Mesmo com eleições, instabilidade política deve seguir no Peru
A crise política que domina o país deve continuar
A campanha presidencial no Peru encerrou nesta última quinta-feira, dia 9, em um cenário de indefinição sobre quem vai para o segundo turno, mas uma certeza: a crise política que domina o país deve continuar. Independentemente do resultado das eleições do próximo domingo, dia 12, a perspectiva é que o Peru siga mergulhado em uma conjuntura de instabilidade. Em dez anos, oito presidentes passaram pelo Palácio do Governo da Praça Maior de Lima e foram destituídos do cargo, seja por escândalos de corrupção, relações com o crime organizado ou tentativa de golpe.
A crise política que o país vive se expressa na fragmentação da disputa eleitoral, com 35 candidaturas à Presidência da República, sendo a maioria de direita e extrema-direita, defensora de políticas de ajuste fiscal e ligada ao pacto mafioso que controla o Congresso Nacional. Mas nenhum deles conseguirá ter maioria no Parlamento, o que deixa o país refém das chantagens e barganhas dos congressistas, enquanto a população sofre com a falta de emprego e segurança pública.
Alguns candidatos estão envolvidos diretamente em esquemas de corrupção, como o ex-governador do Departamento de Junin, Vladimir Cerrón, do partido Peru Livre, que está foragido da Justiça e não tem feito campanha de rua para não ser preso.
Tudo isso tem contribuído para o descrédito da população com a casta política do país. Mais de 90% dos peruanos não confiam ou tem pouca confiança no governo e no Congresso, segundo a pesquisa latinobarômetro. É a maior rejeição da América Latina, cuja repulsa se vê nas ruas. Na semana passada, o empresário bilionário e ex-governador do Departamento de Libertad, Carlos Acuña, chegou a levar uma ovada na rua de um jovem durante uma atividade de campanha.
Nesse contexto, nenhuma candidatura conseguiu se projetar enquanto grande liderança nacional nesta eleição, o que reforça o cenário de crise. É bem possível que candidaturas avancem ao segundo turno, previsto para junho, com menos de 15% dos votos. Ao mesmo tempo, o número de votos em branco e nulos deve superar a votação da maior parte dos candidatos, pois além do descrédito da população com a casta política e do desconhecimento sobre as candidaturas em virtude da fragmentação, a forma de votar no país é bastante complexa.
Depois de mais de 35 anos, o Congresso peruano volta a ser bicameral e, além dos deputados, os eleitores voltarão a escolher senadores. A população terá que votar em uma cédula maior que uma folha de papel A3, marcando os símbolos de seus candidatos a presidente e vice-presidente, senadores nacionais, senadores regionais, deputados nacionais e parlamentares andinos e, depois, escrever o número da candidatura que, a depender do cargo, podem ser indicadas duas numerações. Através de sorteio, a Aliança Venceremos, liderada por Ronald Atencio. foi definida como a primeira da lista de votação, o que facilita o processo de escolha.
Cenário é de indefinição
Com tantas candidaturas, o cenário é de indefinição. Embora centradas em Lima e nos grandes centros urbanos, as últimas pesquisas foram publicadas na segunda-feira, dia 6, prazo final para a publicação destes levantamentos. Porém, muita coisa ainda está em aberto. De acordo com as pesquisas, a extrema-direita lidera o processo com a filha do ditador Alberto Fujimori, Keiko Fujimori, seguida de perto pelo comediante de extrema-direita, Carlos Álvarez. Já o ex-prefeito de Lima, considerado o Bolsonaro peruano, Rafael Lopez Aliaga, está em franco declínio,
Entre os candidatos do campo progressista, o deputado Roberto Sanchez, do Juntos pelo Peru e que conta com o apoio do ex-presidente Pedro Castillo, é o que melhor tem pontuado nas pesquisas, estando em empate técnico no segundo lugar, enquanto o ex-reitor da Universidade Nacional de Engenharia, Alfonso Lopez Chau, está em queda. O centrista Jorge Nieto também está bem pontuado e o candidato da Aliança Venceremos, Ronald Atencio, corre por fora, acreditando na mobilização popular para passar ao segundo turno.
Até pouco mais de uma semana, Atencio sequer aparecia nas pesquisas, mas agora tem crescido. Segundo ele, as pesquisas são manipuladas, estão centradas na capital peruana que historicamente é conservadora, e ignoram a preferência eleitoral do interior do país, principalmente a organização dos movimentos de cocaleiros. Embora não esteja nas primeiras colocações das pesquisas, Atencio tem feito fortes comícios e caminhadas, como em Cuzco, Cajamarca e Chao nos últimos dias. Na terça, mais de 2 mil pessoas caminharam em Sechura, no distrito de Piura, em apoio à Aliança Venceremos.
Essas mobilizações de rua têm corroborado com as análises da coordenação da campanha de Venceremos e com a confiança de que Atencio pode ser o candidato da esquerda no segundo turno. Eles relembram as eleições de 2021, quando o ex-presidente Pedro Castillo sequer aparecia nas pesquisas e, na última semana, cresceu, passou para o segundo turno e derrotou a representante da extrema-direita, Keiko Fujimori.
Para isso, Atencio tem apostado no discurso antisistema e intensificado o corpo a corpo no interior do país, em regiões propícias ao voto popular. O candidato tem como eixo a defesa de uma Assembleia Constituinte Plurinacional, o enfrentamento ao “pacto mafioso” que domina o Congresso Nacional, a revogação das leis que favorecem o crime organizado e a prisão dos responsáveis pelas mortes nos protestos de rua de 2022 e 2023 contra o golpe de Dina Boluarte. No campo econômico, pretende fazer uma reforma tributária justa, investir na industrialização das matérias primas no próprio país e implantar uma política de crédito para trabalhadores informais, agricultores e pequenos empreendedores.