Chilenos vão às ruas contra retrocessos nos Direitos Humanos
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Chilenos vão às ruas contra retrocessos nos Direitos Humanos

Manifestação em Santiago denunciou cortes em políticas de memória e busca por desaparecidos da ditadura, além da possibilidade de indulto a torturadores do regime de Pinochet pelo governo Kast

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Milhares de pessoas ocuparam as ruas do centro de Santiago no último sábado (6) para protestar contra as políticas do governo do presidente José Antonio Kast que, segundo organizações sociais e de direitos humanos, representam um grave retrocesso nas conquistas obtidas após o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). A manifestação denunciou tanto os cortes orçamentários em programas voltados à busca de desaparecidos políticos quanto a possibilidade de concessão de indultos a condenados por crimes contra a humanidade.

Convocada pelo Coordenador Nacional de Direitos Humanos e Organizações Sociais, a marcha ocorreu sob o lema “Contra a Impunidade” e reuniu familiares de vítimas da ditadura, movimentos sociais, parlamentares e ativistas. Os manifestantes percorreram a Alameda, principal avenida da capital chilena, da Plaza Baquedano até o Palácio de La Moneda, exigindo a manutenção das políticas de memória, verdade e justiça. Entre as palavras de ordem mais repetidas estava “Chega de impunidade”, em referência às iniciativas do governo conservador que colocam em risco a continuidade do Plano Nacional de Busca pelos Desaparecidos.

Uma das principais vozes do ato foi a senadora Fabiola Campillai, vítima da repressão policial durante a revolta social de 2019. Ela perdeu a visão e o olfato após ser atingida por disparos da polícia. Durante a manifestação, Campillai criticou duramente a possibilidade de libertação de agentes condenados por violações de direitos humanos.

“Esperamos que o presidente ouça [os manifestantes] e também as vítimas de todos esses assassinos que hoje querem ser libertados”, afirmou. A parlamentar acrescentou que “a paz social não se conquista concedendo anistia àqueles que assassinaram, torturaram e fizeram desaparecer nosso povo”.

A mobilização ganhou força após declarações do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Fernando Rabat, que não descartou conceder indultos a condenados por crimes cometidos durante a ditadura civil-militar. Rabat, que integrou no passado a equipe de defesa de Augusto Pinochet, revelou que o governo recebeu mais de 40 pedidos de indulto, incluindo solicitações apresentadas por responsáveis por graves violações de direitos humanos.

As declarações reforçaram temores já existentes entre familiares de vítimas e organizações sociais, especialmente após Kast manifestar abertura para beneficiar ex-agentes do regime, entre eles Miguel Krassnoff, um dos mais conhecidos repressores da ditadura e condenado a mais de mil anos de prisão por sequestros, torturas e assassinatos.

Além da questão dos indultos, os manifestantes denunciaram o corte de quase um milhão de dólares no orçamento da Unidade de Programas de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, responsável por investigações, processos judiciais e pela busca de pessoas desaparecidas durante o regime militar.

“Não podemos ficar em casa. Precisamos reiterar ao Poder Executivo que estamos presentes nas ruas e no Congresso”, declarou Campillai.

A presidente da Associação de Familiares de Executados Políticos, Alicia Lira, lembrou que, mais de cinco décadas após o golpe que derrubou o governo democrático de Salvador Allende, o Chile ainda convive com feridas abertas. Segundo ela, 1.092 pessoas seguem desaparecidas e outras 377 foram assassinadas sem que seus restos mortais tenham sido localizados.

“Continuaremos lutando e não permitiremos que o direito das pessoas de encontrar seus entes queridos e de viver seu luto seja negado”, afirmou.

Para os movimentos de direitos humanos, as medidas adotadas pelo governo Kast sinalizam uma tentativa de enfraquecer as políticas de memória e relativizar a gravidade dos crimes cometidos durante a ditadura. A possibilidade de indultar torturadores e reduzir recursos destinados à busca dos desaparecidos é vista como uma afronta às vítimas e aos familiares que, há décadas, lutam por verdade, justiça e reparação.

Durante a marcha, integrantes do Observatório de Direitos Humanos Anexa Chile acompanharam o percurso para monitorar possíveis abusos das forças de segurança. A preocupação se deve à recente repressão contra uma manifestação estudantil realizada em protesto contra cortes orçamentários, que terminou com feridos e prisões.

*Com informações da teleSUR


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