O preço do impossível
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O preço do impossível

Em “Jurassic Park”, John Hammond queria vender dinossauros. Os empresários de hoje preferem transformar o fundo do mar e a superfície da Lua em produtos. A lógica do negócio, porém, continua a mesma

Vanderlei Tenório 6 jul 2026, 08:31

Fotos: Divulgação

Durante muito tempo, o turismo foi, acima de tudo, uma questão de deslocamento. Viajar significava a oportunidade de estranhar uma cidade, descobrir uma paisagem distante ou, na volta, colecionar histórias que justificassem o tempo gasto no caminho.

Nos últimos anos, porém, o setor parece ter mudado de eixo. Para o consumidor de altíssima renda, a indústria passou a vender algo bem menos tangível do que um destino: a possibilidade de viver uma experiência que permanecerá fora do alcance da maioria.

O destino deixou de ser o único norte. O valor passou a estar na exclusividade. Viajar tornou-se menos uma questão de quilômetros percorridos do que de barreiras transpostas. O lugar continua importante, mas o que realmente pesa é o número reduzido de pessoas que conseguem chegar até ele.

Essa lógica ajuda a explicar por que o turismo de luxo, antes satisfeito com hotéis cinco estrelas, ilhas privativas e gastronomia assinada por chefs renomados, entrou numa corrida permanente por novidade. O problema do luxo é que ele perde valor à medida que se populariza. O que hoje parece inalcançável, amanhã pode estar disponível em um catálogo de viagens.

Por isso, a indústria precisa deslocar continuamente a fronteira do desejo. Quando nem os safáris mais exclusivos surpreendem, as praias paradisíacas se tornaram cenário de milhões de fotografias e antigos palácios passaram a funcionar como hotéis, sobra explorar o que ainda resiste à lógica da massificação: o fundo do oceano, as regiões polares, o espaço e, mais recentemente, a Lua.

No turismo de ultraluxo, a exclusividade depende de um movimento permanente. Assim que um destino se torna familiar, é preciso encontrar outro ainda mais distante.

O luxo da descoberta

Nesse tipo de turismo, a atração principal não é a suíte nem o serviço, mas a oportunidade de viver algo que quase ninguém viveu. O verdadeiro luxo é poder dizer “eu estive lá” e ter uma história que poucos podem reivindicar como sua.

Para atender a essa demanda, o turismo passou a incorporar o imaginário das grandes expedições científicas. O iate de luxo já não basta; o auge é descer a quatro mil metros de profundidade, a bordo de um batiscafo, para visitar os destroços do Titanic. A indústria percebeu que, para justificar preços astronômicos, precisava transformar o cliente no protagonista de aventuras que, até pouco tempo atrás, pertenciam ao universo da pesquisa científica. Já não bastava vender a paisagem. Era preciso vender a sensação de participar de uma descoberta.

Foi essa lógica que levou o Titan ao fundo do Atlântico, em junho de 2023. Operado pela OceanGate, o submersível cobrava 250 mil dólares por uma vaga. O valor não remunerava apenas a tecnologia envolvida na viagem. Pagava, sobretudo, a possibilidade de ocupar, por algumas horas, o lugar que o imaginário costuma reservar aos exploradores.

A história guardava uma ironia difícil de ignorar. O Titanic, símbolo da confiança excessiva na engenharia humana, acabou transformado, mais de um século depois, no cenário de outra tragédia marcada pela mesma crença no domínio da tecnologia. O naufrágio que revelou os limites do possível converteu-se em produto de luxo. Parte do seu apelo estava justamente na proximidade com o risco.

As investigações posteriores à implosão apontaram para a mesma conclusão: não se tratou de um acidente inevitável, mas da consequência de sucessivas falhas no cumprimento dos protocolos de segurança.

O caso expôs uma lógica que já vinha se consolidando no mercado. O ceticismo passou a ser tratado como resistência ao progresso. A cautela despertava desconfiança, enquanto qualquer objeção técnica era recebida como sinal de falta de visão. A ousadia transformou-se em valor absoluto, como se bastasse para justificar decisões cada vez mais arriscadas. No fim das contas, o que se apresentava como espírito empreendedor muitas vezes não passava da disposição de flexibilizar a segurança em nome de um negócio mais rentável.

O vácuo como próximo ativo

Se o fundo do mar ainda oferece o risco do esmagamento, o espaço exterior vende a ilusão da transcendência. Nos últimos anos, a órbita terrestre deixou de ser um domínio exclusivo de agências governamentais para se tornar a nova fronteira da indústria do entretenimento.

É nesse cenário que se inserem as ambições de Elon Musk. Com uma fortuna estimada em 1,053 trilhão de dólares (cerca de 5,49 trilhões de reais) em julho de 2026, segundo a Forbes, o fundador da SpaceX não apenas atua no turismo espacial; ele contribui para normalizar a órbita terrestre como extensão natural do mercado. A partir da primeira missão orbital composta exclusivamente por civis, em 2021, o espaço deixou de ser o domínio restrito de astronautas de carreira para se consolidar como uma experiência comprável — um bem de consumo como qualquer outro.

Contudo, a promessa de uma democratização das estrelas tem sido confrontada pela crueza da técnica. Em 2026, enquanto a SpaceX segue testando a versatilidade da Starship — focada no reabastecimento em órbita e em missões de longa duração —, o setor sofre com a instabilidade: a falha catastrófica de um foguete da Blue Origin em maio deste ano forçou uma pausa nas operações e o redesenho de suas plataformas.

Esses reveses, somados a custos de bilhetes que variam entre 600 mil e 2 milhões de dólares, revelam que o que temos hoje não é a abertura de uma nova era para a humanidade, mas a transformação do vácuo em um ativo de altíssimo risco.

O espaço é comercializado como promessa de infraestrutura futura: cogitam-se desde centros de dados de inteligência artificial em órbita até hotéis lunares. O que se observa, em última análise, é que a corrida espacial privada trocou a exploração científica pela manutenção de uma narrativa de progresso, na qual cada teste — mesmo aqueles que terminam em explosão — é convertido em valor de mercado ou em combustível para futuras rodadas de investimento.

O visionário de Spielberg

É justamente essa transformação da ciência em experiência comercial que Michael Crichton antecipou em Jurassic Park. Publicado em 1990, o romance imaginou um futuro no qual a maior descoberta genética da humanidade não seria apresentada apenas como avanço científico, mas como produto turístico. John Hammond não criou apenas dinossauros; criou uma forma de vender o impossível.

O fundador fictício do parque costuma ser lembrado como um simpático avô escocês apaixonado por dinossauros. Essa imagem, reforçada por Steven Spielberg na adaptação cinematográfica, esconde uma característica central: Hammond não queria apenas recriar criaturas extintas, queria transformar a própria impossibilidade em mercadoria.

Os dinossauros representavam uma conquista científica extraordinária, mas não eram o produto final. O verdadeiro item à venda era o parque. A mercadoria real era a experiência de caminhar entre criaturas extintas há milhões de anos. A engenharia genética funcionava nos bastidores; o espetáculo era o negócio.

A sequência da história, O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997), aprofunda essa lógica. Quatro anos depois dos eventos do parque, os dinossauros sobreviviam em segredo na Ilha Sorna, um território onde a natureza escapava ao controle humano. Nesse intervalo, Hammond perde o comando da InGen, a empresa responsável pelo projeto, para seu sobrinho, Peter Ludlow.

Diferentemente do tio, Ludlow elimina qualquer verniz idealista: os dinossauros passam a ser tratados como ativos empresariais. O plano é capturá-los e levá-los ao continente para exibi-los em uma espécie de zoológico, convertendo criaturas em fonte direta de lucro. Ainda assim, como o tio, ele fracassa.

A trajetória da InGen mostra que o projeto não desaparece com o fracasso inicial. Em 1998, a empresa é adquirida pela Masrani Global Corporation, liderada por Simon Masrani. A mudança aponta para algo mais estrutural: o problema não era apenas o parque, mas o modelo que o tornava possível. O extraordinário, quando se transforma em experiência, ganha um apelo econômico difícil de conter.

Em 2005, essa lógica atinge sua forma mais acabada com a inauguração do parque Jurassic World na Ilha Nublar, explorado no filme homônimo de 2015, no mesmo espaço do projeto original.

O paradoxo está no modo como a troca de controle empresarial, tão recorrente na economia contemporânea por meio de fusões e aquisições, como a compra da Warner Bros., reconfigura tudo sem romper a continuidade. O fracasso não encerra o processo, apenas o reorganiza como matéria de construção. Os dinossauros deixam de ser objeto científico, como queria Hammond, ou animais de exposição, como queria Ludlow, e passam a sustentar um sistema turístico global, visitado por milhões de pessoas ao redor do mundo.

Hammond, Ludlow e Masrani encarnam três estágios de uma mesma lógica. A ciência se converte em espetáculo, depois em ativo financeiro e, por fim, em indústria global da experiência. A diferença é de grau, não de princípio, já que o extraordinário continua sendo traduzido em mercadoria.

A ilusão do controle

Décadas depois, a Ilha Nublar mudou de endereço e passou a ocupar o vácuo. O vocabulário das startups que agora vendem hotéis lunares e roteiros orbitais ecoa o entusiasmo de John Hammond com uma naturalidade perturbadora. Fala-se em sustentabilidade, em expansão da civilização e em sistemas fechados de reciclagem.

No fundo, a promessa é a mesma, apenas deslocada de órbita: o cliente não compra apenas uma estadia; ele financia a própria infraestrutura. O turista se converte em investidor, e a fronteira entre ciência e fetiche de luxo torna-se, a cada novo lançamento, mais tênue.

É nesse cenário que o “visionário” moderno opera. Assim como Hammond, figuras como Musk não apenas vendem acesso ao extraordinário; eles normalizam a exploração comercial como um desdobramento inevitável da nossa natureza.

No entanto, os eventos de 2026 nos lembram que o espaço — a natureza em sua forma mais hostil — ainda não submeteu seus protocolos à lógica do lucro. As falhas recentes evidenciam que o risco de colapso, seja no fundo do mar ou no vácuo, não pode ser inteiramente mitigado por slides de apresentação ou rodadas de capital.

Em dado momento de Jurassic Park, a Dra. Ellie Sattler desarma o empresário com uma sentença que parece simples demais para a dimensão do desastre que anuncia: “Você nunca teve controle.” Hammond acreditava que dominar a engenharia equivalia a dominar a vida, tomando o poder do capital como garantia de domínio sobre o real. Essa mesma hubris reaparece na tragédia do submarino Titan e, agora, nos projetos lunares. Ambos são vendidos sob a premissa de que a tecnologia é um atalho histórico — uma forma de superar as nossas limitações físicas através da carteira.

O capitalismo tem uma vocação quase automática para converter o inédito em mercadoria. Todavia, a realidade insiste em interromper o roteiro, indiferente a business plans. Os dinossauros escaparam das cercas; o Titan implodiu sob a pressão que jurava ter neutralizado. A Lua, por enquanto, segue muito mais próxima das projeções financeiras das corretoras do que das janelas de qualquer hotel.

A questão, no fim das contas, não é se haverá turistas a dormir na Lua — é provável que, eventualmente, haja. A pergunta é outra: quando isso acontecer, estaremos diante de um genuíno salto científico ou apenas da repetição, em escala cósmica, de uma velha operação de mercado?

Estaremos, enfim, expandindo as fronteiras do conhecimento, ou apenas transformando o vácuo em um produto de luxo para quem pode pagar pelo privilégio de ignorar os riscos que a natureza, invariavelmente, nos impõe?


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