mesmo tempo atrasada, rural e católica, concentrava uma classe operária, jovem, politizada e disposta ao combate. O país fora marcado por eventos como o da Semana Trágica de 1909 que abalara a Catalunha, ou os processos da greve geral (que paralisou a mesma Catalunha), conhecida como Canadeazo, protagonizada por mulheres – quando a partir da fábrica “La Canadense” se desatou um movimento que só terminou quando arrancou a conquista da jornada de oito horas de trabalho.
A Espanha, multifacetada, marcada pelas divisões, combinava o que as enormes reservas e experiências recentes de sua classe trabalhadora, com o que Broué e Temine chamavam de “país sobrecarregado pelo seu passado”. Da seguinte forma:
“A Rússia czarista devia seu caráter extremamente atrasado à lentidão de seu desenvolvimento econômico geral. A Espanha, por um curioso paradoxo, devia o seu às consequências diretas de sua liderança sobre as outras potências europeias no início dos tempos modernos.
Durante o período em que sua hegemonia sobre a Europa coincidiu com seu domínio no comércio mundial, sua monarquia estava se centralizando e suas características regionais se tornavam mais difusas: a Espanha feudal estava em declínio e um estado moderno estava emergindo (…) Ainda ligado de mil maneiras ao mundo camponês, um proletariado, estimulado pela mesma agressividade, começou a se organizar. Assim, as sementes da destruição de um passado tão vivo e tão pesado que, no início do século XX, parecia eterno, se acumulavam em cada poro de uma sociedade complexa.”
Em seguida, o país entraria na ditadura de Primo Rivera, líder da direita católica, que hegemonizou o país no pós-guerra.
Com o efeito da crise econômica de 1929, a Espanha assiste a Primo renunciar em 1930, deixando o país acéfalo. Em agosto de 1930, é constituído o “Pacto de San Sebastian” onde diversas forças políticas antimonarquistas organizam uma forte coalizão para disputar as eleições do ano seguinte.
Ao perder as eleições municipais de 1931, a monarquia se desintegra. Sob um clima de violência política, com ocupações de terra por parte do campesinato e uma atividade cada vez maior das massas operárias, nucleadas em duas fortes centrais, a CNT (de orientação Anarquista) e a UGT (ligada aos socialistas), a oposição republicana arrasa nas urnas. Vence em 41 capitais de 50 províncias. O Rei Alfonso XIII abandona o país, em completo pânico. A bandeira tricolor republicana é içada nas principais cidades. O povo todo sai a triunfar. Começa a II República e se abre uma situação revolucionária.
Cabe ao proletariado e ao campesinato resolver as questões que a burguesia e a nobreza arrastaram por anos: o problema agrário, o domínio clerical, a questão das Forças Armadas e o tema da Catalunha.
Assim, novamente se impõe a lei do desenvolvimento desigual e combinado: a lenta Espanha dos 20 anos anteriores acelera para uma disputa central nos sete anos seguintes.
A II República e a vitória da Frente Popular
A primeira vitória da coalizão Republicana em 1931 foi recebida pela direita de forma “constitucional”. O general que depois seria a ponta de lança do golpismo, à época comandante da guarda civil, José Sanjurjo, admite a Proclamação da República. Nas eleições seguintes, agora legislativas, em junho de 1931, os republicanos alcançam uma maioria na chamada Assembleia Nacional das Cortes.
Foi nomeado chefe de governo o jornalista e proeminente escritor Manuel Azana, como expressão de um setor republicano das camadas médias ilustradas ligados ao seu partido, Esquerda Republicana. O período conhecido como “biênio reformista” foi marcado pela aprovação de leis favoráveis aos trabalhadores, pelo fortalecimento de greves e ocupações de terra e pela primeira tentativa golpista contra a República. A “Sanjurjada” foi uma ação golpista organizada pelo mais importante líder militar da direita até então, José Sanjurjo, em agosto de 1932, para derrubar Azana. Um dos argumentos era a contrariedade à linha de laicização do governo Azana, para quem a Espanha teria que deixar de ser católica”, como nos ilustra o historiador marxista António Louçã:
Mas em breve Sanjurjo entrava em rota de colisão com essa República em que as classes trabalhadoras reivindicavam um novo lugar. Logo em 1932, ele encabeçou uma conjura antirrepublicana que abortou em todo o lado. Chegou a combater-se em Madri. A cidade de Sevilha, onde Sanjurjo estabeleceu o seu centro de operações, chegou a estar durante algumas horas nas mãos do golpe. No final, também aí o movimento fracassou.
A precipitação de Sanjurjo foi derrotada, mas deixou duas consequências fatais: plantou o ovo da serpente como senha para futuras assonadas e deslocou a chefia da extrema direita fascista para outros personagens, entre eles o que se tornou seu rival e teria um papel central na guerra civil, o futuro ditador Francisco Franco.
O processo de polarização resultou numa radicalização, que teria lugar na eleição seguinte, no final de 1933. A extrema direita se rearticulou, os partidos republicanos perderam votos e os socialistas se apresentaram sozinhos, mantendo sua votação mas perdendo cadeiras parlamentares. Os anarquistas, com o peso de massas, pregam a abstenção, o que facilitaria a vitória da coalizão das direitas. As juventudes socialistas caminhavam para posições revolucionárias, empurrando o principal líder da ala esquerda, Largo Caballero, para a defesa de uma saída de ruptura com o capitalismo espanhol. A eleição de novembro de 1933 foi vencida pela recém-criada CEDA (Coalizão Espanhol das Direitas Autônomas), seguidos pelos Radicais de Lerroux, com 115 e 102 assentos, respectivamente.
Quando o governo direitista incorpora o reacionário Gil Robles, a resposta do movimento operário é inequívoca: greve geral em diversas regiões. O processo mais profundo, no qual a greve geral se transforma em insurreição, é no que seria chamado de Comuna de Astúrias, em outubro de 1934. Os mineiros, destemidos, tomam armas e controlam as principais cidades asturianas por duas semanas.
Julho de 36, Golpe, Revolução e guerra
Dentro da literatura acerca da guerra civil espanhola, se reforça menos o elemento de combinação entre guerra e revolução. Segundo o marxista revolucionário, um dos principais especialistas contemporâneos no assunto, Andy Durgan:
A revolução que estourou como resposta à sublevação militar em julho de 1936 representou o fim do ciclo revolucionário que haviam começado com o triunfo bolchevique de 1917. Em poucos dias, como diria Andreu Nin, a classe trabalhadora, com armas em mãos, havia resolvido os “problemas fundamentais” (…); a pedra angular foi a coletivização da indústria e da terra: uma experiência de autogestão popular única na história do movimento operário. Em muitos casos, a tomada do controle de empresas ou da terra foi um processo espontâneo, com apoio posterior das organizações operárias; (…) A revolução também significou a ocupação ampla do espaço urbano, com a tomada de edifícios e sua conversão em sedes de organizações antifascistas, escolas, hospitais e restaurantes populares.
A resposta do movimento operário abriu caminho para um salto, abrindo uma situação revolucionária, colocando uma data formal para o início da guerra civil. Foi o típico caso em que o “chicote” da contrarrevolução fez avançar o ritmo, a consciência e a marcha do proletariado espanhol rumo à luta pelo poder.
Porém, é preciso entender o que foi a conjuração que resultou na tentativa de golpe em 17-18 de julho de 1936.
O mês de julho de 1936 condensou todas as contradições que vinham se concentrando desde a proclamação da II República. Com um governo débil e o acirramento da luta política dos dois lados, desde maio se sabia que se preparava um golpe na caserna. A Falange Espanhola, principal organização parapolítica de massas do fascismo tomou uma rádio em 11 de julho, em Valência, anunciando a disposição de tomar “pelas armas”. Era a senha, para uma semana depois, iniciar o levante militar dos golpistas.
O assassinato de Calvo Sotelo, um dos líderes proeminentes da direita, colocou mais tensão no ar.
Em 17 de Julho, ocorre o chamado “pronunciamento” ou “movimento” – como veio a se conhecer o levante de militares da direita, articulados com a Falange Espanhola -, sob a bandeira nacionalista contra a República. Começa em Melilla, a partir dos destacamentos do Marrocos.
As tropas espanholas combateram no Marrocos, após vencer a insurreição popular dos anos 20 liderada por Abdelkrim El Khattabi, o leão do Rife, combativo revolucionário marroquino. Após tal vitória, a tropa de ocupação concentrou os setores mais reacionários do exército espanhol, como Franco e Mola.
O levante militar dos “nacionais” tomou parte da Espanha, dividindo o país. Parte de seu triunfo se deu em regiões onde setores da ala moderada do campo republicano se negaram a entregar armas para as duas centrais: CNT (ligada a FAI anarquista) e a UGT (ligada aos socialistas, que se esquerdizavam sob a orientação de Largo Caballero). Assim, os nacionais tomaram posições estratégicas como Zaragoza, Sevilla, Oviedo e León.
Da parte da classe trabalhadora e dos camponeses, a defesa das zonas republicanas se deu com massivas greves gerais e imediata organização de milícias de autodefesa. Um exemplo, foi a Coluna Durruti, destacamento com quase seis mil pessoas, referenciado no icônico anarquista, que a partir de 18 julho tomou as ruas de Barcelona para defender a República.
A resposta do movimento de massas, descrita acima, com o controle absoluto de Madrid e Barcelona, consolida uma nova etapa. A derrota da ofensiva militar para derrubar o governo e a II República dá início oficialmente à guerra civil.
Os eventos de 1937
Ao final de 1936, a guerra se consolidou como uma realidade. Franco é investido como chefe do governo nacional, recebendo o título de “generalíssimo”. A Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini reconhecem o governo de Franco, sendo que nos últimos dias do ano tropas italianas tomaram parte no conflito, desembarcando em Cádiz.
O ano de 1937 foi o ápice da guerra civil. A defesa fervorosa de Madri popularizou o lema “Não Passarão”. O conjunto das zonas estava conflagrado, de ambos os lados, com batalhas e manobras militares diárias.
A linha de desmonte da revolução como estratégia da maioria da direção republicana é um fator que vai começar a inclinar a balança para o lado dos nacionais. A “última oportunidade” ocorre quando se combina uma provocação stalinista e o levante das barricadas de Barcelona, em maio de 1937.
Grupos de assalto do stalinismo tentam tomar a sede da companhia telefônica da Catalunha, símbolo da revolução, controlada pela CNT. A resposta é imediata. Anarquistas, poumistas e mesmo dissidentes de outras vertentes se lançam às barricadas, defendendo sua posição de força. Como um rastilho de pólvora, nos bairros e locais de trabalho, a greve e a ocupação inauguram o “maio revolucionário”, precipitando um chamado à renúncia do governo republicano e o avanço às medidas de transição, para colocar uma junta revolucionária no poder e consagrar as milicias operárias como estado em armas. Uma coluna oriunda de Huesca, com operários inflamados, com armas, chegando ao número de 5000, prontos para marchar à Barcelona.
Uma verdadeira insurreição popular contra o governo da Frente Popular seria conhecida com as jornadas de maio de 1937, o ponto mais alto da Revolução Espanhola, que condicionaria também o desenlace futuro da guerra civil em curso.
As tropas republicanas e os milicianos stalinistas abriram fogo contra os batalhões revolucionários, afogando em sangue o levante. A combinação de uma ação generalizada com uma perseguição policialesca levou à derrota das jornadas de maio, com números que oscilam entre 500 e 1000 assassinatos, apenas na região de Barcelona.
A Operação Nikolai, dirigida pelo serviço secreto russo em solo espanhol, levaria ao sequestro e à tortura de Andres Nin, enquanto o Pravda russo prometia em suas páginas “Não dar trégua aos trotskystas e sabotadores da revolução, na Espanha e na Rússia”.
Ainda em Durgan,
O processo de contrarrevolução dentro da zona republicana alcançou seu ponto álgido com as lutas de rua de maio de 1937. Uma semana depois, a formação de um governo encabeçado pelo socialista moderado Juan Negrin, sem a participação dos anarquistas, representou o reforço definitivo do estado burguês e a supressão dos setores mais revolucionários, sobretudo o POUM, vítima de uma feroz campanha de calúnias por parte do stalinismo. O último bastião da revolução foi o conselho de Aragão, em mãos anarquistas, que foi dissolvido em agosto.
Ao final do fatídico ano de 1937, Trotsky escreveu o artigo “Lições da Espanha: O último aviso”, onde afirmava a teoria da revolução permanente para explicar os acontecimentos, alegando que apenas a revolução proletária pode ser o estágio concreto para bater o fascismo espanhol. Trocando em miúdos, novamente se impôs a máxima de que “o que não avança, retrocede”. O proletariado espanhol sofreria por décadas os efeitos dessa situação política, derrotada a revolução e depois perdida a guerra e a República.
POUM, Esperança Revolucionária
O POUM nasceu fruto da radicalização do movimento de massas e do acúmulo histórico de setores comunistas dissidentes. Ainda em 1935, se realizou, após amplo debate, a fusão orgânica entre a Esquerda Comunista da Espanha, liderada por Andres Nin e o Bloco Operário e Camponês, de Joaquim Maurin. Com um marxismo rigoroso, mas aberto, tomando lugar nas críticas aos ditames da URSS e do stalinismo, uma franja de quadros e dirigentes comunistas estaria a frente do partido mais próximo ao modelo bolchevique em solo espanhol, com presença considerável nos chamados “países catalães”, onde a hegemonia no movimento operário era de corte anarquista.
Nin fora membro da direção da Internacional Comunista, um dos primeiros secretários sindicais, destacado para organizar a frente internacional dos sindicatos ligados aos PCs do mundo todo. Ele, Maurin e Juan de Andrade eram dirigentes da linha de frente dos primeiros anos do PC Espanhol.
Seu órgão central era “La Batalla”, editado e dirigido por Julian Górki, num escritório no bairro gótico em Barcelona. Para além da solidez programática e da experiência na organização sindical e operária, o papel militar do POUM foi relevante. Dirigiu milícias e brigadas internacionais que contaram com milhares de participantes – foi o segundo maior contingente de “internacionais”, atrás apenas dos organizados pelo PCE.
Tomemos a palavra de Miguel Salas:
Foi o POUM — particularmente por meio de seus líderes Maurín e Nin — que sustentou a concepção mais bem elaborada de um plano revolucionário. Após a insurreição de 1934 nas Astúrias, Maurín escreveu um livro intitulado ‘Rumo à Segunda Revolução’, no qual analisou as lições daquela experiência e as apresentou como um ensaio geral para uma nova tentativa revolucionária — um texto que, em muitas de suas reflexões, permanece de grande interesse para a política contemporânea. Nele, definiu os objetivos de um governo de operários e camponeses: uma união ibérica de repúblicas socialistas; a nacionalização da terra, bem como das ferrovias, da indústria de base, das minas e do setor bancário; o monopólio estatal do comércio exterior; a municipalização dos transportes e serviços urbanos; a jornada de trabalho de seis horas; e a democracia operária em todos os aspectos da gestão institucional.
O POUM esteve acompanhado de diversos partidos e ativistas internacionalistas. Todos aqueles que não compactuavam com a II Internacional e a III stalinizada buscavam no POUM um abrigo para combater na Guerra Civil, cientes da sua importância estratégica. O lema “Nem Bruxelas nem Moscou” motivou milhares de combatentes. Trotskistas de várias partes, bordiguistas italianos, membros da chamada “Oposição Comunista Alemã”, ligada a Thalheimer (que teria influência, décadas mais tarde, nos militantes que fundariam a Polop brasileira), além do Partido Trabalhista Independente, ILP, britânico.
A relação do POUM com Trotsky sempre foi sinuosa. A começar pela contrariedade da orientação no começo do processo revolucionário, quando para o revolucionário russo, o correto seria fazer um trabalho comum dentro das Juventudes Socialistas que se radicalizavam, enquanto para Nin o papel dos comunistas era colocar em pé um partido marxista revolucionário. As diferenças aumentaram depois, quando da entrada do POUM no governo da Catalunha, sendo que Trotsky reclamava do “centrismo” da direção de Nin e Maurin.
Apesar disso, o próprio Trotsky reconheceu no POUM o mais honesto dos projetos da esquerda na Espanha revolucionária; o POUM entrou para a radar do stalinismo e de toda Frente Popular como “trotskista”; denunciou abertamente os “Processos de Moscou” que liquidaram a maior parte da velha guarda bolchevique em 1936; teve o mesmo destino que grande parte dos trotskistas no mundo, com Nin sendo assassinado em 1937.
A traição stalinista
Se por um lado, a posição de Franco e dos nacionais refletia o auge do nazifascismo, apoiado na Itália e na Alemanha, o peso do stalinismo dentro da frente republicana era central. A Guerra Civil espanhola era a refração particular de um processo mundial, que não por acaso, derivaria, na II Guerra Mundial.
O stalinismo cumpriu um papel decisivo para a derrota republicana. Seria um erro, contudo, apenas creditar a URSS a responsabilidade da vitória do fascismo, pois concorreram vários fatores. Um erro, ainda pior, seria isentar a política de Stalin, central para que a revolução fosse derrotada – e com a derrota da revolução, a vitória militar e política de Franco, abrindo o período de um regime autoritário (1939-1978) na Espanha, agora monárquica.
O ano de 1936 foi o ano dos “Processos de Moscou”. Trotsky já tinha declarado morta a III Internacional a partir da traição do Partido Comunista Alemão que, apoiado em Stalin, se negou a lutar pela Frente Única e deixou a via livre para a consolidação de Hitler.
Em solo espanhol se consumou outra grande traição de Stalin, que tinha enviado inúmeros quadros políticos e diplomáticos, além de especialistas militares para coordenar as atividades no front Republicano.
Em famosa carta a Largo Caballero, Stalin aconselha a não avançar em medidas radicais, bem como cultivar boas relações com a burguesia, ao melhor estilo da doutrina da Frente Popular, evitando que se desencadeasse a transformação do governo republicano num governo de trabalhadores e de todo povo.
Em 1937, após os eventos de maio, a perseguição contra a CNT, o POUM, anarquistas, comunistas dissidentes e trotskistas se transformaria numa caça às bruxas mortal. Nin foi só um dos rostos mais conhecidos de um processo de assassinatos que buscava descabeçar toda a ala crítica da vanguarda do movimento operário.
A pá de cal foi a renúncia às armas, com a exigência da desmobilização das milicias operárias ligadas a esses setores; a linha de acordos com a burguesia; a exigência da saída dos 150 mil voluntários que lutaram nas brigadas internacionais; no mesmo ano, 1939, que Franco marchou triunfante sobre Madri, tragicamente Stalin assinaria o pacto germano-soviético.
A mesma orientação criminosa evitou a libertação dos revolucionários marroquinos, bem como uma linha de proclamação de sua independência, vez que essa era uma base central para o franquismo. Uma orientação diplomática distinta poderia ter tido um impacto central nas camadas mais populares de parte do exército da contrarrevolução, recrutados no Marrocos. A opção da Frente Popular de manter o jugo colonial foi fatal para a sua própria derrota militar.
Vale destacar, contudo, o papel de traição das “democracias liberais”, como a França (inclusive nos anos de auge da Frente Popular) e o Reino Unido. Sua política de não intervenção foi oposta à que Hitler e Mussolini desenvolveram, ao armar com barcos e aviões o bando militar dos falangistas. A temível Legião Condor, ligada aos alemães, foi responsável pelo massacre de Guernica, no País Basco, onde a aviação simplesmente destruiu a cidade, tragédia imortalizada no quadro de Picasso. Quando há uma luta entre desiguais, a neutralidade é a omissão, e a omissão é tomar o lado do mais forte.
Após as campanhas do final de 1938, já com as tropas republicanas desmoralizadas e esgotadas, se produzem épicas batalhas sobre a linha do Rio Ebro, que separava a Catalunha. Em janeiro de 1939, cai Barcelona, produzindo uma derrota histórica. Finalmente, depois de quase três anos de assédio, Franco toma Madri, proclamado em 1° de maio de 1939, o triunfo do fascismo em todo estado espanhol.
90 anos depois
A vitória de Franco representou uma derrota histórica para a classe trabalhadora espanhola. E foi a antessala da guerra mais sangrenta da humanidade. Contudo, vale registrar a grandeza dos capítulos e das batalhas ali realizadas. Apesar dos crimes de Stalin, a vitória era possível. A vivacidade do movimento operário e camponês na Espanha era incrível. Nin e Trotsky, apesar das diferenças, concordavam que foi um dos processos mais parecidos ao que ocorrera com a Rússia em 1917, quando o impossível se tornou imparável e a classe trabalhadora assaltou os céus.
Um dos capítulos mais gloriosos da Guerra Civil foi o engajamento dos voluntários internacionais. A força de milhares de voluntários, famosos e anônimos, engajados numa batalha de vida e morte pelo futuro entra como capítulo honrado do internacionalismo da nossa classe. Um capítulo esquecido que merece ser resgatado em outras ocasiões é a participação brasileira nesses destacamentos internacionais, inclusive com a presença de um trotskista, Alberto Besouchet, fuzilado pelos republicanos. O caso foi descrito, de forma brilhante, por Dainis Karepovs, como o “capítulo brasileiro dos Processos de Moscou”.
A maquinaria stalinista ainda se beneficiaria da derrota para montar os planos de assassinato de Trotksy, descritos na magistral obra de Leonardo Padura, “O homem que amava os cachorros”, que mostra como a articulação da burocracia da NKVD, a polícia secreta da URSS, com parte dos quadros do stalinismo espanhol, como o verdugo Ramon Mercader.
A predisposição e o heroísmo dos combatentes das forças republicanas se inscrevem no que há de melhor na história da nossa classe. Foram pesadas as baixas. Diferentes fontes apontam em quase 200 mil baixas nas trincheiras do campo republicano, e um número entre superior a 50 mil civis mortos dentro dessa zona.
Após 90 anos do início da guerra, a aprendizagem dos processos históricos serve para debater as lições, armar para o presente e preparar o futuro. Afinal, repetimos o lema dos que defenderam Madri e Barcelona com seus corpos e almas: “Fascistas, não passarão”
Referências
Andy Durgan, Voluntarios por la revolución: La milicia internacional del POUM en la Guerra Civil española.
Andy Durgan
https://vientosur.info/reflexiones-sobre-la-revolucion-de-1936/
Andreu Navarra
La revolución imposible, de Andreu Navarra. Unas notas a propósito de la biografía de Andreu Nin
Andreu Nin
https://www.marxists.org/portugues/nin/1937/04/05-1.htm
Miguel Salas
https://www.sinpermiso.info/textos/1936-el-ano-de-la-revolucion
Pierre Broue e Emile Temine
A REVOLUÇÃO ESPANHOLA 1931-1939 – Broue, Pierre; Editora Perspectiva
https://www.marxists.org/espanol/broue/1961/revolucion-y-guerra-de-espana.pdf
Leon Trotsky
Escritos Sobre Espanha (Editora Arcádia, 1976).