“Uma alternativa ao capitalismo hoje exige adotar o ecossocialismo como eixo do nosso programa”
Uma entrevista com Mariana Riscali, Diretora Executiva da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco e da Executiva Nacional do PSOL, sobre as recentes ações do movimento ecossocialista internacional
Esquerda em Movimento: Olá Mariana! Nos últimos meses tivemos uma intensa agenda do movimento ecossocialista internacional. O lançamento do Manifesto Ecossocialista na Conferência Antifascista de Porto Alegre, a Conferência de Santa Marta na Colômbia e o Encontro Ecossocialista na Bélgica foram eventos de destaque nessa pauta e tiveram certa conexão entre si. Como você avalia o conjunto desse processo?
Mariana Riscali: Em primeiro lugar, todas essas atividades foram muito importantes pelo momento em que estamos vivendo, de avanço da extrema direita em escala mundial, e que exige também uma resposta articulada e internacionalista. Todos esses eventos reuniram ativistas e militantes do mundo todo para debater saídas para a crise capitalista e a construção de alternativas.
E isso está diretamente ligado à pauta ecossocialista, pois está cada vez mais evidente que a questão ambiental não pode mais ser tratada como algo lateral ou secundário. A destruição ambiental e a crise climática são expressões da barbárie capitalista que, se não forem enfrentadas com urgência, ameaçam a própria existência no planeta terra. Discutir e construir uma alternativa ao capitalismo hoje exige debater a pauta ambiental com centralidade e adotar o ecossocialismo como eixo do nosso programa.

Tivemos uma ampla cobertura sobre a Conferência Antifascista, mas acompanhamos menos o evento de Santa Marta na Colômbia. Qual foi a sua percepção sobre a iniciativa?
Inicio explicando o que aconteceu em Santa Marta. A agenda principal nasceu de uma convocação do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, motivada pelo imobilismo das negociações globais e o fracasso da COP30 e das COPs anteriores frente à necessidade de banir os combustíveis fósseis da matriz energética mundial. Petro chamou uma conferência alternativa, reunindo governos e nações dispostas a iniciar discussões sobre um processo de transição energética. Essa cúpula oficial na prática também resultou em poucos avanços concretos, mas assim como em Belém, Santa Marta também teve uma série de agendas paralelas construídas pelos movimentos sociais.
Nós participamos da I Conferência por Territórios Livres de Combustíveis Fósseis, um espaço muito rico impulsionado pela Assembléia Mundial pela Amazônia e dezenas de movimentos, e que promoveu a troca de experiências e de táticas de resistência entre delegações de vários países. Esse encontro permitiu um acúmulo político importante sobre o que está ocorrendo nos territórios em termos de enfrentamento direto ao extrativismo, à exploração de petróleo e à destruição ambiental. Como exemplo aqui no Brasil onde o governo busca avançar com a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, e no Equador onde também há um processo similar de ampliação da exploração de petróleo na região Amazônica com intensa resistência indígena. Ao final destas iniciativas, o processo de Santa Marta se encerrou com uma grande marcha, que demonstrou a unidade e a disposição de luta dos movimentos socioambientais.
Aproveitando: nesse fim de semana temos as eleições presidenciais colombianas e, ao que parece, o candidato da esquerda é favorito. Como você visitou o país recentemente, o que poderia nos dizer sobre esse processo eleitoral?
A dinâmica eleitoral na Colômbia reflete o cenário de intensa polarização que assistimos hoje em escala global. O candidato governista apoiado por Gustavo Petro, o senador Iván Cepeda, lidera as pesquisas de intenção de voto, sustentado por uma unidade construída pelas forças de esquerda no país. Ainda assim, a oposição de direita e extrema-direita, com forças consideráveis associadas ao campo histórico do uribismo e representada por Paloma Valência e Gustavo Espriella, que está em segundo lugar nas pesquisas, pode chegar ao segundo turno e ali unificar suas forças para enfrentar Cepeda.
A nossa leitura é de que o governo de Gustavo Petro, que se insere no chamado campo progressista latino-americano, foi um governo que também apresentou limitações e insuficiências. Ainda assim, traçando um paralelo com a realidade política do Brasil, compreendemos que a unidade para construir a vitória de Cepeda na Colômbia, assim como a unidade para eleger Lula no Brasil, são caminhos necessários para conter a ofensiva da extrema-direita na América Latina e no mundo, combinados com a necessidade de fortalecer pólos de esquerda que se apresentem de fato como alternativas anticapitalistas. Na Colômbia estamos com uma delegação do PSOL, da FLCMF e do MES, incluindo nossa Vereadora Luana Alves e a Ana Cristina Carvalhaes, que estão acompanhando de perto a votação e em breve saberemos se o processo se encerra de imediato ou se seguiremos a disputa no segundo turno.

E sobre o recente Encontro Ecossocialista da Bélgica? Como foi construído? Quais as perspectivas?
O Encontro Ecossocialista Internacional realizado na Bélgica foi a sétima edição desse esforço de articulação. É um espaço que faz parte de uma rede de encontros ecossocialistas que vem acumulando forças nos últimos anos. Nós, inclusive, fizemos parte dessa construção no II Encontro Ecossocialista Latino-Americano e Caribenho, realizado em Belém em novembro do ano passado. A edição da Bélgica reuniu cerca de 250 ativistas e intelectuais de mais de 20 países e foi construída por uma série de movimentos que também estiveram presentes na Conferência Antifascista de Porto Alegre e nas agendas de Santa Marta, como o CADTM e a Attac, além de diversas organizações políticas que compõem a Quarta Internacional, que cumpre um papel histórico na formulação ecossocialista e na sustentação desses encontros desde a sua origem. Essa presença permitiu qualificar muito a discussão programática, tendo o Manifesto por uma Revolução Ecossocialista como um dos principais subsídios teóricos e políticos para os debates.
Na mesa de abertura do Encontro, levei um pouco do que foi a experiência do Brasil no II Encontro Ecossocialista Latinoamericano e Caribenho e no processo da COP30 e também das nossas lutas, desde a ocupação da Blue Zone, o enfrentamento ao PL da Devastação e à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a importância da Conferência Antifascista de Porto Alegre na conexão da luta antifascista com o ecossocialismo, e pude falar também das recentes ocupações protagonizadas pelo movimento indígena, da Secretaria da Educação do Pará e principalmente da sede da Cargill em Santarém, contra a privatização dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins e que teve como vitória a revogação do decreto.
Na delegação brasileira, que contou com vários camaradas, tivemos a presença da Claudelice Santos, que é uma referência na luta ambiental e pelos direitos humanos e que esteve à frente da luta em defesa do Rio Tocantins na região de Marabá, no Pará. Claudelice apresentou suas experiências na oficina sobre defensoras de territórios sob perseguição na América Latina.
O 7 Encontro Ecossocialista foi esse espaço de sínteses que conectou, entre outras, as lutas anti extrativistas em especial na América Latina, as lutas sindicais e a construção de uma transição energética sob a perspectiva da classe trabalhadora, alternativas agroecológicas, ecofeministas e antiimperialistas, esta última inclusive reforçada pela presença de companheiros da Ucrânia que levaram seus relatos de resistência à ocupação Russa na região. A próxima agenda dessa rede é o III Encontro Ecossocialista Latinoamericano e Caribenho, que vai acontecer na Colômbia em 2027.

Na última quarta-feira (27/05), a Fundação Lauro Campos e Marielle Franco e a Fundação Rede Sustentabilidade realizaram um debate sobre o programa comum ecossocialista para as eleições, com a participação de intelectuais e ativistas ambientais. Quais serão as principais diretrizes da Federação PSOL/Rede para as eleições nessa área?
O debate do dia 27 de maio é parte de uma articulação voltada para a construção de uma plataforma ecossocialista comum para as eleições de 2026. Trata-se da primeira parceria programática entre a Fundação Lauro Campos e Marielle Franco e a Fundação Rede Sustentabilidade e expressa as convergências que temos em torno dessa pauta. A primeira atividade foi sobre Reforma Agrária Popular, Demarcação e Restauração dos Territórios, e contou com o Professor Luiz Marques da Unicamp que é referência na área, com a liderança indígena do Pará Auricelia Arapiun, do jornalista João Peres do Portal o Joio e o Trigo e da advogada e ativista Alice Gabino.
O próximo debate será no dia 10/06 sobre Mineração e a Luta pela Transição Energética, e ainda teremos mais três encontros: um sobre Cidades e Ecologia Urbana, uma discussão sobre marcos gerais e definições estratégicas na construção de uma alternativa ecossocialista, passando por questões como decrescimento e direitos da natureza, e um encontro final de síntese onde buscaremos apresentar propostas que sirvam de subsídio às nossas candidaturas na campanha de 2026. Fica então o convite para que toda a militância se some nas próximas atividades e contribua na elaboração da nossa Plataforma por uma Transição Ecossocialista.