Falsas torcedoras da Copa: como a IA sexualiza as mulheres através de estereótipos
Inúmeras contas nas redes sociais publicaram esse tipo de conteúdo de forma recorrente, com vídeos que repetem o mesmo padrão sexista
Foto: Imagem de torcedora da Copa do Mundo gerada por IA. (Media.io/Reprodução)
Via Viento Sur
A Copa do Mundo de 2026, a primeira em plena expansão da Inteligência Artificial, já começou a ver circular nas redes sociais falsas “fancams” ou vídeos com aparência sintética que mostram supostas torcedoras nos estádios retratadas sob estereótipos de beleza normativos e sexualizados.
A EFE Verifica identificou mais de vinte contas nas redes sociais que publicam esse tipo de conteúdo de forma recorrente, algumas até mesmo diariamente, com vídeos que repetem o mesmo padrão: mulheres, criadas por Inteligência Artificial, com trajes associados a diferentes países, cenários de estádio e a estética típica das “fancams” da Copa do Mundo.
Além disso, especialistas consultados pela EFE Verifica concordam que o fenômeno não deve ser interpretado apenas com base na autenticidade de cada vídeo, mas como uma forma de desinformação de gênero que objetifica as mulheres e amplifica estereótipos nacionais por meio de imagens sintéticas ou com aparência sintética.
À primeira vista, parecem simples vídeos virais, mas por trás deles esconde-se algo mais do que entretenimento: uma forma de representação que transforma determinados corpos femininos em isca e reforça velhos estereótipos sob uma aparência nova.
A socióloga especializada em misoginia digital nas redes sociais, Elisa García Mingo, considera que esse fenômeno pode ser abordado como “desinformação de gênero”, pois não apenas apresenta imagens falsas ou de aparência sintética, mas também reproduz uma representação estereotipada das mulheres.
Objetificação digital e desinformação de gênero
García Mingo alerta, além disso, que classificar essas supostas amadoras por países agrava o problema, pois os estereótipos “raciais, culturais e de gênero não estão apenas sendo reproduzidos, mas também exacerbados”.
Nessa linha, Noemí Morejón, professora e pesquisadora da Universidade Loyola da Andaluzia e especialista em desinformação, sugere que, quando a mulher se torna “um objeto de coleção”, como é o caso desses vídeos classificados por países, o papel da IA amplifica “um sentimento que um determinado setor da população normaliza”.
“Essa questão tem chamado a atenção dos psicólogos, pois está distorcendo a diversidade feminina e promovendo padrões de beleza impossíveis de serem alcançados por seres humanos”, acrescenta ela.
Essa reprodução de corpos artificiais e normativos está ligada a outros riscos associados à IA generativa, como sua capacidade de produzir conteúdos que reforçam padrões irreais e suas consequências.
Um relatório do Center for Countering Digital Hate alerta que seis ferramentas populares de IA geraram conteúdo prejudicial relacionado a distúrbios alimentares em 41% dos testes, e que os geradores de imagens produziram conteúdos que glorificavam padrões corporais irreais em 32% dos casos.
Falsas torcedoras amadoras como isca viral
Como é comum na desinformação generativa, ela costuma andar de mãos dadas com a atualidade. Neste caso, a Copa do Mundo oferece uma vitrine ideal para ganhar visibilidade.
O formato é sempre o mesmo, embora com pequenas variações: uma jovem filmada de forma “espontânea”, um estádio ao fundo e uma bandeira ou camisa da seleção nacional. Em todos eles, a lógica do vídeo não gira em torno da partida, mas do corpo da mulher como isca em uma competição esportiva masculina.
O professor e pesquisador da Universidade Politécnica de Madri e do IBERIFIER, Alejandro Martín, explica à EFE Verifica que qualquer conteúdo vinculado a temas de atualidade “sempre vai conseguir mais visibilidade em uma rede social e que o objetivo dessas contas costuma ser obter visualizações para monetizá-las”.
Morejón concorda que essas falsas “fancams” buscam, além da viralidade, monetizar uma narrativa falsa.
“A questão é como isso está sendo monetizado. Nesta ocasião, esses clipes de vídeo redirecionam para sites e plataformas pagas como Onlyfans ou Fanvueu, e até mesmo o Telegram, que oferecem conteúdo pago dessas supostas mulheres. Elas são o foco de captação para uma posterior monetização”, explica Morejón.
Criar uma falsa “fancam” já é acessível
Uma análise da EFE Verifica mostra que criar esse tipo de vídeo já não requer conhecimentos técnicos avançados e está cada vez mais acessível ao público em geral.
O processo pode começar com uma imagem gerada por IA a partir de um prompt detalhado — por exemplo, uma suposta torcedora em um estádio, com uma camisa ou bandeira específica e aparência realista — e continuar em outra ferramenta capaz de animar essa imagem como se fosse uma ‘fancam’ da Copa do Mundo.
Nesse sentido, Martín destaca que já existem “inúmeras opções disponíveis” para gerar esse tipo de conteúdo e que muitas funcionam diretamente on-line por meio de serviços pagos.
“É extremamente fácil, existem muitos serviços on-line para geração de imagens e vídeos. Basta pagar 7, 10, 30 euros para poder gerar vídeos do que se quiser”, explica.