Levantar a voz em defesa de Cuba: algumas propostas
Cabe à esquerda agir agora em defesa de Cuba. A solidariedade dos partidos é importante, mas precisamos que os governos atuem para resultados efetivos
Foto: Mural em defesa da Revolução Cubana. (RM/Reprodução)
O criminoso cerco à Cuba, reflexo de uma política agressiva que multiplicou os efeitos do histórico bloqueio imperialista à ilha, ganhou novos e dramáticos contornos na última semana.
Trump aumentou a pressão , sempre ladeado por Marco Rubio, que tem verdadeira obsessão para derrubar o regime de Cuba. Dessa vez, o presidente dos Estados Unidos foi além da declaração de “tomar o controle de Cuba” e indiciou Raul Castro, últimos líder vivo da geração que fez a revolução. A acusação seria ridícula não fosse perversa: resgatou-se um episódio ocorrido há 30 anos, quando em 1996 foram abatidos aviões de exilados cubanos. Naquela ocasião, houve uma invasão do espaço aéreo cubano por uma organização terrorista de direita, “Hermanos al Rescate”, que terminou com a morte de 4 envolvidos, sendo 3 norte-americanos. Trump retomou esse episódio para acusar Raul de conspiração e homicídio.
A escalada política anda junto com medidas de cunho econômico e militar. Diante da escassez da alimentos e da crise energética, quando cidades inteiras ficam sem luz e a economia está avariada pela multiplicação dos efeitos do bloqueio e a ruptura dos contratos com a Venezuela, os Estados Unidos condicionam 100 milhões de dólares em suposta ajuda humanitária para seus próprios fins, ou seja, para interferir na soberania nacional, isolar e atacar o regime.
No âmbito militar, vemos o posicionamento no Mar do Caribe do porta-aviões USS Nimitz, após manobras na América do Sul na operação Southern Seas 2026. O porta-aviões nuclear tem tripulação que chega até seis mil homens e capacidade de deslocamento que supera as cem mil toneladas. A localização do porta-aviões e da 4ª Frota são sinais do agravamento da ofensiva, deixando a hipótese militar “à vista”.
Se poderia pensar na lógica de Trump, após ter sequestrado Maduro e Cilia, enfrentou uma surpreendente resistência na agressão ao Irã. Tanto no rechaço popular da opinião pública quanto na resiliência militar que o regime do Irã ofereceu, Trump se viu na defensiva. Uma saída para o seu enfraquecimento após a campanha do Irã – que ainda não terminou e derivou num impasse estratégico – seria uma ofensiva sobre Cuba. Assim contemplaria parte da base conservadora, inclusive os setores chamados gusanos de opositores cubanos de Miami, exibindo um “troféu” por ter abatido um dos símbolos da esquerda no século XX. Seria uma “fuga pra frente” do desastre trumpista no Oriente Médio, um retorno do controle da América Latina, em consonância com sua nova doutrina “Donroe” e uma nova ofensiva contra os povos do mundo.
Do ponto de vista da esquerda e de diversas gerações que, nos últimos sessenta anos, foram solidárias ao maior processo revolucionário que viveu o ocidente, seria uma derrota importante. Por mais que tenhamos diferenças com a direção do regime cubano, o alcance do símbolo do que foi conquistado em 1959 é um denominador comum para toda esquerda mundial. Durante muitos anos, mesmo os setores mais críticos do marxismo revolucionário projetavam seu modelo de sociedade através da fórmula “Cuba + democracia”. Os milhares de médicos que Cuba formou e espalhou pelas periferias e aldeias do mundo, a noção de um esporte coletivo e civilizatório, os emblemas de Che Guevara, os livros de Padura, as palestras de Celia Hart, entre tantos outros exemplos, são patrimônios indeléveis do tempo presente.
A decadência econômica e as dificuldades atuais de Cuba não podem ser superadas com qualquer orientação vinda de seu maior algoz, o imperialismo que Guevara, Cienfuegos e os irmãos Castro desafiaram desde Sierra Maestra.
Ao contrário, é um dever político e um imperativo moral levantarmos nossa voz contra a agressão e asfixia que Trump e a extrema direita querem impor a Cuba. A neutralidade é um favor aos inimigos. A omissão é tomar o lado do mais forte.
Por isso, cabe à esquerda debater e agir aqui e agora. Como no exemplo do MST brasileiro, que está se movendo e nunca deixou Cuba sozinha. A solidariedade dos partidos de esquerda, como o PSOL, é importante, mas precisamos ir por mais. São os governos que podem e devem tomar a frente, para termos resultados efetivos, sem prejuízo de ampliar a mobilização dos movimentos sociais do mundo. Para isso, temos diversas tarefas:
- Ampliar a campanha internacional, de forma plural e unitária, apoiando o chamado dos milhares de comitês de apoio à Cuba no mundo.
- Lula deve convocar o grupo de países aliados, os mesmo que reuniu-se em Barcelona, para construir uma barreira institucional nos organismos multilaterais contra qualquer intento de invasão. Deve fazer valer a ideia de “Amigos de Cuba”, com países como Colômbia, México, Uruguai, Espanha e outros ditos progressistas.
- O Brasil pode e deve convocar uma reunião dos BRICS para instar a uma ajuda econômica de urgência para Cuba, com renegociação de créditos e um plano emergencial de soberania alimentar e energética.
- A Petrobrás deveria dispor de uma frota de barcos com petróleo e insumos para apoiar a ilha.
- É preciso ampliar as campanhas dos movimentos sociais, entidades, ONG, inclusive com convênios e isenções para o envio de remédios, painéis solares e outros produtos de primeira necessidade.
- Nos Estados Unidos, a esquerda que cresce referenciada no DSA deve aproveitar a energia anti-Trump para organizar reuniões e espaços de solidariedade à Cuba, com fins a derrotar qualquer intento golpista, no próprio coração do império.
São ideias singelas, mas com o sentido de contribuir e colaborar para o debate – e sobretudo para a ação unitária em defesa de Cuba.