Hitler como exemplo de liderança: o preocupante episódio na educação de SP
Dirigente de ensino de Mogi das Cruzes recomendou biografias de Hitler e Mussolini a educadores, chamou o líder nazista de “excepcional” e acabou afastada; caso foi levado ao Ministério Público
Foto: Reprodução
A recomendação de biografias de Adolf Hitler e Benito Mussolini como leitura “estimulante” para o desenvolvimento de lideranças levou ao afastamento de uma dirigente da rede estadual de ensino de São Paulo e provocou uma reação que ultrapassou os limites da Secretaria da Educação. O caso, revelado pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, envolve Roselaine Batalha Silva, que ocupava a função de dirigente da Unidade Regional de Ensino de Mogi das Cruzes.
A fala ocorreu durante uma videoconferência realizada em 12 de agosto com educadores e diretores de escolas. Ao abordar o tema da liderança, Roselaine afirmou que seria “estimulante” ler biografias “mesmo dos maus” e citou, entre outros, Mussolini e Hitler.
“Podem ler biografias no geral, é estimulante ler biografia, mesmo dos maus. Salazar na Espanha, Mussolini na Itália”, disse a dirigente.
A referência a Salazar, porém, veio acompanhada de outro erro factual: António de Oliveira Salazar foi ditador de Portugal, e não da Espanha.
Na sequência, Roselaine mencionou Mein Kampf, livro escrito por Hitler, e foi além da simples recomendação de conhecer historicamente o nazismo.
“É tão estimulante [que] se eu tirar o nome, ele convence países, jovens e nós até hoje”, afirmou.
O trecho mais grave, contudo, veio quando a dirigente avaliou o próprio Hitler como liderança:
“Mas ele era um líder excepcional, isso ninguém pode negar”.
Não se trata, portanto, de uma professora apresentando o nazismo como objeto de estudo histórico. A questão é outra: uma dirigente responsável por orientar a rede pública de ensino utilizou um dos maiores responsáveis por crimes contra a humanidade como referência positiva para discutir liderança com profissionais da educação.
O problema não é estudar Hitler. É apresentá-lo como modelo
É perfeitamente legítimo – e necessário – estudar Hitler, Mussolini, o nazismo e o fascismo nas escolas. Conhecer os mecanismos que permitiram a ascensão de regimes totalitários, a perseguição política, o racismo de Estado, a propaganda, a destruição das instituições democráticas e o Holocausto é fundamental para a formação histórica e cidadã. O que causa indignação no episódio é justamente a inversão dessa perspectiva.
Hitler não precisa ser apagado dos livros. Precisa ser compreendido historicamente e criticado. O nazismo não deve ser tratado como uma cartilha de liderança da qual educadores possam extrair “estímulos” para conduzir suas equipes.
A fala da dirigente é particularmente problemática porque aparece em um contexto educacional: não foi uma manifestação privada ou uma conversa informal, mas uma reunião com profissionais responsáveis pela formação de crianças e adolescentes. E existe uma diferença gigantesca entre explicar como Hitler conseguiu mobilizar setores da sociedade alemã e dizer que ele foi um “líder excepcional”.
Mais um erro: Mein Kampf não é proibido no Brasil
A dirigente também afirmou que Mein Kampf teria sido proibido no Brasil. A informação está errada. Como registrou a Folha, a obra está em domínio público no país. A circulação do livro pode estar submetida a restrições específicas em determinadas situações ou legislações locais, mas não existe uma proibição nacional de sua reprodução.
O detalhe não é irrelevante. Ao mesmo tempo em que apresenta Hitler como um “líder excepcional”, Roselaine atribui ao livro uma condição jurídica que não existe. O resultado é uma combinação particularmente preocupante: elogio a uma liderança responsável por um dos regimes mais criminosos da história e informação incorreta sobre a obra que condensou parte de sua ideologia.
A reação da categoria e do Ministério Público
A APEOESP, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, apresentou representação ao Ministério Público de São Paulo contra a dirigente. Segundo a entidade, a utilização de Hitler na fala não ocorreu simplesmente como referência histórica, mas como parte de uma exposição sobre características de liderança, chegando à qualificação explícita do ditador como “líder excepcional”.
O caso foi encaminhado à Promotoria de Justiça da área de Educação de Mogi das Cruzes. O Ministério Público informou que os fatos serão investigados para a adoção das “medidas legais cabíveis”.
Diante da repercussão, a Secretaria da Educação de São Paulo determinou a “cessação da função de dirigente exercida pela servidora” e informou que abriu uma apuração para verificar os fatos e as circunstâncias das declarações.
A pasta também afirmou que “não compactua com manifestações que contrariem os princípios e valores que orientam a educação pública do Estado de São Paulo” e que a declaração “não representa, em hipótese alguma, o posicionamento da pasta”.
O afastamento é uma resposta necessária. Mas não encerra as perguntas.
Se uma dirigente regional de ensino, em uma reunião oficial com educadores, sente-se à vontade para recomendar Hitler e Mussolini como referências para pensar liderança, é preciso perguntar que concepção de educação e de gestão está sendo estimulada dentro da estrutura da Secretaria da Educação paulista. Também é necessário saber quais foram os critérios para sua escolha e permanência na função e se existem outros episódios semelhantes que ainda não vieram a público.
Não se pode transformar o afastamento de uma servidora em uma espécie de ponto final conveniente para um episódio que revela algo maior: a necessidade de vigilância permanente contra a normalização de ideias autoritárias dentro das instituições públicas.
A educação pública não pode normalizar o fascismo
Há uma diferença fundamental entre ensinar sobre o fascismo e normalizar seus representantes.
A escola deve formar estudantes capazes de compreender por que Hitler chegou ao poder, como o nazismo utilizou propaganda e perseguição política, como construiu uma máquina de extermínio e quais condições sociais e políticas permitiram sua expansão. Deve ensinar também que Mussolini foi o fundador do fascismo italiano e governou uma ditadura que destruiu liberdades democráticas.
Transformar esses personagens em exemplos de “liderança” é outra coisa.
Em um momento em que discursos autoritários e extremistas voltam a disputar espaço no debate público, a educação tem justamente a responsabilidade de oferecer instrumentos para que crianças e jovens reconheçam os perigos da intolerância, do culto ao líder, da desumanização do adversário e da destruição das instituições democráticas.
O episódio de Mogi das Cruzes, por isso, não deveria ser tratado apenas como uma fala absurda de uma dirigente que acabou afastada. Ele serve de alerta.
Hitler pode – e deve – ser estudado. Mussolini também. Mas como exemplos históricos do desastre produzido pelo autoritarismo, pelo fascismo, pelo racismo e pela destruição da democracia. Nunca como modelos de liderança. A escola pública brasileira precisa formar cidadãos críticos, não admiradores de ditadores. E esse deveria ser um princípio básico – e inegociável – de qualquer política educacional democrática.