Solidariedade em meio à tragédia
Brasil amplia ajuda humanitária à Venezuela após terremotos que já deixaram cerca de 1,5 mil mortos; desastre aprofunda crise de um país que enfrenta anos de instabilidade política e econômica
Foto: Luisana Solano/Ocha
Os trabalhos de busca e resgate na Venezuela entraram nesta segunda-feira (29) em uma fase decisiva, enquanto equipes nacionais e internacionais seguem procurando sobreviventes sob os escombros deixados pelos dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o país na última quarta-feira (24). Um novo tremor de magnitude 4,6 foi registrado pela manhã, próximo a Caraballeda, no litoral norte, aumentando a tensão entre a população, embora, segundo as autoridades, não tenha provocado novos danos.
O balanço mais recente aponta cerca de 1,5 mil mortos, mais de 3,1 mil feridos, 12,7 mil desabrigados e aproximadamente 50 mil pessoas desaparecidas ou ainda sem localização confirmada, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) e das equipes internacionais que atuam no país. Ao menos 774 edifícios desabaram parcial ou totalmente, entre eles hospitais, prédios residenciais e comerciais. Aproximadamente 6,8 milhões de venezuelanos foram afetados direta ou indiretamente pela tragédia, o equivalente a quase um quarto da população nacional.
Mesmo após o período considerado crítico para localização de sobreviventes, histórias de resgates continuam alimentando a esperança. No domingo, equipes conseguiram retirar com vida 33 pessoas dos escombros, entre elas uma mãe e seu bebê de nove meses, resgatados por bombeiros norte-americanos. Também foram registrados salvamentos conduzidos por equipes da Colômbia, Espanha e outros países que integram a força internacional mobilizada para enfrentar a emergência.
O Brasil está entre os países que responderam rapidamente ao apelo humanitário. Por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram enviados bombeiros especializados em estruturas colapsadas, médicos, cães farejadores, equipamentos de telecomunicações, medicamentos, insumos hospitalares e um hospital de campanha transportados em aeronaves da Força Aérea Brasileira. Uma nova equipe, composta por militares de São Paulo e Minas Gerais, embarcou no domingo (28) para reforçar as operações. Segundo o governo brasileiro, os profissionais do país já participaram do resgate de pelo menos duas pessoas com vida.
Ao anunciar a missão humanitária, Lula manifestou solidariedade ao povo venezuelano e afirmou:
“Reafirmo nossa determinação em apoiar o governo da presidenta encarregada Delcy Rodríguez na recuperação de áreas afetadas desse país irmão, cujo povo tem dado provas de grande resiliência frente às adversidades.”
O presidente também informou ter determinado ao Itamaraty que mobilizasse todos os recursos possíveis para apoiar as operações de socorro.
A presidenta interina Delcy Rodríguez pediu que as buscas continuem apesar da redução das chances de encontrar sobreviventes. Ao anunciar medidas para acolher milhares de famílias que perderam suas casas, afirmou que o governo manterá os esforços para salvar “o maior número possível de pessoas” e garantir atendimento aos desabrigados, enquanto escolas permanecem fechadas e parte delas foi transformada em abrigos temporários.
A tragédia ocorre em um país que já atravessava uma das mais profundas crises de sua história recente. Nos últimos anos, a Venezuela enfrentou hiperinflação, colapso de serviços públicos, deterioração da infraestrutura, sanções econômicas internacionais, intensa polarização política e uma prolongada disputa pelo poder após as eleições presidenciais de 2024.
A queda de Nicolás Maduro – sequestrado e aprisionado pelo governo norte-americano – seguida da instalação de um governo interino liderado por Delcy Rodríguez, não foi suficiente para estabilizar o país, que ainda enfrenta dificuldades institucionais e graves limitações financeiras para responder a desastres de grande magnitude. A destruição causada pelos terremotos amplia significativamente uma crise humanitária que já atingia milhões de venezuelanos antes mesmo do desastre natural.
Trump: “Venezuelanos estão dançando pelas ruas”
Em contraste com as manifestações de solidariedade internacional, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi alvo de críticas ao comentar a tragédia durante um evento político. Mesmo reconhecendo que “foi um grande terremoto” e que “edifícios caíram”, afirmou que “o país está feliz novamente, as pessoas estão felizes, estão dançando pelas ruas e os atuais governantes estão fazendo um trabalho muito bom”. A declaração repercutiu negativamente diante da dimensão da catástrofe humanitária e do elevado número de mortos, desaparecidos e desabrigados.
Enquanto sucessivos tremores secundários continuam sendo registrados, voluntários e equipes internacionais seguem trabalhando praticamente sem interrupção nas áreas mais atingidas. Para milhares de famílias que ainda aguardam notícias de parentes desaparecidos, cada hora representa uma corrida contra o tempo – e a solidariedade internacional permanece como um dos principais pilares da resposta à maior tragédia natural vivida pela Venezuela em décadas.