Chile: pinochetista Kast ignora atos em memória do golpe contra Salvador Allende
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Chile: pinochetista Kast ignora atos em memória do golpe contra Salvador Allende

Governo de extrema direita decide não participar de atos em lembrança ao golpe de 11 de setembro de 1973, que derrubou Allende há 53 anos

Libio Pérez Zúñiga 11 set 2026, 12:22

Foto: Palácio de La Moneda bombardeado. (Presidencia de Chile/Reprodução)

Via Diario Red

O presidente chileno José Antonio Kast se incomoda com a data de aniversário do golpe de Estado que derrubou — em 11 de setembro de 1973 — o governante socialista Salvador Allende. Férreo defensor do ditador Augusto Pinochet, Kast chega aos 53 anos da destruição da democracia com promessas não cumpridas a seus partidários, como os indultos aos criminosos presos por delitos contra a humanidade cometidos durante os 17 anos que durou a ditadura civil-militar.

Pela primeira vez desde o fim da ditadura e a chegada dos governos civis, não haverá atos oficiais que relembrem a figura de Allende, os mortos em La Moneda durante o ataque combinado por ar e terra, assim como os milhares de vítimas deixadas pela repressão desde os primeiros dias do assalto ao poder por parte dos militares.

Kast sequer tem previsto participar do ato ecumênico realizado a cada aniversário do golpe, apesar de ser um católico conservador que frequenta a missa diariamente. Muito menos sairá do palácio presidencial e caminhará alguns metros para prestar homenagem ao presidente deposto, que perdeu a vida naquele terça-feira, 11 de setembro, quando a sede do governo sofreu um devastador bombardeio aéreo que antecedeu a ofensiva terrestre com tropas, tanques e veículos blindados.

“Como presidente da República, vou estar atuando nas regiões. Valorizo que as datas não sejam esquecidas porque fazem parte da nossa história”, disse Kast, acrescentando que “se alguém solicitar que a missa (matinal realizada no Palácio de La Moneda) daquele dia, sexta-feira, seja dedicada a essa intenção, não há problema. Todas as sextas-feiras é realizada uma cerimônia litúrgica e não temos nenhum problema em que se reze nesse dia, mas nós estamos rezando pelo Chile de hoje e do futuro (…). Não (haverá nenhum ato do governo), nenhum”, reiterou.

Durante suas três campanhas à presidência do Chile, Kast afirmou que indultaria os responsáveis pelos mais de três mil assassinatos por execuções sumárias e desaparecimentos forçados, assim como pelas dezenas de milhares de pessoas que foram sequestradas e submetidas a torturas em centros secretos de detenção.

A proposta levantada pela extrema direita consiste em criar uma legislação que permita que o restante das penas dos mais de duas centenas de ex-agentes seja cumprido em seus domicílios, levando em consideração a idade avançada desses indivíduos e a presença de doenças crônicas. Mas Kast, diante de uma crescente perda de capital político e de apoio da população à sua gestão, optou por não seguir um caminho que modifique as condenações dos repressores, que solicitaram um “gesto” do governante neste aniversário da derrubada de Allende.

Desafiador, o ex-agente e alto oficial dos organismos repressivos Miguel Krassnoff Martchenko, condenado a mais de mil anos de prisão em mais de 80 processos por crimes contra a humanidade, colocou em circulação uma carta dirigida ao senador democrata-cristão Iván Flores, que, em discurso no Congresso, afirmou: “não estou disposto a que Krassnoff saia da prisão”.

O criminoso em massa afirmou em sua carta: “Saiba que, assim como meus camaradas de prisão, não preciso de perdões, misericórdia, favores e muito menos de leis especiais para ter minha liberdade”, escreveu, acrescentando que espera apenas que sejam aplicadas as leis vigentes.

Kast também evitou se referir a eventuais indultos aos policiais e militares condenados por violações dos direitos humanos cometidas durante a revolta popular de 2019, quando, na repressão às mobilizações, foram aplicadas torturas, abusos sexuais e mutilações contra pessoas, principalmente nos mais de 400 casos de pessoas que perderam os olhos.

Mais de 20 mil pessoas marcharam no último domingo, 6 de setembro, pelas ruas do centro da capital chilena para lembrar o golpe militar, homenagear as vítimas da repressão e, sobretudo, sob a palavra de ordem de rejeição a qualquer indulto aos repressores do passado e aos mais recentes.

Se a comemoração do golpe de Estado e a rejeição aos 17 anos de ditadura geram fortes tensões entre os chilenos, a reivindicação do pinochetismo por parte do presidente argentino Javier Milei durante o Foro Madrid, realizado no último dia 3 de setembro em Santiago, apenas agravou o conflito. O nacional-libertário atacou “o comunista Allende” e chamou os militantes da esquerda chilena de “esquerdistas imundos”. Com notórias imprecisões históricas, Milei afirmou que “o Chile é um lugar emblemático porque, com sua história recente, nos lembra o imenso valor de travar a batalha cultural.

Após a derrubada do comunista Allende, o Chile entrou em um período de estabilidade e crescimento que se estendeu por mais de 40 anos”. Apesar da rejeição de um amplo arco político às palavras de Milei, Kast e o governo optaram por não comentar os insultos do governante argentino.

E isso ocorre porque Allende foi um presidente socialista que chegou a La Moneda impulsionado por um processo democrático e por mobilizações populares, conquistando apoio crescente durante o breve período de seu governo. A Unidade Popular — a coalizão de esquerda de Allende — venceu a eleição de 1970 com mais de 36% dos votos, obteve sua ratificação no Congresso naquele mesmo ano e, nas eleições parlamentares de março de 1973 — seis meses antes do golpe — alcançou 44,6% dos votos. Os votos obtidos por Allende e pela Unidade Popular não foram as causas do golpe de Estado.

A derrubada de Allende começou a ser planejada antes mesmo de ele vencer as eleições. A conspiração teve início com uma aliança entre grandes empresários chilenos — como Agustín Edwards, proprietário do jornal El Mercurio — e o governo dos Estados Unidos, que financiaram operações de desestabilização, como o assassinato do chefe do Exército, general René Schneider, e posteriormente ações violentas ao longo dos três anos do governo popular.

Em 1972, a direita financiou uma greve de caminhoneiros que paralisou a economia do país e, posteriormente, em junho de 1973, realizou o ensaio geral do golpe, no episódio conhecido como “tanquetazo”, uma manobra militar que ocupou com tanques o centro de Santiago e evidenciou a estratégia de defesa popular do governo de Allende.

Com Pinochet aderindo à rebelião de última hora, dois meses depois, em 11 de setembro de 1973, desencadeou-se a fúria contrarrevolucionária. Dezenas de focos de resistência em Santiago e nas regiões não conseguiram conter a violência militar, abrindo caminho para a maior derrota popular. O processo de transformações liderado por Allende foi interrompido, e a esquerda teve milhares de mortos e desaparecidos.

Na quarta-feira, uma deputada de direita perguntava diante das câmeras de televisão: “é necessário comemorar esta data que divide os chilenos depois de 53 anos?”. Atos no túmulo de Allende, homenagens em seu monumento na praça diante de La Moneda e milhares de manifestações em todo o país lembram à população, nesta sexta-feira, que as memórias continuam vivas e, embora a extrema direita governante diga que “é preciso olhar para o futuro”, o presidente socialista e a adesão ao seu projeto resistem a cair no esquecimento.


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