Por que se ampliam casos de docentes da rede básica desistindo da profissão? O neoliberalismo e o tal “apagão dos professores”
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Por que se ampliam casos de docentes da rede básica desistindo da profissão? O neoliberalismo e o tal “apagão dos professores”

O neoliberalismo não só atravessa a estrutura administrativa estatal, desvalorizando o servidor público, como também exibe seus tentáculos em políticas perversas meritocráticas

Felipe Duque 14 abr 2026, 09:10

A UNESCO lançou, no ano de 2025, o “Relatório Global sobre Professores”, onde formula metas até o ano de 2030 acerca da necessidade desses profissionais na rede básica de ensino (no Brasil, a dividimos em Fundamental e Médio). Em sua constatação, seriam necessários 44 milhões de docentes no planeta para suprir essa demanda e, na realidade abordada, o mesmo documento diagnostica que os países periféricos sofrem com a falta de profissionais (em destaque, a África Subsaariana), enquanto os países de centro do capitalismo se veem com obstáculos à manutenção desses trabalhadores.

A cartilha traz alguns dados interessantes quando pontua que o abandono da profissão continua sendo alto entre os homens, enquanto as mulheres (chefes de família) seguem sendo maioria na rede básica em todo o planeta, assim como constata problemas de ordem de saúde mental, contratos temporários, baixos salários e excesso de alunos em sala de aula, situação que culmina numa alta evasão docente nos cinco primeiros anos na profissão. Em contrapartida, a UNESCO, um organismo multilateral do capital, vinculado às orientações da burguesia mundial, apresenta propostas curiosas, como priorizar, nas contratações de professores, aqueles que atuam por “vocação” (retomando um debate anterior já superado – ler “Professora sim, tia não”, de Paulo Freire, 1993), apreço à meritocracia (bonificações por “produtividade” e não por tempo), fetiche nas novas tecnologias (em destaque, a Inteligência Artificial) e terceirização das gestões escolares.

Face às ponderações acima, resumimos tais observações num famoso dito popular que reproduz: “O remédio é pior do que a doença”. Desde as interferências desses organismos multilaterais na educação (em destaque, o famoso relatório Jacques Delors, de 1996), a educação formal, embora tenha se massificado a nível global, tem reduzido sua qualidade desde então, não como origem da primeira afirmação, mas sim diante da preocupação com o modelo de educação a ser executado. A opção do capital por uma formação que acene a uma precarização do mundo do trabalho resultou no esvaziamento de currículos escolares e no apagamento de disciplinas (no Brasil, a Reforma do Ensino Médio e a Base Nacional Curricular Comum de Temer foram as mais evidentes), além de tornar a educação refém da lógica meritocrática e da privatização do público (vide a pressão dos exames externos e, nos governos bolsonaristas do Brasil, a adoção de escolas cívico-militares, ou, ainda, Tarcísio em São Paulo e Zema em Minas Gerais, entregando a gerência das unidades ao setor privado; no exterior, temos os famosos vouchers).

O abandono dos professores, dissertado pelo estudo da UNESCO, também atravessa o Brasil. Segundo o Censo da Educação Superior, em 2022, 58% dos alunos de licenciatura desistiram do curso antes de se formar. O SEMESP indica que, até 2040, faltarão 235 mil docentes no Brasil, onde, no cenário atual, 8 a cada 10 professores já pensaram em se exonerar da profissão e 67,6% não veem qualquer esperança de melhora. O cenário é calamitoso, e o diagnóstico inicial já foi dado pela própria UNESCO (baixos salários, saúde mental, salas cheias, desvalorização, contratos temporários etc.). Porém, a UNESCO diagnosticou a febre, mas não o vírus que permitiu esse conglomerado de sintomas e, acima, demos uma breve introdução: trata-se das políticas neoliberais fomentadas por esses organismos multilaterais internacionais.

O neoliberalismo não só atravessa a estrutura administrativa estatal, desvalorizando de imediato o servidor público de carreira, enquanto permite nomeações sem critérios para “politicagem” (o caso do CEPERJ, no Rio de Janeiro, é um dos mais escandalosos da história), como também exibe seus tentáculos em políticas perversas meritocráticas, que são guiadas pelos índices do IDEB. Daí a adesão às famosas bonificações segregadoras (não só da categoria, mas também das unidades escolares, que, consequentemente, reproduzem uma desigualdade espacial entre áreas urbanas e rurais – afinal, os índices apontam para um aumento expressivo de fechamento das escolas do campo, consideradas inúteis para essas estatísticas de IDEB e afins). Logicamente, não podemos esquecer a farra de terceirização das administrações escolares (Tarcísio, em São Paulo, é o caso mais evidente e simbólico), que se alastraram pelo Brasil.

Esse modelo neoliberal, infelizmente, tem eco junto ao governo federal e na pactuada e abjeta escolha do Ministro da Educação, Camilo Santana (que deixou o governo no final de março). Uma gestão igual ou pior do que a do privatista Paulo Renato no governo Fernando Henrique Cardoso (responsável pela reestruturação do SAEB). Medidas esdrúxulas como o Bolsa Mais Professores (incentivando a meritocracia), Pé-de-Meia Licenciaturas (pouco efetivo), Prova Nacional Docente (onde mais de 90% dos municípios que a utilizaram foi para contratos), dentre outras, além do acovardamento para centralizar pautas como o Piso Nacional do Magistério nos vencimentos e a agilidade no Piso Nacional dos Funcionários de Escola, pautaram sua gestão. O ministro ainda foi obrigado a ouvir “Fora Lehman” de centenas de educadores na Conferência Nacional de Educação em 2024.

Todos esses elementos nos dão o horizonte do que chamam de “apagão de professores”, que nada mais é do que profissionais desgastados por políticas falidas do neoliberalismo. O debate do Novo PNE (2026-2036), que segue para a sanção de Lula, traz 19 objetivos e 73 metas para a próxima década da educação. Logicamente, como todo movimento construído por diversas forças políticas e setores, traz contradições em alguns itens. De positivo, temos o apontamento de um Sistema Nacional de Educação, fundamental para a harmonia das verbas educacionais entre as regiões, um embate com redes que optam por professores contratados e eleições para diretores. Em contrapartida, prossegue na lógica meritocrática e neoliberal das metas, sem enfrentar o verdadeiro vilão dos docentes: o fim da autonomia pedagógica promovida pela BNCC, a valorização e execução plena do piso do magistério e uma demarcação maior do monitoramento dos espaços democráticos, como Conselhos e Fóruns da Educação, além das verbas educacionais, um “fundo sem poço” para a politicagem retrógrada brasileira.

Por fim, o “apagão dos professores” é um niilismo desesperador retratado por três décadas perdidas que o capital demandou diante de sua suposta preocupação com a educação no mundo. E, como toda a chave para o combate dessas ações, está na organização coletiva, elementos que estiveram presentes na ocupação da Seduc do Pará, na greve do Sepe, no Rio de Janeiro, em 2023, dentre diversas outras ações. É preciso ir além do rótulo de educador e assumir a identidade daqueles que transformam o mundo, seja nas salas de aula, mas também nas ruas.


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