Flávio repete estratégia de Jair e volta a atacar urnas eletrônicas diante de diplomatas
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Flávio repete estratégia de Jair e volta a atacar urnas eletrônicas diante de diplomatas

Pré-candidato do PL revive narrativa já desmentida pelo TSE e reedita roteiro que tornou Jair Bolsonaro inelegível; especialistas apontam que ataques recorrentes buscam fragilizar a confiança no processo eleitoral e preparar terreno para contestar resultados

Tatiana Py Dutra 22 jul 2026, 09:23

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, voltou a lançar suspeitas sem provas contra o sistema eletrônico de votação brasileiro durante um encontro com representantes diplomáticos de cerca de 50 países. Ao repetir alegações já desmentidas diversas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o parlamentar reproduziu a mesma estratégia adotada por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que culminou em sua condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, tornando-o inelegível até 2030.

Durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em São Paulo, Flávio afirmou que as urnas eletrônicas brasileiras seriam da mesma empresa utilizada na Venezuela e citou um suposto relatório da CIA para sustentar suspeitas de vulnerabilidades no sistema eleitoral.

“Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”, declarou.

Na sequência, o senador pediu que outros países enviassem um número maior de observadores internacionais para acompanhar as eleições brasileiras, afirmando que não estaria questionando o sistema eleitoral.

A declaração, entretanto, contraria informações oficiais reiteradas pela Justiça Eleitoral há anos. Em nota atualizada neste mês, o TSE voltou a esclarecer que são falsas as alegações de que a empresa venezuelana Smartmatic fornece urnas eletrônicas ou softwares utilizados nas eleições brasileiras.

Segundo o tribunal, “todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral”. A Corte também ressalta que a Smartmatic jamais desenvolveu ou operou as urnas brasileiras, tendo apenas prestado, em ocasiões específicas, serviços de treinamento de técnicos e de conexão de dados, além de ter perdido a licitação para fabricação de urnas em 2020 para a empresa Positivo.

O TSE também lembra que o sistema brasileiro utiliza redes próprias e criptografadas, sem conexão com a internet durante a votação, e que, ao longo de quase três décadas de utilização das urnas eletrônicas, nunca foi comprovada fraude na totalização dos votos.

Repetição de uma estratégia política

A escolha do tema e do cenário remete diretamente ao episódio protagonizado por Jair Bolsonaro em julho de 2022. À época, ainda presidente da República, ele reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para repetir acusações infundadas sobre as urnas eletrônicas e o processo eleitoral brasileiro, utilizando a estrutura do Estado para transmitir, em cadeia pública, alegações já desmentidas por órgãos oficiais. A iniciativa acabou sendo considerada pelo TSE como abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, decisão que levou à inelegibilidade do ex-presidente.

Agora, quatro anos depois, Flávio reproduz praticamente o mesmo roteiro: convoca representantes estrangeiros, revive teorias já refutadas pela Justiça Eleitoral e busca internacionalizar dúvidas sobre a confiabilidade das eleições brasileiras.

Embora a campanha do senador tenha divulgado nota afirmando que ele “não questionou a integridade do sistema de votações” e que apenas defendeu maior presença de observadores internacionais, a fala voltou a associar, sem evidências, as urnas brasileiras à Smartmatic – informação oficialmente desmentida desde 2020.

Narrativa antiga, fatos conhecidos

As acusações envolvendo a Smartmatic não são novidade dentro do bolsonarismo. Em 2019, Jair e Flávio Bolsonaro incentivaram uma apuração interna na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre a empresa. O memorando produzido à época apenas registrava que a Smartmatic havia participado do treinamento de técnicos durante as eleições de 2012, sem qualquer relação com a fabricação ou programação das urnas brasileiras. Mesmo assim, o documento passou a ser utilizado para alimentar versões falsas de que o Brasil utilizaria equipamentos venezuelanos.

Em 2022, o Partido Liberal também contratou, com recursos públicos do fundo partidário, um parecer técnico alegando vulnerabilidades em parte das urnas eletrônicas. Posteriormente, perícias apontaram manipulações metodológicas no documento. Ainda assim, o partido pediu a invalidação de votos apenas da eleição presidencial, embora as mesmas urnas tenham eleito sua maior bancada no Congresso Nacional.

O pedido foi rejeitado pelo TSE, que aplicou multa de R$ 22 milhões ao partido por litigância de má-fé.

Deslegitimar para contestar

Especialistas em democracia e desinformação têm apontado que ataques reiterados às instituições eleitorais cumprem uma função política que vai além da simples crítica técnica. Ao lançar dúvidas permanentes sobre a lisura das eleições sem apresentar provas, lideranças políticas podem enfraquecer a confiança pública no processo democrático e criar uma narrativa prévia para questionar eventual derrota nas urnas.

Essa estratégia foi observada em diferentes países nos últimos anos, especialmente após a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2020, quando alegações infundadas de fraude serviram de base para tentativas de contestação do resultado eleitoral.

No caso brasileiro, todas as auditorias realizadas sobre o sistema eletrônico de votação – incluindo testes públicos de segurança, fiscalização por partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Polícia Federal, Forças Armadas e universidades – nunca encontraram evidências de fraude capaz de alterar resultados eleitorais.

Desde sua adoção nacional, em 1996, as urnas eletrônicas brasileiras nunca tiveram um resultado eleitoral invalidado por manipulação do equipamento ou da apuração.

Herança política

A nova investida contra as urnas também reforça a continuidade política entre pai e filho. Quando lançou sua pré-candidatura, Flávio Bolsonaro buscou construir a imagem de um candidato mais moderado que Jair Bolsonaro. Entretanto, ao reeditar um dos principais discursos que marcaram o governo do ex-presidente – justamente aquele que resultou em sua condenação eleitoral -, o senador volta a aproximar sua campanha do núcleo mais radical do bolsonarismo.

Ao retomar uma narrativa repetidamente desmentida pela Justiça Eleitoral, Flávio recoloca no centro da disputa um tema que marcou a crise institucional de 2022 e reacende o debate sobre o uso sistemático da desinformação como instrumento de desgaste das instituições democráticas.


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