Crise do BRB aprofunda pressão sobre as contas do DF
Tentativa de compra do Banco Master, rejeitada pelo Banco Central e seguida por investigações sobre fraudes bilionárias, mergulhou o banco estatal em uma crise de liquidez que já afeta investimentos públicos e pagamentos do governo
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
A crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) deixou de ser apenas um problema do sistema financeiro e passou a produzir efeitos diretos sobre a economia do Distrito Federal. Depois de tentar adquirir o Banco Master – instituição que posteriormente se tornou alvo de investigações por fraudes bilionárias – o banco estatal enfrenta dificuldades de liquidez, atrasou a divulgação de seus balanços, acumula multas dos órgãos reguladores e obrigou o Governo do Distrito Federal (GDF) a utilizar recursos públicos para manter a instituição funcionando.
Segundo informações reveladas pelo UOL e confirmadas por declarações do secretário de Economia do DF, Valdivino de Oliveira, o governo distrital manteve bilhões de reais do Tesouro depositados no BRB para garantir a liquidez da instituição. A medida ocorreu após o fracasso de uma operação financeira que previa a antecipação de até R$ 4 bilhões por parte da gestora Quadra, recursos que seriam utilizados para dar sustentação ao banco depois das operações envolvendo ativos do Master.
Na prática, a decisão teve impacto imediato sobre as contas públicas. Cerca de R$ 9 bilhões do orçamento do Distrito Federal permaneceram retidos para reforçar o caixa do BRB, reduzindo a disponibilidade de recursos para despesas correntes, investimentos e pagamentos já autorizados pelo governo. O bloqueio também aumentou a pressão sobre a execução orçamentária da administração distrital.
Caso a situação financeira do BRB se agrave, os efeitos podem atingir áreas muito além do sistema bancário. O banco administra bilhões de reais em depósitos judiciais e opera parte significativa da movimentação financeira do Governo do Distrito Federal. Uma eventual intervenção ou liquidação poderia obrigar o GDF a recompor aproximadamente R$ 30 bilhões referentes a depósitos judiciais, além de provocar perdas que especialistas estimam superar R$ 50 bilhões em todo o sistema financeiro.
A crise também compromete a credibilidade da instituição. O BRB deixou de publicar, dentro do prazo legal, suas demonstrações financeiras de 2025 e passou a sofrer multas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central. O atraso, superior a três meses, já teria levado a penalidades próximas do teto previsto na legislação, estimadas em cerca de R$ 3 milhões. Além do impacto financeiro, a ausência dos balanços aumenta a insegurança de investidores e pode resultar em sanções mais severas, incluindo a suspensão do registro de companhia aberta caso a irregularidade persista.
Como começou o negócio com o Master
A origem da crise remonta a março de 2025, quando o BRB anunciou a intenção de adquirir 58% do capital do Banco Master em uma operação estimada em cerca de R$ 2 bilhões. A direção do banco defendia que a aquisição fortaleceria sua presença nacional e ampliaria sua carteira de clientes.
Desde o anúncio, entretanto, a negociação despertou forte desconfiança. O Ministério Público do Distrito Federal abriu investigação, o Ministério Público de Contas questionou a legalidade da operação e a Justiça chegou a suspender temporariamente a assinatura do contrato. Embora a liminar tenha sido posteriormente derrubada, a compra permaneceu condicionada à aprovação do Banco Central.
Ao longo dos meses seguintes, surgiram novas informações sobre a qualidade dos ativos do Master e sobre operações bilionárias realizadas entre as duas instituições. Em setembro de 2025, o Banco Central rejeitou definitivamente a aquisição, apontando risco de sucessão e problemas prudenciais. Poucos meses depois, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, estimando em cerca de R$ 12 bilhões as fraudes envolvendo ativos do Banco Master. Posteriormente, a instituição entrou em liquidação extrajudicial determinada pelo próprio Banco Central.
As investigações também apontaram que o BRB havia adquirido mais de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master antes mesmo da conclusão da operação societária, negócios que hoje são alvo de auditorias internas, da Polícia Federal, do Ministério Público e de ações judiciais. O próprio BRB reconheceu a necessidade de responsabilizar dezenas de dirigentes envolvidos na negociação, segundo comunicados enviados ao mercado.
Fábio Felix cobra transparência
Desde o anúncio da aquisição, o deputado distrital Fábio Felix (PSOL) tornou-se um dos principais críticos da operação. O parlamentar protocolou representações junto ao Ministério Público de Contas do Distrito Federal, solicitou investigação sobre possíveis prejuízos aos cofres públicos e passou a cobrar transparência da direção do banco e do governo distrital.
Com o aprofundamento da crise, Fábio Felix intensificou a pressão na Câmara Legislativa. Durante reunião da Comissão de Constituição e Justiça, criticou a ausência do novo presidente do BRB para prestar esclarecimentos e defendeu que a população tem direito de conhecer a real situação financeira da instituição.
“Queremos saber qual é a real situação do BRB. É isso que as pessoas estão perguntando nas ruas.”
O parlamentar também participou das articulações que levaram à convocação obrigatória do presidente do banco para explicar as operações envolvendo o Master, os impactos sobre o patrimônio público e os riscos para os serviços prestados pelo BRB à população do Distrito Federal.
Banco público sob pressão
A crise provocou ainda um amplo processo de responsabilização interna. Após auditorias independentes conduzidas pelos escritórios Machado Meyer e Kroll, o BRB encaminhou relatórios à Polícia Federal apontando indícios de irregularidades nas operações realizadas com o Banco Master. A instituição também afastou dirigentes ligados às negociações e passou a buscar formas de recompor sua liquidez, incluindo a venda de carteiras de crédito e negociações para obter financiamento junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Para entidades representativas dos bancários, o episódio representa um dos momentos mais delicados da história do BRB. Além dos prejuízos financeiros, a crise atingiu a confiança na principal instituição financeira pública do Distrito Federal e alimentou preocupações sobre possíveis iniciativas de privatização ou de redução do papel estratégico desempenhado pelo banco na economia local.