Escolha de vice de Flávio agrada Arthur Lira, mas demonstra isolamento
Alfredo Gaspar

Escolha de vice de Flávio agrada Arthur Lira, mas demonstra isolamento

Indicação de Alfredo Gaspar foi última opção do bolsonarismo e candidato é cercado por investigações – inclusive de estupro de vulnerável

Foto: Agência Câmara

Nessa última quarta-feira (5), Flávio Bolsonaro anunciou o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente de sua chapa. Com uma carreira na promotoria alagoana baseada na defesa da violência policial, o deputado foi secretário de Segurança Pública do governador Renan Filho – aliado de Lula – e é investigado por estupro de vulnerável por supostamente manter relações com uma menina de 13 anos.

Anunciado com certa surpresa, Gaspar foi a última opção da campanha bolsonarista. Até o prazo final da escolha, o PL buscava a composição com algum partido do Centrão ou algum nome feminino para a chapa, especialmente após o desgaste público gerado pelo conflito entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Porém, com outros partidos da direita confirmando a neutralidade nas eleições nacionais e sem perspectivas de alguma candidata mulher que ampliasse a campanha, sobrou Gaspar para Flávio.

Durante meses, integrantes da campanha afirmaram que a prioridade era encontrar uma mulher para a vice-presidência. O objetivo era reduzir a rejeição do eleitorado feminino ao bolsonarismo e ampliar o alcance da chapa para além do núcleo mais fiel da extrema direita. Nomes como a senadora Tereza Cristina (PP-MS) chegaram a ser especulados, enquanto também houve expectativa em torno da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), embora ela enfrentasse resistências dentro da própria campanha. Entretanto, ambos os nomes eram criticados pelos setores mais duros da extrema direita e nenhuma dessas alternativas prosperou.

Perante o isolamento, um movimento para Arthur Lira

A definição de Gaspar ocorre depois de sucessivas dificuldades da campanha para atrair partidos que tradicionalmente compõem o chamado Centrão. Ao contrário das expectativas alimentadas no início da pré-campanha, Flávio não conseguiu construir uma coligação ampla. União Brasil, Progressistas, Republicanos e Podemos optaram por não integrar sua chapa presidencial, reduzindo o tempo de propaganda eleitoral e limitando o alcance político da candidatura.

Ao final das negociações, Flávio recorreu a um nome do próprio Partido Liberal, abandonando a estratégia de ampliar alianças e optando por um aliado identificado com a ala mais conservadora da legenda. Tal movimento também foi uma sinalização direta para Arthur Lira (PL-AL), o ex-presidente da Câmara do mesmo partido e que competiria com o correligionário por uma vaga para o Senado em outubro. A indicação de Gaspar para a vice de Flávio o retira da campanha para senador e praticamente garante a vaga de Lira na próxima legislatura.

Ao mesmo tempo, o PL indica Gaspar apostando em sua projeção nacional ao atuar como relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. Perante as atuais suspeitas ao redor do filho do presidente Lula, a indicação de Gaspar busca atingir um dos flancos da campanha lulista.

Quem é Alfredo Gaspar?

A indicação de Gaspar, entretanto, também leva para o centro da campanha presidencial uma série de investigações e controvérsias envolvendo o deputado.

Em março deste ano, parlamentares da base do governo apresentaram à Polícia Federal uma notícia-crime pedindo a abertura de investigação contra Alfredo Gaspar pela suposta prática de estupro de vulnerável. A representação teve como base depoimentos e documentos reunidos por deputados e senadores. Até o momento, não há condenação nem denúncia criminal aceita pela Justiça sobre esse caso, mas segundo a acusação, o deputado teria estuprado uma adolescente de 13 anos em uma violência que teria resultado em gravidez na qual a criança teria sido registrada como filha da avó, ocultando a identidade da vítima e de Gaspar.

O deputado também é alvo de um processo e fiscalização no Tribunal de Contas da União (TCU), que apura a destinação de recursos de emendas parlamentares para municípios alagoanos. O procedimento investiga possíveis irregularidades na aplicação das verbas públicas, mas ainda não houve decisão definitiva nem responsabilização do parlamentar.

Além disso, Gaspar já foi alvo de questionamentos em diferentes momentos de sua trajetória pública por decisões tomadas durante sua passagem pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas e pelo Ministério Público estadual. Embora muitas dessas controvérsias tenham repercutido politicamente, elas não resultaram, até o momento, em condenações judiciais.

Dobrando a aposta na resiliência da extrema direita

A escolha de Alfredo Gaspar também representa uma mudança de estratégia da campanha. Ao longo dos últimos meses, interlocutores de Flávio sustentavam que uma mulher na vice-presidência ajudaria a suavizar a imagem do candidato entre eleitoras e setores moderados do eleitorado. O plano fracassou.

Sem conseguir atrair lideranças femininas de expressão nacional e sem ampliar sua coalizão, a campanha acabou apostando na resiliência do núcleo duro do bolsonarismo, optando por um aliado de perfil semelhante ao do próprio candidato: oriundo da área da segurança pública, identificado com pautas punitivistas e alinhado ideologicamente à extrema direita.

A definição da chapa também evidencia as dificuldades enfrentadas por Flávio Bolsonaro para repetir a ampla coalizão construída por Jair Bolsonaro em 2022.

Além da redução do apoio partidário, a campanha tem convivido com desgastes sucessivos, entre eles o impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros – episódio apelidado por adversários de “Tariflávio” diante da proximidade política entre a família Bolsonaro e o presidente norte-americano, Donald Trump -, os conflitos internos da coordenação eleitoral e o desgaste provocado pelas restrições impostas pela Justiça ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nesse cenário, Alfredo Gaspar chega à chapa não como resultado de uma ampla adesão política do Centrão, mas como a solução possível para uma campanha que terminou o período de articulações mais isolada do que previa meses atrás. A escolha preserva a unidade do núcleo bolsonarista, aprofunda o perfil neofascista da candidatura e coloca no centro da disputa um vice que tenta atingir a campanha de Lula em seu ponto mais frágil até o momento.


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