Morre o criminoso de guerra Mladic; relembramos Srebrenica
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Morre o criminoso de guerra Mladic; relembramos Srebrenica

Mladic, o “açougueiro da Bósnia”, faleceu em 27 de agosto. Ele foi um dos responsáveis pelo massacre de Srebrenica, o pior ocorrido em um único dia na Europa desde a Segunda Guerra Mundial

Geoff Ryan 2 set 2026, 10:18

Foto: O general Ratdko Mladic com seu exército sérvio durante o massacre de Srebrenica, em 12 de julho de 1995. (Art ZAMUR/Gamma-Rapho)

Via Anti*Capitalist Resistance

O dia 11 de julho marcou o 30º aniversário do genocídio ocorrido em julho de 1995, no qual mais de 8.000 homens e meninos, em sua maioria bósnios1, foram mortos pelas forças sérvias da Bósnia sob o comando de Ratko Mladic. Eles foram enterrados em valas comuns. Outros muitos milhares fugiram para a floresta e empreenderam uma jornada angustiante que durou até 7 dias antes de chegarem à vila de Nezuk, no leste da Bósnia. O que levou ao massacre e como ele tem sido tratado em comparação com outras duas guerras: a invasão da Ucrânia pela Rússia e o genocídio de Israel contra os palestinos.

Srebrenica continua sendo o pior massacre ocorrido em um único dia na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e foi classificado como genocídio tanto pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPIJ) quanto pela Corte Internacional de Justiça (CIJ). 16 pessoas foram condenadas por crimes cometidos em Srebrenica, incluindo o chefe do exército Ratko Mladic e Radovan Karadzic, presidente do Estado sérvio-bósnio Republika Srpska, ambos cumprindo pena de prisão perpétua em Haia.

Slobodan Milosevic, ex-presidente da Sérvia e principal criminoso de guerra, também acabou sendo preso, levado a julgamento e encarcerado em Haia, onde faleceu em 2006. Seu vice e líder dos atuais chetniks fascistas, Vojislav Seselj, também está preso em Haia. Uma situação diferente em relação à situação atual de Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu.

Que diferença também em relação à atitude diante dos massacres diários de palestinos em Gaza e na Cisjordânia. O assassinato de 8.000 bósnios é chamado de genocídio, enquanto a descrição de um número talvez dez vezes maior de palestinos é fortemente contestada, especialmente por governos ocidentais.

Em maio de 2024, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução A/RES/78/282, que designou o dia 11 de julho como o Dia Internacional de Reflexão e Comemoração do Genocídio de Srebrenica de 1995, a ser celebrado anualmente.

A mesma resolução também condenou qualquer negação de que um genocídio tivesse sido cometido em Srebrenica e instou os Estados-membros a preservar os fatos comprovados e a “agir em memória, com o objetivo de prevenir a negação, a distorção e a ocorrência de genocídios no futuro”.

No entanto, a ONU não explicou como o genocídio pôde ocorrer em uma área que havia sido designada como “zona segura” e que supostamente era protegida por tropas da ONU da Holanda. Os “capacetes azuis” holandeses estavam em uma posição quase impossível, pois eram “forças de paz” e, portanto, muito limitados na forma como podiam responder aos ataques sérvios contra a população bósnia.2 A Holanda foi o único Estado que se ofereceu para fornecer tropas, e os governos ocidentais estavam ocupados discutindo o plano para encerrar a guerra elaborado pelo secretário de Estado dos EUA, Cyrus Vance, e pelo ministro das Relações Exteriores britânico, David Owen.

Tropas irlandesas da ONU foram alvo de tiros das forças israelenses durante a recente guerra de Israel no Líbano. As dificuldades enfrentadas pelos holandeses em Srebrenica não parecem ter sido levadas em consideração.

O genocídio de Srebrenica não é apenas um evento importante e horrível do passado. Ele também influencia a forma como nos relacionamos com as lutas atuais, em particular na Ucrânia e na Palestina. Para compreender isso, precisamos voltar à história e examinar as dinâmicas que levaram ao desmembramento da República Socialista Federal da Iugoslávia.3

A República Socialista Federal da Iugoslávia (RPFI)

A RPFI4 foi criada no final da Segunda Guerra Mundial a partir das ruínas da antiga Iugoslávia. As forças dominantes eram o exército partisan, no qual o Partido Comunista detinha a hegemonia. Os partisans haviam combatido os exércitos alemães invasores, o governo sérvio pró-nazista em Belgrado5, o regime igualmente pró-nazista dos ustasha na Croácia e na Bósnia-Herzegovina e o movimento nacionalista sérvio dos chetniks antes de saírem vitoriosos.

As principais lutas ocorreram na Croácia e na Bósnia-Herzegovina. Embora a maioria dos partisans fosse sérvia, eles eram predominantemente originários de regiões sérvias da Croácia e da Bósnia-Herzegovina, e não da própria Sérvia. Sua figura de destaque, Josip Broz (mais conhecido como Tito), era em parte croata e em parte esloveno.

Os partisans estavam plenamente cientes de que uma das causas do desmembramento da antiga Iugoslávia era o conflito entre diferentes grupos nacionais. Em particular, eles estavam preocupados em impedir o domínio dos sérvios, o maior grupo nacional. A solução foi um Estado federal composto pelas Repúblicas da Sérvia, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Bósnia-Herzegovina e Montenegro.

Ao mesmo tempo, os comunistas iugoslavos estavam envolvidos em uma luta contra Stalin e o Cominform. De acordo com o pacto que Stalin havia firmado com Winston Churchill, a Iugoslávia deveria estar na esfera de influência britânica, e Stalin estava decididamente insatisfeito com o fato de os iugoslavos terem assumido o poder. Tito e os partisans foram condenados ao ostracismo e expulsos das organizações comunistas internacionais.

A ruptura com Moscou teve um impacto real no desenvolvimento da Iugoslávia como Estado federal. As repúblicas passaram a ter certa autonomia; a “autogestão dos trabalhadores” foi promovida em contraste com o modelo altamente burocratizado da União Soviética. No cenário internacional, os iugoslavos participaram ativamente da criação e do desenvolvimento do Movimento dos Países Não Alinhados. Mas, nos bastidores, ocorriam acontecimentos que acabariam levando à destruição da República Socialista Federativa da Iugoslávia (RPFI) após a morte de Tito

Revolta de Kosova6

No final da década de 1980, a RPFI enfrentava graves problemas. A economia estava em sérias dificuldades, incapaz de pagar os enormes empréstimos contraídos na década de 1970. Os problemas econômicos eram mais agudos na província autônoma de Kosova, parte da Sérvia com maioria albanesa, mas com um significado quase mítico para os nacionalistas sérvios7. O desemprego ultrapassava 20%. Os jovens saíram às ruas e exigiram que Kosova se tornasse uma república independente da Sérvia, mas dentro da RPFI. Seus protestos foram brutalmente reprimidos pela polícia e pelo exército, que se mostravam cada vez mais leais a Slobodan Milosevic, que havia chegado ao poder em 1987.

Após assumir o poder, Milosevic passou a alterar o equilíbrio de forças. Ele substituiu a liderança do partido em Montenegro, aboliu o status de autonomia das duas províncias de Kosova e Voivodina (esta última não possuía uma nacionalidade majoritária, mas os húngaros constituíam a maior minoria), mas manteve seus assentos nos órgãos federais, garantindo assim para si um mínimo de 4 votos de um total de 8.

As outras repúblicas também enfrentavam graves dificuldades econômicas. Mas, enquanto na Sérvia e em Montenegro Milosevic defendia um controle federal muito maior, na Croácia e, especialmente, na Eslovênia, a liderança da Liga dos Comunistas desejava controles mais flexíveis e maior descentralização.

Eslovênia versus Sérvia

As perspectivas muito diferentes das lideranças da Liga dos Comunistas da Sérvia e da Liga dos Comunistas da Eslovênia, bem como o conflito entre elas, são fundamentais para compreender o desmembramento da Iugoslávia. A Sérvia queria uma economia mais rigidamente controlada, aliada a um Estado mais centralizado; os eslovenos queriam maior liberdade econômica e um Estado mais descentralizado, com maior autonomia para as repúblicas. Ambos os lados queriam maiores concessões ao capitalismo e ao mercado: é completamente errado ver Milosevic como defensor do socialismo e o líder esloveno Milan Kucan como defensor do capitalismo.

As tendências cada vez mais autoritárias de Milosevic acabaram levando a liderança da Liga dos Comunistas da Eslovênia a declarar a independência, algo que, teoricamente, lhes era garantido pelo direito previsto na Constituição de 1974. A resposta de Milosevic e da liderança do Exército Popular da Iugoslávia (JNA) foi militar. Durante dez dias, de 27 de junho a 7 de julho de 1991, a Força de Defesa Territorial da Eslovênia e a polícia lutaram contra o JNA. A guerra terminou com um cessar-fogo e a retirada das forças do JNA.

Por que o JNA se retirou e por que Milosevic apoiou isso? Principalmente porque havia muito poucos sérvios na Eslovênia e, nessa época, Milosevic já era um nacionalista sérvio convicto. A decisão de Milosevic de encerrar a guerra contra a Eslovênia teria, no entanto, grandes repercussões na Croácia e, posteriormente, na Bósnia, pois, uma vez que a Eslovênia fosse autorizada a se separar da RPFI, seria quase inevitável que a Croácia seguisse o mesmo caminho e que a Bósnia-Herzegovina não ficasse muito atrás.

Guerra na Croácia: ecos da Ucrânia

Milosevic pode muito bem ter estado disposto a deixar a Eslovênia ir, mas a Croácia era uma questão totalmente diferente. A Croácia, ao contrário da Eslovênia, tinha muitos sérvios, e Milosevic estava determinado a incorporá-los à Grande Sérvia. Os partidários de Milosevic na Croácia haviam inicialmente entrado em conflito com o então governo comunista quando organizaram manifestações em apoio à repressão da população albanesa de Kosova. Agora, eles se deparavam com o governo do ex-comunista que se tornou nacionalista croata, Franjo Tudjman.

Há poucas evidências de que os sérvios na Croácia tenham sido inicialmente ameaçados pelo governo croata, nem há evidências de que o governo fosse ustasha. Da mesma forma que não há evidências de que Zelensky, na Ucrânia, seja um neonazista, como alegam Putin e seus apoiadores. Os paralelos entre as guerras na Croácia e na Ucrânia são impressionantes.

Milosevic e o JNA invadiram a Croácia da mesma forma que Putin e o exército russo invadiram a Ucrânia. Ambas as forças invasoras contavam com ativistas de partidos de extrema direita. Vukovar foi destruída na Croácia, assim como Mariupol na Ucrânia. Referendos fraudulentos foram utilizados na Croácia para estabelecer a República Sérvia da Krajina, da mesma forma que foram usados para criar as “repúblicas” pró-russas no leste da Ucrânia. Zelensky é acusado de ser um banderista [seguidor do líder nacionalista Stepan Bandera, NT], assim como Tudjman foi acusado de ser um ustasha. Os sérvios em Krajina não estavam motivados principalmente pela defesa dos sérvios, mas por tornar impossível a existência de um Estado croata independente, de maneira semelhante às forças pró-russas (e, muitas vezes, russas) no Donbass, que parecem mais preocupadas em destruir a Ucrânia do que em defender a população de Donetsk e Luhansk.

Infelizmente, há também outro paralelo: a incapacidade da esquerda, particularmente na Grã-Bretanha, de enxergar além de sua obsessão com um imperialismo ocidental todo-poderoso que controla todos os acontecimentos. Assim, o Socialist Workers Party (SWP), na época, alegou que a guerra na Croácia era culpa da Alemanha, porque a Alemanha reconheceu a independência da Croácia. O fato de outros Estados terem reconhecido a Croácia antes da Alemanha foi ignorado, assim como o fato de que o reconhecimento ocorreu depois que a guerra já havia começado.

A intervenção ocidental foi culpada, e o povo da Croácia foi tratado como mero fantoche a ser manipulados à vontade pelo imperialismo. Mais ecos da Ucrânia, onde grande parte da esquerda na Grã-Bretanha nega qualquer autonomia ao povo ucraniano em sua guerra contra Putin. Eles também são meros fantoches nas mãos das potências imperialistas. Os protestos de Maidan foram todos manipulados pelos EUA ou por neonazistas – e outras bobagens.

De qualquer forma, não reconhecer um Estado não é também uma forma de intervenção imperialista? Somos indiferentes quanto ao fato de o governo britânico reconhecer ou não um Estado palestino, por exemplo?

Guerra na Bósnia

O fim da guerra contra a Croácia levou Milosevic inevitavelmente à guerra contra a Bósnia-Herzegovina. Dada sua determinação em reunir o maior número possível de sérvios em um único Estado da Grande Sérvia, não havia como ele ignorar a grande população sérvia na Bósnia. Sua tentativa de dividir a Bósnia contou com a ajuda de seu antigo inimigo, Franjo Tudman, que também tentava separar a Herzegovina — de maioria croata — para concretizar sua visão de uma Grande Croácia.

Grande parte da esquerda britânica, mais uma vez, não compreendeu a guerra na Bósnia-Herzegovina, vendo-a como um mero confronto entre diferentes nacionalismos8. Eles não compreendiam as complexidades da sociedade bósnia e, em particular, não conseguiam entender o caráter multinacional do Estado e, por extensão, do governo da Bósnia-Herzegovina. Apesar dos piores esforços de Milosevic e Tudjman, um governo multinacional sobreviveu, incluindo bósnios, croatas, sérvios e outras minorias nacionais. O chefe do exército bósnio era sérvio. O editor do jornal diário pró-governo Oslobodjenje, que continuou a ser publicado durante toda a guerra, era sérvio.

Acima de tudo, o movimento operário permaneceu multinacional. Na cidade industrial de Tuzla, os sindicatos organizaram forças de defesa que incluíam sérvios, croatas e bósnios, iugoslavos que se recusavam a ser categorizados por etnia e todas as nacionalidades da região. Tuzla tornou-se um ponto de referência para aqueles da esquerda em toda a Europa Ocidental que conseguiam compreender a diferença entre o governo multinacional e multiétnico da Bósnia e o ultranacionalismo de Milosevic e Tudjman. A IV Internacional tem, com razão, orgulho do papel de seus militantes no apoio à luta dos trabalhadores de Tuzla e na construção da Ajuda Internacional aos Trabalhadores.9

Notas

  1. Os bósnios também são conhecidos como muçulmanos bósnios, que foram classificados como uma “nação” na República Socialista Federal da Iugoslávia antes de sua dissolução. Cerca de 1.000 das vítimas continuam sem identificação. ↩︎
  2. Para um relato das dificuldades enfrentadas pelas tropas do Dutchbat, consulte: Jan Willem Honig e Norbert Both, Srebrenica: Record of a War Crime, Penguin, 1996. ↩︎
  3. O que se segue é um breve esboço da formação e desintegração da Iugoslávia de 1945 até a década de 1990. Para uma análise mais completa, consulte Geoff Ryan (org.), Bosnia 1994: Armageddon in Europe*, disponível em Scanned Image – Marxists Internet Archive. ↩︎
  4. Estritamente falando, a República Popular Federativa da Iugoslávia até 1963, quando o nome foi alterado para RFI. Por conveniência, utilizei RPFI ao longo do texto. ↩︎
  5. Esse governo é frequentemente esquecido nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial na Iugoslávia. A brutalidade e o antissemitismo do governo ustasha na Croácia são frequentemente mencionados, mas o fato de que o governo sérvio foi o primeiro na Europa a declarar seu país judenrein (“livre de judeus”) é ignorado. ↩︎
  6. Utilizei a grafia albanesa em vez da sérvia “Kosovo”. ↩︎
  7. Foi em Kosova que o exército sérvio foi derrotado pelo exército otomano e a Sérvia ficou sob o controle otomano. A batalha ocorreu em 1389, embora, para os nacionalistas sérvios, pudesse ter sido ontem. ↩︎
  8. Houve algumas exceções, particularmente o Workers Power e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (WRP), que, à sua maneira, apoiaram o direito da Bósnia-Herzegovina de existir; mas o sectarismo do WRP, em particular, tornou impossível construir uma campanha conjunta de solidariedade. A International Workers Aid contou com o apoio da IV Internacional, e camaradas da Bélgica, Dinamarca, Suécia e Grã-Bretanha, entre outros, desempenharam papéis importantes no envio de ajuda à Bósnia. Assim como fez a Workers Aid for Bosnia, do WRP. ↩︎
  9. [9] Para mais informações sobre a Workers Aid, consulte Nicholas Moll, Solidarity Is More Than a Slogan, disponível para download na página da Fundação Rosa Luxemburgo. ↩︎

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