A alma do futebol pertence à classe trabalhadora
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A alma do futebol pertence à classe trabalhadora

O historiador britânico do futebol David Goldblatt fala sobre como, apesar de todos os esforços dos interesses financeiros por trás do esporte, as elites simplesmente não conseguem expulsar a política do jogo

Bartolomeo Sala 7 jun 2026, 02:11

Foto: Wonker/Flickr

Via Esquerda.net

Poucas coisas foram tão consistentemente políticas quanto o futebol. Isso vale para as origens populares do esporte, quando partidas improvisadas que envolviam aldeias inteiras serviam de pretexto para derrubar cercas que ameaçavam dividir terras agrícolas de uso comum. Também vale para meados do século XIX, quando — expurgado de seus elementos plebeus e codificado segundo um conjunto claro de regras universais — o futebol se transformou em uma ferramenta para recrutar futuros membros da classe dominante britânica para o projeto imperial e iniciá-los no culto esportivo amador do cavalheiro vitoriano.

No entanto, o futebol é ainda mais político hoje. Não apenas porque o esporte mais popular do planeta é uma indústria bilionária e um campo de atuação para todo tipo de interesses econômicos e políticos — dos fundos soberanos dos Estados do Golfo às empresas norte-americanas de capital de risco —, mas também porque é, de longe, o espetáculo mais popular do mundo. Isso transformou o jogo em um catalisador de lutas políticas de toda natureza.

Com a próxima Copa do Mundo a poucos meses de distância, Bartolomeo Sala sentou-se com o historiador britânico David Goldblatt para a Jacobin e conversou sobre como, apesar de todos os esforços dos interesses financeiros por trás do esporte, as elites simplesmente não conseguem expulsar a política do jogo.

É justo dizer que você é o escritor sobre futebol mais proeminente do mundo, mas sua formação é, na verdade, em sociologia. Seu primeiro livro, A Bola é Redonda (2006), uma história global do futebol com mais de 900 páginas, começa com uma citação de Émile Durkheim. O que o levou a se interessar inicialmente pelo futebol?

Boa pergunta. Houve vários momentos, mas, se tivesse de mencionar um, seria quando, em 1990, fui convidado por meu grande amigo Dan Levy para assistir à partida da quarta fase da Copa da Inglaterra entre Charlton e Arsenal.

Eu não ia a um jogo de futebol desde a infância. Na época, porém, estava no meio de um doutorado em sociologia em Cambridge sobre teoria social contemporânea e política ambiental, então estava em “modo sociólogo”. Lembro-me de sair da estação de trem e esperar Dan em frente ao The Valley, estádio do Charlton, enquanto a multidão começava a se reunir. De repente, todos os neurônios sociológicos do meu cérebro explodiram simultaneamente em uma profusão de perguntas intelectuais e curiosidade sobre regras, tradições, expressões, símbolos e comportamentos que se desenrolavam diante de mim em tempo real.

Uma das coisas fantásticas foi estar no setor dos torcedores visitantes do Arsenal e testemunhar, pela primeira vez, que, após a terceira decisão absurda do árbitro, a torcida inteira começasse instantaneamente a cantar em uníssono: “You don’t know what you’re doing” (“Você não sabe o que está fazendo”). Ou quando Perry Groves, um reserva cultuado do clube, estava aquecendo, e eles cantavam “We all live in a Perry Groves world” ao som de Yellow Submarine. Foi simplesmente hilário.

Acho que eu já tinha lido e refletido bastante sobre subcultura. Stuart Hall e o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham são a base da minha vida intelectual. E, de repente, pensei: é isso.

Na introdução de um seminário que está ministrando por ocasião da próxima Copa do Mundo, você cita o autor uruguaio Eduardo Galeano quando ele diz: “A história oficial ignora o futebol”. E, no entanto, se há algo que seus livros mostram é que os dois estão irremediavelmente entrelaçados. Em A Bola é Redonda, por exemplo, você escreve: “Nenhuma história do mundo moderno está completa sem um relato sobre o futebol”. Pode explicar o que quer dizer com isso? E, em segundo lugar, como é que, em um mundo como o nosso, onde tudo gira em torno do dinheiro, o futebol continua sendo uma poderosa ferramenta política?

São duas perguntas muito importantes, então vamos por partes.

Dizer que nenhuma história do mundo moderno está completa sem o futebol, especialmente na perspectiva de 2026, parece uma verdade incontestável — na verdade, uma obviedade. O maior encontro coletivo da humanidade atualmente é a Copa do Mundo masculina. É o maior espetáculo do planeta.

Quando Marrocos venceu seus jogos na Copa do Catar de 2022, não houve apenas comemorações exuberantes no campo e nos estádios, mas em todas as cidades do mundo árabe, de Casablanca a Bagdá, e em toda a diáspora marroquina na Bélgica, Holanda e França. Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas. E não celebravam apenas Marrocos, mas um triunfo pan-africano e pan-árabe, tendo a bandeira palestina e palavras de ordem pró-Palestina como elementos centrais.

Então, por que isso não faria parte da essência da vida cotidiana que tentamos compreender?

Além disso, o futebol sempre foi popular e simbolicamente importante desde o fim do século XIX. Adquiriu significados e objetivos políticos muito cedo, desde sua criação como um culto atlético amador do cavalheiro vitoriano, inserido em um programa educacional voltado para formar as elites do Império Britânico. Se isso não é um projeto político, não sei o que seria.

Na década de 1930 vieram o comunismo, o fascismo e o ultranacionalismo. Todos encontraram seu espaço no futebol, seja com Mussolini na Copa de 1934, seja com o Uruguai celebrando cem anos de democracia na Copa de 1930. Existe toda uma história paralela aí, mesmo que não seja um reflexo exato da história política.

Quanto à segunda pergunta, quando falamos de futebol hoje normalmente nos referimos ao espetáculo profissional masculino de elite na Europa Ocidental. Mas é importante lembrar que o futebol é muito mais do que isso. É um jogo praticado por mais pessoas do que nunca. O número de mulheres e de jovens jogando futebol está explodindo. O espetáculo profissional ainda não está totalmente desconectado desses mundos. Afinal, são eles que criam a cultura e alimentam o interesse pelo espetáculo.

Também é importante lembrar que, embora haja muito dinheiro circulando, embora os grandes jogadores, empresários e dirigentes ganhem fortunas, os clubes de futebol costumam perder dinheiro. Há uma tendência a pensar que o futebol se tornou um grande negócio, mas as regras da economia neoclássica não se aplicam aqui.

A Premier League inglesa é a liga de futebol mais bem-sucedida e popular da história. Seu faturamento anual é quase o dobro do da La Liga. Ainda assim, possui uma dívida de 11 bilhões de dólares sobre uma receita anual de 7 bilhões. Coletivamente, teve lucro em apenas quatro temporadas de um total de trinta e quatro.

Portanto, a moeda de troca não é o lucro, mas algo mais complexo. Para proprietários como Vangelis Marinakis, do Nottingham Forest, ou para investidores tailandeses, tudo isso representa capital político em seus países de origem. Depois existem projetos estatais explícitos, como Newcastle United e Manchester City. O Manchester City, clube dominante da atualidade, é um ativo central do Estado dos Emirados Árabes Unidos. Todas essas pessoas reconhecem que o futebol é a ferramenta mais poderosa de comunicação popular global.

Parece improvável que o mundo vá torcer pelos Estados Unidos durante este torneio.

O curioso da seleção masculina dos Estados Unidos é que ela é tão ruim que fica difícil odiá-la. Além disso, grande parte do eleitorado do movimento MAGA realmente não gosta de futebol.

Em Copas anteriores, comentaristas conservadores como Glenn Beck e Ann Coulter chegaram a afirmar que o futebol era um esporte de camponeses marxistas do Terceiro Mundo, homens afeminados e mulheres. Segundo eles, ninguém com bisavôs nascidos nos Estados Unidos gosta desse jogo.

Além disso, recentemente o movimento MAGA e Donald Trump criticaram duramente a seleção feminina por ser “woke” demais.

Por isso, é difícil imaginar que façam como Mussolini e transformem a equipe nacional em símbolo da masculinidade americana. A seleção é extremamente diversa e seu público é formado por mulheres, latinos e profissionais urbanos cosmopolitas. É até possível que a equipe masculina e seus torcedores apareçam nos estádios como opositores de Trump.

Uma das tensões centrais que você descreve em seus livros é a contradição entre o futebol como ritual coletivo – a última “religião secular”, como foi chamado por Eric Hobsbawm, Pier Paolo Pasolini e Jean-Paul Sartre – e a realidade de que ele é também uma expressão das formas mais desenfreadas e corruptas do capitalismo.

Diante de tanta mercantilização e captura pelas elites, ainda faz sentido pensar o futebol como teatro público? Ou seria melhor entendê-lo como uma forma de escapismo?

Eu diria: por que não as duas coisas?

Na maioria das formas de arte e cultura popular, isso é normal. Não acho que o futebol seja uma religião, mas é definitivamente um ritual coletivo e uma espécie de novela. Só não chamamos de novela porque, até recentemente, era consumido principalmente por homens.

Também é uma forma de teatro público e um espaço de êxtase coletivo, como certos festivais de música. É tudo isso ao mesmo tempo.

Quando observamos a captura da Premier League pelas elites, a questão passa a ser: ainda resta algo dos elementos comunitários, progressistas e lúdicos do futebol?

Acredito que sim. Existe uma batalha acontecendo nos estádios ingleses entre aqueles que desejam comercializar e controlar o espetáculo até o último detalhe, drenando dele toda humanidade coletiva, humor, incerteza ou risco, e aqueles que insistem, por sua simples presença, que ali existe algo mais do que uma transação comercial.

Isso é algo muito poderoso no capitalismo avançado. O futebol é apenas um jogo. Mas justamente aí reside sua importância: ele cria um espaço para valores e formas de vida que resistem às lógicas do dinheiro e do poder.

Também acho que a preservação de uma cultura operária perdida é fundamental. Afinal, quem construiu a Grã-Bretanha? Foram os trabalhadores que, desde a virada neoliberal, foram excluídos política e historicamente.

Uma das coisas que mais amo no futebol inglês é ouvir o noticiário esportivo da BBC e escutar nomes como Preston, Macclesfield, Chesterfield, Bolton e Hartlepool. Já quase não ouvimos falar desses lugares. O futebol mantém vivas culturas de torcedores, comportamentos e atmosferas extraordinárias inspiradas na solidariedade, no humor e nos arquétipos daquele mundo perdido.

Por fim, para quem duvida que o futebol seja um espaço vital para a política progressista, eu daria dois exemplos.

Primeiro, Marcus Rashford, atacante do Manchester United, que obrigou o governo britânico a mudar duas vezes sua política de assistência alimentar.

Segundo, Gary Lineker, cuja suspensão após comentar a política migratória levou a uma greve histórica no programa Match of the Day. No fim, ele venceu a disputa.

É nesse terreno que a política cotidiana acontece. Gostaríamos, talvez, que ela ocorresse em espaços menos simbólicos. Mas este é o mundo em que vivemos.

Que mudanças você gostaria de ver no futebol em um mundo ideal?

A primeira coisa a dizer é que existem razões para otimismo. A maior transformação dos próximos trinta anos será o crescimento do futebol feminino. Já vimos mudanças enormes e elas vão continuar.

A segunda questão é a governança global. FIFA, UEFA e outras organizações operam em uma espécie de zona cinzenta do direito internacional, praticamente sem prestar contas a ninguém além de seus próprios membros. É preciso mudar isso.

A representação de jogadores, torcedores e mulheres, hoje ausentes ou marginalizadas nessas estruturas, deve ser fortalecida.

Quanto aos modelos de propriedade, a resposta é simples: os alemães resolveram essa questão. A regra 50+1 funciona. Ainda é possível ganhar Copas do Mundo, conquistar a Liga dos Campeões e ter estádios lotados.

Nós, da esquerda, às vezes esquecemos – e Trump e a direita populista nos lembram disso – que, quando existe vontade política e apoio popular suficiente, é possível fazer coisas consideradas impossíveis. Uma delas seria simplesmente legislar para que esse modelo de propriedade seja obrigatório.

Por fim, os torcedores mostraram que conseguem se organizar para além das rivalidades. Na Alemanha e na Inglaterra existem associações nacionais de torcedores que atuam como grupos de pressão política. Precisamos de mais organizações desse tipo.

E sabem quem costuma estar na linha de frente delas? Sindicalistas que também são torcedores de futebol.

A última lição é simples: é preciso se organizar.


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