Crise no STF marca semana eleitoral
Ação pró-bolsonarista de Mendonça, caso Master, Dark Horse e pesquisas acirradas colocam relações entre o Judiciário e a burguesia no centro da campanha
Foto: Ministros Flávio Dino, André Mendonça, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. (Alejandro Zambrana/STF)
A semana termina com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) ocupando o centro do debate político e eleitoral. A atuação seletiva de André Mendonça, operando para favorecer o bolsonarismo através de vazamentos seletivos e do afastamento de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, ocuparam as manchetes assim como as respostas de Flávio Dino (que reestituiu Andrei no cargo) e o silêncio de Alexandre de Moraes, um dos pivôs da crise.
Nesse contexto de pressão, o presidente do STF, Edson Fachin, tomou uma medida de preservação e retirou parte do sigilo do inquérito sobre o Master, manteve Andrei Rodrigues no cargo e tirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news. Já o inquérito sobre o filme Dark Horse, que pode complicar profundamente a situação de Flávio Bolsonaro e está sob a relatoria de Dino, continua sob segredo de justiça.
Ao mesmo tempo, novas pesquisas apontaram o crescimento do candidato bolsonarista, reflexo das últimas movimentações da crise, e acirram ainda mais a disputa Lula e Flávio. De outro lado, a PF voltou a colocar o caso Dark Horse no centro do noticiário, enquanto as novas revelações sobre Vorcaro envolvem ainda mais diretamente também o ex-ministro de Bolsonaro, Fábio Faria, além também de Dias Toffoli.
A crise que chegou ao Supremo
A tensão dentro do STF se agravou depois da decisão de André Mendonça de afastar Andrei Rodrigues. A suspensão da medida por Dino e a intervenção de Fachin tentaram conter a escalada. Ao retirarMoraes a relatoria do inquérito das fake news e suspender decisões conflitantes de Mendonça e Dino relacionadas à direção da PF, o presidente do STF tentou estancar a crise que, porém, continua.
Combinado com Fachin, Mendonça retirou o sigilo de 14 procedimentos relacionados ao caso Banco Master, atendendo a pedido de Fachin, incluindo documentos e diálogos envolvendo Vorcaro e Moraes. O STF marcou para a próxima semana uma sessão para analisar parte dos desdobramentos do caso.
A situação passou a provocar cobranças públicas por transparência. Na quarta-feira, Lula defendeu a divulgação dos dados da investigação e criticou o que chamou de “vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral”.
A crise também produziu um efeito político evidente: decisões judiciais passaram a ser interpretadas imediatamente à luz da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Banco Master no centro da campanha
O Banco Master tornou-se uma das principais pontes entre a crise do STF e a eleição presidencial. Vorcaro aparece em diferentes investigações e manteve relações com políticos e autoridades. O caso ganhou dimensão eleitoral especialmente por causa das informações sobre recursos destinados ao filme Dark Horse e da relação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro.
A campanha bolsonarista passou a enfrentar questionamentos sobre a origem dos recursos utilizados na produção do longa. Ao mesmo tempo, a extrema direita utiliza a relação entre Vorcaro e Moraes para questionar a atuação do Supremo e debilitar a campanha de Lula
Nessa disputa cruzada, a oposição utiliza o caso para atacar o STF, enquanto o campo governista explora as relações de Flávio com Vorcaro e o financiamento do filme. Entretanto, há uma total assimetria entre os lados, já que existem muito mais evidências das relações de Flávio com o banqueiro preso do que de Lula.
PF volta a mirar Dark Horse
Na quinta-feira (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, que cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados e no Distrito Federal.
Entre os alvos estão o deputado Mario Frias (PL-SP) e Karina Gama, ligada à produção de Dark Horse. A PF investiga suspeitas de irregularidades na destinação de emendas parlamentares a organizações da sociedade civil que teriam ligação com a produção do filme.
Frias destinou R$ 1 milhão em emenda ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama. Segundo as investigações, o projeto para o qual o dinheiro foi destinado não teria sido executado. A operação também apura suspeitas de lavagem de dinheiro e irregularidades em contratos envolvendo empresas relacionadas às entidades investigadas.
Segundo a PF, há suspeita da existência de “uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados”, que teria direcionado valores para empresas subcontratadas de maneira irregular.
Desta forma, o caso Dark Horse também volta ao centro da campanha presidencial justamente no momento da ofensiva de Flávio Bolsonaro, tornando a situação ainda mais incerta.
Pesquisas mostram disputa apertada
O cenário eleitoral também ganhou novos números durante a semana.
Levantamentos divulgados nos últimos dias mostraram uma disputa bastante próxima entre Lula e Flávio Bolsonaro. Pesquisa Meio/Ideia apontou 38,4% para Lula e 37,3% para Flávio no primeiro turno, dentro da margem de erro. Outro levantamento, da Palver, também mostrou os dois próximos.
A AtlasIntel/Bloomberg apresentou números diferentes, com Lula à frente no primeiro turno, mas também registrou uma disputa apertada em simulações de segundo turno.
As diferenças entre os institutos mostram que ainda há elevada volatilidade no cenário. Mais do que apontar um favorito, os levantamentos reforçam que a eleição entrou em uma fase de forte competitividade, com o eleitorado ainda sujeito a mudanças durante a campanha.
7 de Setembro virou disputa política
O feriado da Independência também foi incorporado à disputa. Flávio Bolsonaro adotou discurso de confronto com o governo e o STF durante manifestação em São Paulo. Lula, por outro lado, participou das cerimônias oficiais em Brasília e utilizou o evento para defender soberania nacional e institucionalidade.
A diferença de estratégia foi interpretada pela imprensa como parte de uma disputa mais ampla sobre qual tema deverá dominar a campanha: de um lado, o enfrentamento ao Supremo e a defesa de pautas associadas ao bolsonarismo; de outro, a defesa da democracia e a tentativa de deslocar o debate para questões econômicas e sociais. Enquanto a extrema direita utiliza-se dos algoritmos das big techs para gerar desinformação, o governo também apresenta dificuldades em sua narrativa porque os tais temas sociais não são tão simples de tratamento, afinal a inflação e o endividamento continuam golpeando o cotidiano das famílias trabalhadoras.
Nesse cenário, a possível aprovação do fim da escala 6×1 antes do 2º turno, fato que teria sido prometido por David Alcolumbre ao relator do projeto, Omar Aziz, pode se configurar num trunfo para Lula às vésperas da votação final. Por outro lado, a aposta do governo em colocar todas as fichas nas relações institucionais, e não na mobilização, é o que pode também por em risco o sucesso da proposta, o que geraria grande frustração e um provável efeito bumerangue para a campanha lulista.
O desafio para a campanha
As campanhas presidenciais começam a ser cada vez mais condicionada por acontecimentos que não estão sob controle direto dos candidatos. Investigações policiais, decisões do STF, divulgação de mensagens privadas e novas informações sobre o Banco Master podem alterar rapidamente o ambiente eleitoral.
O PT, segundo reportagem do UOL, pretende explorar eleitoralmente as informações envolvendo Dark Horse e Daniel Vorcaro, mas tenta evitar que a disputa seja transformada exclusivamente em um plebiscito sobre o STF. A estratégia seria levar o debate para temas como corrupção, segurança pública e questões sociais.
Já o campo bolsonarista tem utilizado a crise no Supremo para questionar a atuação de ministros e apresentar o episódio como exemplo de suposta politização do Judiciário. Da mesma forma, Flávio também aposta cinicamente no aumento do custo de vida para desconstruir o ufanismo oficialista, postura que infelizmente é verdadeira.
Uma eleição cada vez mais judicializada
A semana deixa um diagnóstico claro: a eleição de 2026 não está sendo disputada apenas nas ruas, nas redes sociais ou nas pesquisas. Ela também está sendo travada nos tribunais e nas investigações policiais.
O caso Banco Master aproximou o STF da campanha. A operação contra pessoas ligadas a Dark Horse aproximou a investigação sobre emendas da candidatura de Flávio Bolsonaro. E a própria disputa entre ministros passou a produzir consequências eleitorais.
Com a corrida presidencial apertada e ainda distante da definição, cada decisão judicial, investigação ou revelação envolvendo os principais grupos políticos tende a ganhar imediatamente uma dimensão eleitoral. A próxima semana promete manter o STF no centro do furacão: o plenário deverá analisar os desdobramentos do caso Master, enquanto as investigações sobre o filme e suas fontes de financiamento continuam avançando.
Nesse sentido, é preciso atacar diretamente a seletividade pró-bolsonarista de Mendonça, mas de modo algum relativizar as relações de Moraes, Toffoli e outros magistrados com as altas cúpulas da burguesia. Nesse sentido, somente a mobilização por questões concretas da vida do povo pode tirar a campanha de Lula da encalacrada atual, especialmente em suas esferas econômicas. Mas a luta contra a corrupção, abrangendo ações contra todos os corruptos e corruptores, também faz parte destas questões concretas porque é sentida diretamente por amplas camadas da população.