A mediocridade dos tiranos
Em O Rei Leão, Scar revela que o poder absoluto não transforma homens em líderes; apenas expõe suas limitações
Imagens: Disney/Divulgação
Nem todo grande vilão precisa de uma origem trágica ou de uma filosofia moral sofisticada. Para cada Magneto, existe um Coringa, como o de Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, cuja força como antagonista está justamente na ausência de uma motivação plenamente racional. Em determinado momento do filme, o mordomo Alfred sintetiza a sua essência ao dizer: “Alguns homens só querem ver o circo pegar fogo.”
O Rei Leão segue uma lógica mais próxima desse tipo de antagonista. A versão original, lançada em 1994, tem apenas 88 minutos, foi pensada sobretudo para o público infantil e é sustentada por números musicais memoráveis compostos por Elton John e Tim Rice.
Em um filme com essas características, não havia espaço — nem necessidade — para construir uma psicologia complexa para o antagonista. Basta que ele apareça cercado por sombras esverdeadas e fumaça sulfúrica, carregando um nome que já revela quem é: Scar, “cicatriz” em inglês. Numa época em que Hollywood ainda recorria, sem grandes preocupações, a símbolos bastante diretos, a deformidade física era frequentemente associada à corrupção moral.
Scar não é movido por um projeto político, mas pelo ressentimento. O ciúme que sente de Mufasa explica parte de suas atitudes; o restante decorre simplesmente do papel que ele desempenha na história.
Isso, porém, não impede que se analise a forma como conduz a conspiração para tomar o poder. É justamente aí que seu plano desmorona. Scar fracassa não apenas como governante, mas, antes de tudo, como estrategista.
Um golpe sem revolução
Ao contrário de Mufasa, cuja autoridade decorre da legitimidade do seu reinado, Scar faz da teatralidade seu principal instrumento de poder. É um manipulador habilidoso e sabe usar as palavras a seu favor, mas demonstra pouca capacidade para pensar a política além da conquista do trono. É justamente após assassinar o irmão que essa limitação se revela. Antes de lançá-lo do penhasco, Scar sussurra “Vida longa ao rei” em uma encenação que resume sua personalidade.
No fundo, o golpe de Scar é conservador. Ele não pretende reformar a monarquia, muito menos substituí-la por outro modelo de governo. Quer apenas a coroa que estava na cabeça de Mufasa.
Durante a canção “Se Preparem”, revela sua própria visão de poder ao afirmar que “quando um rei sai, outro entra”. Para Scar, o problema não está no sistema, mas em quem ocupa o trono. Quando uma das hienas sugere o fim da monarquia, ele encerra a discussão com um: “Idiotas! Haverá um rei!”
É uma lógica antiga, típica dos golpes palacianos, em que a disputa não envolve a criação de uma nova ordem, mas a tomada de uma estrutura de poder já estabelecida. Ricardo III da Inglaterra conhecia bem esse roteiro. Sua ascensão ao trono, marcada por manobras controversas e pelo desaparecimento de seus sobrinhos, alimentou acusações de usurpação e ajudou a reacender a Guerra das Rosas (1455-1487). Scar, de certa forma, repete esse movimento em escala de savana: elimina Mufasa, tenta afastar Simba e descobre que conquistar uma coroa é mais fácil do que convencer os súditos de que ela lhe pertence.
O problema é que Scar derruba um soberano legitimado pelos próprios súditos e não apresenta qualquer projeto para a Pedra do Reino. A monarquia permanece de pé, mas passa a servir a um governante incapaz de administrar o próprio domínio. O resultado é a exploração predatória dos recursos e a ascensão das hienas como principal força do reino. Em vez de consolidar sua posição, Scar associa seu governo a um grupo que os demais animais já enxergavam como uma ameaça.
Ao longo da história, mudanças dinásticas costumam prosperar quando o governante deposto perde apoio ou quando o sucessor apresenta uma alternativa capaz de mobilizar a população.
Nenhuma dessas condições existe em O Rei Leão. Mufasa era admirado, enquanto Scar não oferecia nada além da própria ascensão. Mesmo golpes apoiados por forças externas, como diversas intervenções patrocinadas pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria, buscavam justificar sua existência pela necessidade de enfrentar uma ameaça maior. Scar faz justamente o contrário: leva a ameaça para dentro do reino. As hienas não surgem como resposta para uma crise; tornam-se a própria crise.
O poder sem legitimidade
Essa diferença evidencia o contraste entre um governante legítimo e um usurpador. No artigo “O que faz um estadista”, publicado na Veja, o jornalista Ricardo Noblat argumenta que um estadista é alguém capaz de formular uma visão ampla de país, dialogar com diferentes forças políticas e exercer o poder tendo em vista também as gerações futuras. O político medíocre, por outro lado, enxerga o mundo a partir das próprias limitações e transforma o poder em instrumento de destruição.
Scar encarna esse segundo tipo de liderança. Seu governo não nasce de um projeto coletivo, mas de uma ambição pessoal. Ele não governa de fato; apenas ocupa o trono. Em vez de buscar estabilidade para o reino, transforma o poder em extensão do ressentimento que o levou à coroa. O resultado é devastador.
O mais surpreendente, aliás, não é o fracasso final de Scar, mas o fato de seu regime ter sobrevivido durante tanto tempo. Simba passa anos afastado da Pedra do Reino enquanto o tio governa exclusivamente apoiado pela força da instituição monárquica e pelo medo. O reino se deteriora lentamente, mas quase ninguém reage de imediato. A fome se espalha, os recursos desaparecem e a própria savana se transforma num território árido.

A ruína do reino
Aí reside, talvez, o maior sinal da incompetência administrativa de Scar. Em poucos anos, ele consegue destruir o equilíbrio ecológico da Pedra do Reino. A caça excessiva compromete a cadeia alimentar, altera o ambiente e torna inviável a manutenção da vida. Nem mesmo regimes autoritários costumam fracassar tão rapidamente na preservação das condições básicas que garantem a própria sobrevivência.
A degradação ambiental acompanha a degradação política. Scar governa por meio de conflitos internos permanentes, especialmente com as leoas, responsáveis pela sustentação material do reino. A instabilidade nasce do próprio centro do poder. A exploração gera ressentimento, a escassez alimenta a insatisfação e a confiança desaparece. O regime passa a depender exclusivamente da coerção e do medo.
É possível aproximar esse modelo das formulações clássicas do absolutismo. Nicolau Maquiavel, em O Príncipe (1532), defendia que o governante deveria recorrer à força sempre que necessário para preservar o poder. Thomas Hobbes, em Leviatã (1651), argumentava que apenas um soberano forte poderia impedir o retorno ao caos. Já Jacques-Bénigne Bossuet justificava o absolutismo a partir do direito divino dos reis.
Scar reproduz a versão mais simplificada dessas ideias, concentrando autoridade e usando o medo como instrumento de governo. O problema é que ignora um princípio básico até para os defensores do absolutismo: nenhum poder se sustenta ao destruir as bases que legitimam sua existência.
Nesse sentido, Nala representa a primeira fissura no poder de Scar. Não porque lidere uma revolução organizada, mas porque representa a primeira ruptura vinda do interior da própria elite do reino. A oposição só ganha forma quando a fome deixa de ser uma ameaça distante e passa a atingir diretamente a sobrevivência dos habitantes. Até então, o governo de Scar permanecia praticamente incontestado.
Os três erros fatais de Scar

Os erros finais do usurpador revelam a combinação entre arrogância e incompetência. O primeiro foi desejar o trono sem possuir qualquer capacidade real de governar.
Antes do golpe, Scar levava uma vida confortável, livre de responsabilidades e amparada pela estabilidade construída por Mufasa. Embora ocupasse uma posição secundária na hierarquia do reino, desfrutava dos privilégios da realeza sem precisar enfrentar as exigências da liderança. Podia cultivar sua postura cínica e observar o funcionamento da monarquia à distância, sem jamais ser cobrado por decisões concretas.
É nesse ponto que reside, talvez, a maior tragédia do personagem. Ele confundiu ressentimento com vocação política. O poder absoluto não ampliou suas qualidades; apenas revelou suas limitações. Mesmo com um plano cuidadosamente articulado para chegar ao trono, momentos decisivos foram comprometidos por escolhas equivocadas.
A primeira delas foi justamente desejar uma posição que jamais demonstrou estar preparado para ocupar. Antes de arrastar Simba e Mufasa para a destruição, é difícil encontrar em sua trajetória qualquer sofrimento real além da frustração de não ser o centro das atenções. O futuro rei da Pedra do Reino parecia ter liberdade para agir como quisesse. Para alguém movido mais pela inveja do que pela necessidade, isso já representava uma situação privilegiada.
O segundo erro foi deixar que as hienas matassem Simba após a debandada dos gnus, em vez de eliminar pessoalmente o herdeiro do trono. O usurpador havia acabado de assassinar o próprio irmão e rei, e nada no filme sugere que considerasse o fratricídio e o regicídio aceitáveis enquanto via o assassinato do sobrinho como um limite moral. Pelo contrário, antes mesmo da morte de Mufasa, já havia colocado Simba em uma situação de risco ao atraí-lo para o desfiladeiro.
A contradição é que, nas duas ocasiões, evita assumir diretamente a violência final. Prefere delegar os atos mais decisivos, como se tentasse manter distância das consequências de suas próprias escolhas. Essa hesitação se torna sua ruína. Morto, Simba teria sido apenas uma lembrança trágica. Vivo, transforma-se no elemento capaz de derrubar o regime construído pelo tio.
As leoas só se voltam contra o usurpador quando Simba retorna e expõe publicamente a ilegitimidade de seu reinado. A partir desse momento, a estrutura sustentada pelo medo começa a desmoronar. A autoridade do novo rei dependia da ausência do herdeiro legítimo. Quando Simba reaparece, a fragilidade do regime vem à tona.
Encurralado, o antagonista comete então seu erro definitivo. Na tentativa de sobreviver, trai as próprias aliadas e responsabiliza as hienas pela devastação do reino. Ao fazer isso, destrói a última base de apoio que ainda possuía. Quem chegou ao trono por meio da manipulação acaba vítima da lógica que construiu. Abandonado pelas hienas que antes controlava, Scar termina morto por aqueles que haviam sido sua principal sustentação.
A ironia final é completa. O usurpador ascende ao trono manipulando todos ao seu redor, mas é destruído no momento em que deixa de ser capaz de convencer qualquer um a segui-lo. Sua queda não ocorre apenas porque é cruel, mas porque nunca compreende os limites do medo e da força como instrumentos de governo.
No fim, a tragédia de Scar não é a de um grande tirano shakespeariano, como Cláudio, de Hamlet, cuja queda parece conduzida pelo próprio destino. É a de um “homem” consumido pela própria mediocridade política. Ele desejava o poder, mas nunca soube verdadeiramente o que fazer com ele.