Trump contra o México
A ofensiva de Trump contra o governo de Claudia Sheinbaum combina pressão econômica, acusações de narcotráfico e intervenção política
No domingo de 31 maio realizaram-se concentrações na maioria das princiais praças das grandes cidades do México. Segundo os levantamentos disponíveis, cerca de 800 mil pessoas se mobilziaram para rechaçar a ingerência do imperialismo estadunidense e da extrema direita internacional nos assuntos internos do país.
A magnitude da jornada expressa o clima político aberto por uma escalada de pressões contra o governo progresisstas de Claudia Sheinbaum Pardo. Nas últimas semanas, o governo semifascista de Donald Trump, a direita internacional e seus aliados mexicanos intensificaram uma campanha de acosso político que combina acusações de narcotráfico, chamados abertos à intervenção estadunidense e operações destinadas a implodir a legitimidade do oficialismo.
O episódio que abriu esta nova sequência foi, na aparência, fortuito. Em 19 de abril, em uma estrada de Chihuahua situada na Serra de Tarahumara, morreram em um acidente rodoviários dois agentes da CIA, Richard Leiter Johston e John Dubley Black. Ambos participavam junto a policiais estaduais de um operativo orientado para desmantelar um laboratório de drogas. A revelação pôs em sérias dificuldades o governo estadual de María Eugenia Campos, a direitistas do Partido Ação Nacional (PAN), que até agora não conseguiu justificar a presença de agentes estrangeiros em uma operação que viola as leis mexicanas e contradiz a decisão presidencial de impedir a atuação de oficiais ou militares estrangeiros em território nacional. O caso sugete a existência de acordos secretos entre setores da direita mexicana e o governo de Donald Trump, orientados a habilitar o envio forças estadunidenses no México sob o pretexto de combater o narcotráfico. A partir deste incidente se abriu uma investigação judicial contra a governadora.
Poucos dias depois, em 29 de abril, um tribunal do Distrito Sul de Nova York tornou público um documento no qual acusaca o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, e outros nove funcionários mexicanos de “narcotráfico e crimes relacionados com armas”. O documento sustenta a existência de uma presumida rede de administração estadual destinada a beneficiar integrantes dos “Los Chapitos” e exige a prisão dos acusos com fins de extradição. De todo modo, o governador e outros funcionários pediram licença para não interferir na investigação, enquanto as autoridades mexicanas aguardam a apresentação de elementos comprovatórios que justifiquem um eventual pedido de extradição.
A ofensiva judicial se inscreve na mesma matriz discursiva da direita mexicana, que acusa Sheinbaum de encabeçar um “narcogoverno” e exige a interveção dos Estados Unidos no México. Em 8 de maio, Donald Trump retomou esta linha e voltou a afirmar, sem apresentar provas, que o governo mexicano está “controlado por cartéis e por ninguém mais”.
Em paralelo, a presidente da extrema direita da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, chegou no México em 3 de maio para uma viagem institucional e privada que se extendeu até 12 de maio. Seu objetivo de reescrever o relato histórico da conquista espanhola, com uma reivindicação provocadora de Hernán Cortés, despertou um amplo rechaço popular. A viagem terminou envolta de um forte escandâlo político.
Diante da sucessão de acontecimentos, que revela uma operação convergente contra o oficialismo, Sheinbaum endureceu seu discurso e rachaçou de forma categórica qualquer intervenção estrangeira na política nacional. Em 2 de junho declarou que o México atravessa “tempos de definições, de defender a soberani nacional frente aos interesses externos; de defender a pátria frente à campanhas de mentiras e de ódio promovidas a partir do exterior”.
Nesse contexto, e com o objetivo de impedir que no México se reproduzam cenários de ingerência externa como os que favoreceram avanços recentes da ultradireita na América Latina, aprovou-se uma reforma constitucional que estabelece que a intervenção estrangeira pode ser causa de nulidade dos processos eleitorais. A modificação do artigo 41 define como ingerência estrangeira o financiamento ilícito, a propaganda, a difusão sistemática de desinformação, a manipulação digital e a intervenção de governos ou organismos estrangeiros.
A ofensiva imperialista não vai parar
A ofensiva do governo Trump contra o México também deve ser lida em relação a renegociação do Tratado de Livre Comércio. Washington busca obter uma porção maior das riquezas do país – terras raras, energia, agricultura – sem oferecer nada equivalente em troco. Esse é o objetivo imediato. Mas a aposta de fundo é mais ambiciosa: restaurar o velho regime político, baseado na aliança entre PAN, PRI e os setores oligárquicos mais conservadores e entreguistas; desmantelar os programas sociais; e reabrir o caminho para privatização dos setores estratégicos da economia.
O capitalismo ingressou em uma das fases históricas em que a acumulação de transformações no desenvolvimento das forças produtivas, o comércio e as finanças globais prepara mudanças de escala no sistema de dominação imperialista e na relação de forças entre as classes, tanto no plano nacional quanto internacional.
A guerra comercial desatada por Donald Trump contra boa parte do mundo, em particular contra a China; sua cumplicidade com o genocídio do povo palestino perpetrado pelo regime de Benjamín Netanyahu; a escala militar contra o Irã; o assédio contra Cuba; e a ofensiva contra governos e movimento progressistas da América Latina mostram uma mesma orientação estratégica. Trump tenta recuperar mediante a coerção o que os Estados Unidos perderem no terreno da competição tecnológica, comercial e financeira frente a China e outras potências.
O mundo entrou em uma dinâmica de confrontação que recorda os momentos que antecederam as guerras mundiais: superprodução e competição exarcebada, remilitarização das grandes potências, intervenções e guerras coloniais para reforças posições, auge do fascismo e do militarismo. Estamos diante de uma nova fase destrutiva do capitalismo, na qual os tratados, o direito internacional, os direitos humanos e o respeito à soberania dos países dependentes ficam subordinados ao direito mais forte. Estados Unidos não abandonará de maneira voluntária sua ofensiva para reestabelecer seu domínio sobre os povos da América Latina e Caribe.
É certo que nenhum país pode enfrentar por si só, no terreno militar, a um imperialismo tão poderoso como o estadunidense, muito menos quando compartilha fronteira com ele. Mas essa constatação não conduz a passividade nem justifica uma política de subordinação. Existe outra alternativa: elaborar uma estratégica política internacional capaz de enfrentar a ameaça imperialista e fascista. Essa estratégia requer, ao menos, duas condições.
A primeira é a existência de um governo disposto a defender até as últimas consequências a soberania nacional, apoiadio na mobilização consciente e organizada da classe trabalhadora, as mulheres, a juventude, a diversidade sexual e povos originários. A segunda é a construção de alianças com todos os povos do mundo dispostos a se mobilizarem em ações comuns contra o imperialismo e o fascismo.
Essa perspectiva está longe de ser abstrata ou utópica. A exemplar luta do povo palestino contra a máquina de guerra de Israel e o apoio massivo que despertou em todo o mundo; a resistência do Irã frente a agressão imperialista; a persistência heróica do povo cubano frente o bloqueio; a insurreição massiva do povo estadunidense contra seu próprio presidente mostram que os de baixo somos muitos maiores que a minoria privilegiada que pretende empurrar a humanidade até o abismo.
A participação de Claudia Sheinbaum, em abril de 2026, na IV Cúpula em Defesa da Democracia celebrada em Barcelona, onde se propôs destinar 10% do gasto militar mundial à reflorestação e defendeu o fim da intervenção contra Cuba, confirma que existem condições para construir uma ampla aliança internacional contra o fascismo e o imperialismo.
A frente interna
O governo da Quarta Transformação conserva uma ampla simpatia social, que distintas sondagens localizam entre 70% a 80% da população. A direita e a extrema direita, por sua parte, ainda não se recuperaram da catástrofe eleitoral de 2018. Mas essa vantagem não deveria alimentar nenhuma confiança excessiva. As direitas contam com o respaldo dos grandes meios de comunicação, com algoritmos que amplificam suas mensagens nas redes sociais, com a fidelidade dos setores mais conservadores da sociedade e com o poder econômico da oligarquia. A experiência internacional mostra que, inclusive depois de derrotas severas, podem reconstruir em pouco tempo alternativas eleitorais com aparência antissistema e disputar o poder pela via eleitoral.
A melhor barreira frente ao regresso do pesadelo neoliberal é que o governo progressistas garantam melhoras econômicas e sociais tangíveis, sustentáveis e reconhecíveis pela maioria da população. Neste terreno, a Quarta Transformação ainda não conserva um saldo favorável. Os programas sociais, a recuperação de setores estratégicos como a energia, a água e a saúde, junto com o aumento do salário mínimo, que cresceu 215% entre 2018 e 2025, contribuíram a elevar o nível de vida de amplo setores populares. No mesmo período, a pobreza se reduziu de 41,9% a 29,6%.
No entanto, ainda existem muitos problemas. O salários contratuais estagnaram e, em alguns casos, foram superados pelo salários mínimo. A situação do campo, agravada pela implementação do Tratado de Livre Comércio, segue sem resposta de fundo. Permanecem sem resolução conflitos trabalhistas que se arrastam há quase vinte anos, como do Sindicato Mineiro e o Sindicato Mexicano dos Eletricistas. Também seguem abertas as reivindicações contra a reforma educacional neoliberal, as demandas dos usuários da energia elétrica, a situação de milhares de famílias despojadas dos seus territórios pelo crime organizados e, sobretudo, a necessidade de garantir uma aposentadoria digna aos trabalhadores depois das reformas privatizadoras do sistema previdenciário.
O problema mais grave é a relação do governo com os movimentos sociais independentes e democráticos. Tanto a administração de López Obrados como de Claudia Sheinbaum evitaram um diálogo real com muitas dessas organizações ou o reduziaram a uma simulação. Em troca, se estabeleceram acordas com diversas burocracias sindicais corruptas e mantiveram uma relação fluída com o setor patronal, que têm as portas abertas no Palácio Nacional. Esta situação resulta insustentável e, cedo ou tarde, pode desembocar em conflitos maiores.
Vários desses conflitos poderiam ser resolvidos com custos relativamente baixos e benefícios políticos imediatos para o próprio governo, sempre que existir vontade política. Esse é o caso do Sindicato Mexicano dos Eletricistas ou dos usuários de energia elétrica.
Mais complexo é a paralisação iniciada pela Coordenadora Nacional dos Trabalhadores da Educação em 1 de junho. A CNTE exige a revogação das reformas neoliberais ao sistema de pensões, que deixaram na precariedade milhões de trabalhadores do serviço do Estado, e reivindica o reestabelecimento de um sistema solidário que garante uma aposentadoria equivalente a 100% do último salário. A demanda é justa, para além do que alguns métodos de luta dos setores da organização possam resultar contraproducentes e tensionar desnecessariamente o conflito.
Nesse ponto, convém falar com clareza. Recuperar plenamente um sistema solidário de pensões exige um investimento estatal que, nas condições atuais, o orçamento público não pode assumir de maneira imediata. Mesmo que o governo decidisse avançar nessa direção, seriam necessárias mudanças legislativas que demandam tempo de elaboração e negociação. Uma solução da noite para o dia não parece possível. Mas pode-se alcançar um compromisso do governo federal de apresentar uma iniciativa de reforma constitucional e trabalhista que garanta pensões justas e assegure seu financiamento.
Esse financiamento exige maiores receitas do Estado. E essas receitas só podem vir de uma reforma fiscal progressiva sobre as grandes empresas e as grandes fortunas, junto com uma auditoria da dívida pública que permita deixar de pagar a dívida odiosa derivada dos fraudes cometidos pelos governos neoliberais anteriores.
Uma reforma fiscal desse tipo permitiria financiar pensões justas e, ao mesmo tempo, impulsionar um amplo programa de investimento estatal orientado a garantir direitos sociais básicos. A única saída progressiva para esse impasse consiste em aprofundar o processo de mudança e pôr fim, na raiz, às políticas neoliberais que ainda organizam aspectos decisivos da vida econômica e social do país.