Manifesto da Maré Negra: o fascismo é expressão do racismo
WhatsApp-Image-2026-03-29-at-18.33.41

Manifesto da Maré Negra: o fascismo é expressão do racismo

Somos herdeiros de uma formação social forjada na escravidão, onde o racismo não é resquício, mas engrenagem ativa da acumulação capitalista

Maré Negra 30 mar 2026, 17:41

Foto: Plenária do movimento Maré Negra na 1ª Conferência Internacional Antifascista de Porto Alegre. (Maré Negra/Reprodução)

Em um momento de escalada brutal da barbárie imperialista, precisamos afirmar e reafirmar que não existe fascismo sem racismo. Após anos de ameaças, os Estados Unidos e Israel lançaram, em fevereiro de 2026, um ataque massivo contra o Irã, bombardeando cidades, instalações militares e até uma escola feminina, onde dezenas de meninas foram assassinadas. Sob o pretexto de um suposto programa nuclear o governo de Donald Trump aprofunda uma política de guerra baseada em mentiras, dominação e controle geopolítico.

Esse ataque não é um episódio isolado. Ele expressa um giro agressivo e colonialista do imperialismo estadunidense em um contexto de crise da ordem neoliberal e disputa global com outras potências. O genocídio do povo palestino, conduzido pelo Estado de Israel, a militarização de territórios, as ameaças a nações soberanas e as tentativas de controle direto sobre recursos naturais revelam uma lógica: a manutenção do poder global por meio da guerra, da morte e da expropriação dos povos racializados. Atualmente, é o que acontece com Haiti e Venezuela, Estados antes soberanos que agora sequer tem autonomia para gerir sua política e sua economia. O Haiti, por exemplo, vive em uma situação de caos, através de uma política imperialista de gestão da morte contra seu povo. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados e levado para os Estados Unidos, em uma operação que viola todos os princípios do direito internacional e da soberania, tudo em nome das reservas de petróleo. As ameaças não param por aí, Trump quer mais guerras, agora, através de boicotes sanções e sabotagens, pretende intervir em Cuba. Isso, por sua vez, demonstra que os Estados Unidos farão de tudo para manter sua decadente hegemonia e que o alvo são os povos racializados, pois a manutenção do seu poder tem um caráter fascista e, sendo assim, é racista. A luta anti-imperialista é a luta contra a classe burguesa que, através de guerras e intervenções submete povos à morte e à fome. Nesse sentido, não há imperialismo mais ou menos pior, por isso que somos contra a invasão russa à Ucrânia, pois o governo Putin e seu oligarcas querem sangue por lucro e nós defendemos o direito humano pela vida com dignidade e livre de opressão.

Como internacionalistas, nos somamos às mobilizações internacionais contra as guerras e as intervenções imperialistas, sejam quais forem, bem como às marchas anticoloniais em solidariedade ao povo palestino e à luta dos imigrantes nos Estados Unidos contra o racismo e o autoritarismo.

No Brasil, essa conjuntura internacional se conecta diretamente com o avanço da extrema direita, do bolsonarismo e de projetos fascistas que operam a partir da violência, do racismo e da destruição de direitos. Enfrentar o fascismo aqui exige compreender que ele é parte de um sistema global que tem na exploração racializada um de seus pilares centrais.

É nesse cenário que afirmamos: este manifesto expressa uma necessidade histórica. Fazer emergir, no Brasil e no mundo, uma Maré Negra que reposicione o debate racial no centro da luta de classes e da estratégia revolucionária. Não há enfrentamento real ao fascismo, ao capitalismo em crise e à barbárie sem colocar a luta antirracista como eixo cental do nosso projeto político.

Somos herdeiros de uma formação social forjada na escravidão, onde o racismo não é resquício, mas engrenagem ativa da acumulação capitalista. Como demonstram Clóvis Moura e Lélia Gonzalez, a população negra foi historicamente constituída como massa marginal, superexplorada e excluída dos direitos fundamentais. É essa realidade que ainda organiza o Brasil de hoje — das periferias às prisões, do mercado de trabalho à violência de Estado.

Diante disso, afirmamos: não há socialismo sem libertação negra. E não haverá libertação negra sem ruptura com o capitalismo racial.

O Maré Negra nasce para organizar essa ruptura a partir de um programa.

DEFENDEMOS:

  1. Marxismo Negro, internacionalismo e luta anticolonial

Reafirmamos o marxismo como ferramenta viva, atualizada pela experiência da luta negra. Defendemos um internacionalismo enraizado nas lutas dos povos racializados e na tradição da luta radical negra, articulando anticapitalismo e combate ao colonialismo em todas as suas formas.

  1. Ecossocialismo e racismo ambiental

A crise climática atinge de forma brutal os territórios negros, periféricos, quilombolas e tradicionais. Lutamos por um ecossocialismo que enfrente o racismo ambiental, garantindo proteção aos territórios ancestrais e o direito à vida digna.

  1. Trabalho, renda e reparação histórica

A população negra ocupa os piores postos de trabalho ou é empurrada para a informalidade. Defendemos políticas estruturais como a renda básica universal, ampliação de direitos sociais e medidas concretas de reparação histórica frente ao legado da escravidão.

  1. Amefricanizar o feminismo

Inspiradas em Lélia Gonzalez, afirmamos a centralidade das mulheres negras como sujeitas políticas e organizadoras das lutas. É nas periferias que se constrói a resistência cotidiana, e é a partir delas que devemos expandir nosso projeto político.

  1. Segurança pública

Denunciamos o genocídio da juventude negra, a política de guerra às drogas e o encarceramento em massa, afirmando a necessidade de ruptura com o modelo repressivo que sustenta o Estado penal.

  1. Fortalecimento teórico e intelectual negro

Reivindicamos e ampliamos os referenciais de Clóvis Moura, Lélia Gonzalez e Frantz Fanon como bases para a formulação política revolucionária.

  1. Cultura, etnicidade e ancestralidade

A cultura negra é território de resistência. Defendemos sua valorização, proteção e expansão como parte fundamental da luta política e da construção de identidade e consciência coletiva.

  1. Educação para emancipação negra

Lutamos por uma educação pública que rompa com o eurocentrismo e forme sujeitos críticos, comprometidos com a transformação social e a emancipação do povo negro.

  1. Direito à terra e à cidade

Defendemos reforma agrária e urbana radical, garantindo acesso à terra, moradia digna e o fim da lógica de expulsão das populações negras dos territórios.

  1. Movimento negro e disputa de rumos

Reconhecemos a importância histórica de organizações como Movimento Negro Unificado, UNEGRO e Coalizão Negra por Direitos. Nos colocamos em diálogo, mas afirmamos a necessidade de um projeto independente, classista e revolucionário para o movimento negro.

  1. Internacionalismo e construção na IV Internacional

Assumimos a tarefa de fortalecer a luta antirracista no interior da IV Internacional, construindo uma articulação internacional de negros e negras que integre o trotskismo à luta contra o racismo estrutural em escala mundial.

Nós do Maré Negra convocamos todas e todos a responder a este chamado histórico. Uma geração que se recusa a aceitar a marginalização como destino e que reivindica seu papel como sujeito central da transformação revolucionária.

Fazer emergir uma Maré Negra é afirmar que a luta contra o fascismo passa necessariamente pela luta contra o racismo. É afirmar que a classe trabalhadora tem cor, território e história.


TV Movimento

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo

Global Sumud Flotilla: Por que tentamos chegar a Gaza

Importante mensagem de três integrantes brasileiros da Global Sumud Flotilla! Mariana Conti é vereadora de Campinas, uma das maiores cidades do Brasil. Gabi Tolotti é presidente do PSOL no estado brasileiro do Rio Grande do Sul e chefe de gabinete da deputada estadual Luciana Genro. E Nicolas Calabrese é professor de Educação Física e militante da Rede Emancipa. Estamos unindo esforços no mundo inteiro para abrir um corredor humanitário e furar o cerco a Gaza!
Editorial
Israel Dutra | 16 mar 2026

O Brasil e a guerra

Os efeitos de uma crise econômica e energética geram impactos para o Brasil
O Brasil e a guerra
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores