Um “super El Niño” ameaça provocar uma catástrofe
O governo Trump está lidando com a situação de forma imprudente e interrompeu os fluxos de dados fundamentais para a elaboração de previsões
Foto: Destruição durante as chuvas ocorridas em Pernambuco. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Via Sin Permiso
Em 1877, os norte-americanos passaram por um inverno excepcionalmente ameno, conhecido como “o ano sem inverno”. Isso coincidiu com um dos fenômenos do El Niño mais intensos já registrados. Os cientistas suspeitam que esse mesmo El Niño tenha sido um fator determinante em um dos piores desastres ambientais da história. Enquanto grande parte do mundo era atingida pela seca, as colheitas despencaram na Índia, na China, em algumas regiões da África e no Brasil. A seca, agravada por políticas coloniais e outras medidas socioeconômicas, provocou a “Grande Fome”, que ceifou entre 30 e 60 milhões de vidas, aproximadamente 3% da população mundial da época.
O que nos distingue das vítimas de 1877 não é a sorte, mas os dados. Quando ocupei o cargo de subdiretor da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), testemunhei como o monitoramento e a previsão oceânicos modernos forneciam os alertas antecipados dos quais os vitorianos careciam. Esse tempo de antecedência salva milhares de vidas e economiza bilhões de dólares a cada ano. Hoje, podemos nos antecipar às crises climáticas antes que elas ocorram.
Neste mês, a NOAA confirmou a formação do El Niño no Pacífico tropical e emitiu um alerta oficial. Os meteorologistas prevêem que ele se intensifique ao longo do inverno de 2026-27, com 63% de probabilidade de atingir o nível “muito forte”, o que o colocaria entre os fenômenos mais intensos registrados desde 1950. Em um mundo que já sofre com ondas de calor sem precedentes, um fenômeno desse tipo poderia trazer consigo eventos extremos ainda mais perigosos: secas, incêndios florestais, inundações e, no Pacífico, uma temporada de furacões mais ativa. E, como sempre acontece, esses fenômenos afetam de forma desproporcional os mais vulneráveis.
Diante dessa ameaça em constante evolução, o governo Trump tem tentado paralisar nossas capacidades de previsão. Nesta primavera, a Fundação Nacional para a Ciência (NSF) começou a “reduzir o escopo” da Iniciativa de Observatórios Oceânicos, uma rede que fornece dados oceânicos em tempo real a partir de mais de 900 sensores. “Redução do escopo” é um eufemismo burocrático para se referir ao desmantelamento do programa. A agência anunciou planos para retirar todos os sensores, boias e demais equipamentos de quatro dos cinco locais do programa. Essas redes se estendem do Golfo do Alasca até o Mar de Irminger, entre a Groenlândia e a Islândia, e chegam até as águas em frente à Carolina do Norte. Construído ao longo de uma década com um custo aproximado de 386 milhões de dólares, o sistema está entre as redes de observação oceânica mais avançadas do mundo.
Que não haja dúvidas: a retirada dessas redes não foi uma medida orçamentária. Em vez disso, as ações da NSF devem ser consideradas uma extensão do ataque generalizado do governo Trump contra a ciência climática federal. O objetivo é, ao que parece, enfraquecer os programas que medem as mudanças climáticas para, posteriormente, afirmar que o problema é “incerto”. Mas desligar o alarme não apaga o incêndio.
A comunidade científica e os membros do Congresso reagiram às medidas da NSF com veementes objeções. Em uma demonstração incomum de unidade bipartidária, o Senado aprovou por unanimidade um projeto de lei apresentado pelos senadores Lisa Murkowski e Jeff Merkley para proibir o uso de recursos federais destinados ao desmantelamento da rede até que seja realizada uma revisão exaustiva. Na semana passada, a NSF anunciou que suspenderia a remoção, manteria o sistema em funcionamento e reinstalaria os sensores que haviam sido retirados da água.
Mas isso não passa de um respiro temporário, e o sistema continua em perigo. A NSF suspendeu suas ações e deixou o futuro da rede nas mãos de um comitê que ainda não foi constituído. Sensores já foram removidos e os fluxos de dados foram interrompidos. Sua reinstalação após a remoção não significa um funcionamento ininterrupto. Não deveríamos ter que depender de intervenções de última hora para preservar sistemas essenciais à proteção de vidas e bens.
Embora esses sensores não detectem a formação do El Niño, eles medem a temperatura das profundezas oceânicas, o melhor indicador do excesso de calor que o planeta está absorvendo. Pesquisadores independentes alertam que a eliminação de observações americanas como essas aumentaria o erro nas estimativas anuais do aquecimento oceânico em 163%, o que prejudicaria as previsões e os sistemas de alerta precoce que ajudam o país a se preparar para desastres. Somente em 2025, esses desastres custaram aos EUA 115 bilhões de dólares. Esses mesmos dados servem de base para a gestão da pesca, que sustenta 2,1 milhões de empregos nos EUA e gera 319 bilhões de dólares em vendas anuais, segundo dados de 2023. O governo Trump estava disposto a colocar tudo isso em risco para desmantelar um sistema cujo funcionamento custa apenas 56 milhões de dólares por ano. Essa é a magnitude de sua imprudência.
Se permitirmos que esses sistemas continuem vulneráveis aos caprichos políticos, um fenômeno extremo acabará nos pegando de surpresa. Uma enchente inesperada, uma safra fracassada ou uma tempestade catastrófica serão descartadas como um ato inevitável da natureza. As fomes de 1877 também foram atribuídas ao destino, mas se devem, em grande parte, à incapacidade de antecipar e responder.
Na semana passada, o sistema se salvou. Por enquanto. O comitê que a NSF planeja convocar deveria recomendar uma proteção permanente, e o Congresso deveria transformar essa proteção em lei, para que os instrumentos dos quais dependemos para compreender o oceano não fiquem à mercê do resultado de uma eleição. O oceano armazena a maior parte do excesso de calor que dá origem a tempestades, ondas de calor marinhas e perturbações climáticas, como os fenômenos do El Niño. Agora temos a capacidade de medi-lo, emitir previsões com base no que ele nos indica e nos preparar para o que possa vir. Estivemos prestes a jogar tudo por água abaixo.