Brasil zera exportações diretas de petróleo para Israel após campanha nacional
Campanha por embargo energético do movimento BDS reuniu sindicatos, organizações da sociedade civil e contou com apoio da deputada federal Sâmia Bomfim
Foto: Manifestação contra o envio de petróleo para Israel na Avenida Paulista em 2024. (Daniela Fajer/Reprodução)
O Anuário Estatístico 2026 da Agência Nacional do Petróleo (ANP), divulgado no fim de junho, mostra que o Brasil não realizou exportações diretas de petróleo para Israel em 2025. O dado marca uma mudança significativa e representa a principal conquista, até o momento, da campanha nacional pelo embargo energético organizada pelo movimento BDS (Boicote, desinvestimento e sanções). Ao longo de quase dois anos, a campanha articulou as federações nacionais dos trabalhadores do setor petrolífero (FUP e FNP), organizações da sociedade civil, parlamentares e jornalistas para pressionar o governo brasileiro a interromper o fornecimento de petróleo à entidade sionista.
A mobilização ganhou dimensão nacional em julho de 2025. Naquele mês, a relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, publicou o relatório Da economia da ocupação à economia do genocídio, que identificou a Petrobras entre as empresas inseridas na cadeia internacional de fornecimento de petróleo para Israel, ao lado de gigantes como BP e Chevron. Poucos dias depois, reportagem exclusiva do jornalista Jamil Chade, baseada em dados da própria ANP, revelou que, enquanto as exportações brasileiras de petróleo cresceram apenas 9% em 2024, as destinadas a Israel haviam aumentado 51%.
Ainda em julho de 2025, a deputada federal Sâmia Bomfim protocolou requerimento de informação ao Ministério de Minas e Energia cobrando esclarecimentos sobre as exportações brasileiras de petróleo para Israel, a participação da Petrobras e de outras empresas atuantes no país nessas operações, os mecanismos de rastreamento da origem e do destino do petróleo exportado e as medidas adotadas pelo governo para assegurar que essas operações não contribuíssem para violações do direito internacional. Paralelamente, a FUP e a FNP encaminharam ao governo federal um pedido formal para que as exportações fossem suspensas, fundamentando o pleito nas obrigações do Estado brasileiro decorrentes do Direito Internacional Humanitário e do Direito Internacional dos Direitos Humanos.
A resposta enviada posteriormente pelo Ministério de Minas e Energia ao Congresso reforçou uma das principais denúncias da campanha. O governo reconheceu que não dispõe de mecanismos para rastrear a origem e o destino final do petróleo exportado pelas empresas, nem para identificar os contratos envolvidos nessas operações. Também admitiu que os contratos de concessão e partilha atualmente vigentes não contêm cláusulas específicas relacionadas à observância de normas internacionais de direitos humanos ou restrições à exportação em casos de envolvimento em crimes internacionais.
A mobilização também ocupou as ruas. Em agosto de 2024, o movimento Fecha Torneira instalou um barril inflável gigante na Avenida Faria Lima, denunciando o papel do petróleo brasileiro no abastecimento da máquina de guerra israelense. Em novembro, um grande “tanque de papel” percorreu a Avenida Paulista em nova manifestação pelo embargo energético.
Os dados agora divulgados pela ANP confirmam a principal reivindicação da campanha: em 2025, o comércio direto de petróleo entre Brasil e Israel foi interrompido. Trata-se da segunda vitória política concreta obtida pelo BDS Brasil junto ao Estado brasileiro, após a suspensão da compra de blindados da empresa israelense Elbit Systems, em 2024.
A interrupção das exportações diretas, porém, não encerra a controvérsia.
Investigações conduzidas pelo Sindipetro-RJ, pela Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) e pela organização internacional Oil Change International indicam que parte do petróleo brasileiro pode continuar chegando a Israel por meio de rotas indiretas. A principal passa pela refinaria Saras, na ilha da Sardenha, operada pela trading suíça Vitol, considerada um importante centro de abastecimento do mercado israelense. Segundo essas investigações, em junho de 2025 o petróleo brasileiro chegou a representar 47% do volume processado pela refinaria, percentual muito superior à média histórica de aproximadamente 7%.
Segundo especialistas em direito internacional e organizações que acompanham o caso, a responsabilidade internacional de um Estado não depende apenas do país formalmente declarado como destino da exportação, mas também do conhecimento e da contribuição material para cadeias de fornecimento que possam sustentar crimes internacionais. Se o petróleo brasileiro continuar chegando a Israel por meio dessas triangulações comerciais, a mudança da rota de exportação, por si só, não elimina as responsabilidades jurídicas envolvidas.
Por essa razão, o BDS Brasil e as organizações que impulsionaram a campanha defendem que o governo federal vá além da interrupção das exportações diretas. Entre as reivindicações estão a realização de uma auditoria independente sobre o destino final do petróleo brasileiro e a edição de um decreto que proíba explicitamente as exportações de petróleo e demais produtos energéticos para Israel, em medida semelhante ao embargo ao carvão adotado pela Colômbia.
O fim das exportações diretas demonstra que uma articulação construída pelo movimento BDS Brasil, em conjunto a sociedade civil organizada, foi capaz de produzir efeitos concretos sobre a política comercial brasileira. Ao mesmo tempo, a ausência de mecanismos públicos de rastreamento e as evidências de rotas indiretas mostram que a disputa está longe de encerrada. O desafio agora é transformar essa conquista em uma política permanente de Estado, impedindo que petróleo extraído no Brasil continue abastecendo, direta ou indiretamente, a máquina de guerra israelense.