Chega de fim do mundo, a gente quer é imaginar o começo – por uma plataforma política da imaginação!
E se o capitalismo acabasse amanhã? O livro que (re)ensina a sonhar. Sem supermercados, sem patrão, sem catraca: o manual da imaginação pós-capitalista
O livro “Imaginações Pós-Capitalistas” surge de uma percepção aguda: enquanto a esquerda tradicional se encontra imersa em um mar de pragmatismo, realismo distópico e catastrofismo ecológico, a extrema-direita ocupou com maestria o território da imaginação, oferecendo sonhos concretos, narrativas afetivas e promessas de futuro (ainda que reacionárias) que mobilizam multidões.
Diante disso, o livro se propõe a recolonizar o campo da utopia a partir de um gesto metodológico ousado: fazer perguntas a pesquisadoras, estudantes e escritoras que soam fora do comum, perguntas como: “é possível viver sem supermercados?”, “haverá transporte gratuito para todos?”, “o trabalho pode ser abolido?”, “como fica a arte depois do fim do capitalismo?”, “como se daria a relação com as drogas, com a saúde mental, com a religião num mundo emancipado?”.
Esse foi o método que encontramos para desnaturalizar as estruturas mais arraigadas do capitalismo, revelando que aquilo que tomamos como inevitável é, na verdade, uma construção histórica transitória e permeável à imaginação crítica.
Após um processo de mais de três anos, com diversas oficinas com jovens estudantes e idas e vindas envolvendo pedidos de textos para mais de 80 autoras renomadas de diversos campos do conhecimento, a obra ficou pronta.
A arquitetura interna da coletânea traz um materialismo ecológico inovador, colocando a alimentação e os corpos nutridos como ponto de partida e tenta dissolver a noção de progresso e desenvolvimento a partir do campo e dos sistemas agroalimentares, para só então adentrar a questão urbana, o direito à cidade e o extrativismo.
Em seguida, a coletânea tensiona o papel do Estado (que Estado teremos com a abolição do sistema do capital?), que oscila entre ser visto como garantidor de políticas públicas (habitação, transporte, arte) ou como uma estrutura a ser abolida em um horizonte pós-estatal.
O livro depois avança para a dissolução radical do tempo de trabalho abstrato, o questionamento da organização do trabalho capitalista ao mesmo tempo que traz a noção de suficiência, abrindo espaço para o que a sessão final chama de “pura vida”, onde se concentram debates sobre família, educação, drogas, religião, afetos, lazer e sociabilidade.
O método das oficinas: imaginar com os pés no chão
Metodologicamente, o grande diferencial do livro reside em seu caráter processual e coletivo, inspirado na pedagogia freiriana. A obra foi construída a partir de oficinas com estudantes de universidades públicas e secundaristas, nas quais se perguntava se eles já haviam imaginado um mundo pós-capitalista.
Foram duas grandes etapas. Em primeiro, os estudantes foram convidados a criticar textos encomendados a pesquisadoras do campo, exercitando a leitura crítica e identificando os limites e as potências daquelas elaborações.
Em seguida, eles próprios elaboraram capítulos, ensaios, imagens e produções artísticas (alguns foram aproveitados no livro) para responder às questões colocadas, partindo sempre de suas experiências cotidianas para alcançar sugestões críticas sobre uma sociedade pós-capitalista.
As oficinas revelaram a potência afetiva de imaginar juntos.
Em uma delas, por exemplo, os estudantes queimaram a lista de chamada da disciplina em que estavam envolvidos e criaram um “manifesto anti-escola”. Em outra, alunos de arquitetura coletaram folhetos imobiliários de Balneário Camboriú (a “Dubai brasileira” do agronegócio) e foram provocados a imaginar o que colocar em seu lugar.
Nessas diversas experiências, os jovens desbloquearam uma parte adormecida do cérebro e se propuseram a exercitar a imaginação, oferecendo novas tecnologias para essa sociedade futura, ou simplesmente alternativas em campos como moda, educação e saúde.
O processo, segundo eles, teve um caráter terapêutico e político, devolvendo-lhes um senso de agência que os levou a se organizar em coletivos e a assumir protagonismo sobre seu aprendizado.
O dilema escalar: do local ao planetário
As oficinas também trouxeram à tona a face mais difícil e incontornável desse exercício: como imaginar um mundo que não seja apenas a projeção do meu mundo particular? Como assegurar que uma experiência exitosa em uma comunidade específica (um quintal agroecológico, uma horta comunitária, um sistema de transporte gratuito em uma cidade média) possa ser ampliada para bilhões de pessoas mergulhadas em assimetrias profundas, sob o jugo da fome, da guerra e da migração forçada?
É uma ilusão pensar que os fragmentos imaginativos podem ser simplesmente somados ou replicados por contágio espontâneo, pois ao puxar um fio local, seja a produção de alimentos sem agrotóxicos, seja a gestão comunitária da água, imediatamente se desenrola o novelo das cadeias globais de dependência, da hierarquia entre nações e da herança colonial do subdesenvolvimento.
Não há, portanto, como escapar do debate sobre determinação, reciprocidade e dominação: a totalidade capitalista não é um agregado de micro-utopias, mas uma estrutura de poder que condiciona e limita os espaços de autonomia, impondo relações de extração e exploração que conectam o Sul Global ao Norte, o campo à metrópole, o trabalho informal ao fluxo financeiro internacional.
Nesse sentido, saídas como o isolacionismo comunitarista, que ignora as mediações internacionais e a dependência estrutural, ou o universalismo abstrato, que aplaina as diferenças e as histórias de exploração como se todos os pontos de partida fossem equivalentes, ajudam pouco a pensar os problemas reais.
No livro questionamos, portanto, se a “vida” pode realmente se tornar o centro da sociedade sem que antes se subverta a hegemonia da economia, e como isso seria possível em um planeta marcado pela escassez fabricada e pela abundância concentrada.
O pós-capitalismo não pode ser uma fuga para o local, mas exige a coragem de retomar o debate sobre a totalidade, sem cair no totalitarismo, e de enfrentar a complexa costura entre a escala do corpo, da casa, da cidade, da nação e do sistema interestatal.
Isso implica rediscutir o papel do Estado e da cooperação global sem os antigos dogmas, mas também sem a ingenuidade de acreditar que as boas práticas locais florescerão por osmose.
A imaginação pós-capitalista precisa incorporar a dolorosa mediação entre o desejo imediato e as determinações estruturais, perguntando-se o que significa universalizar o direito à moradia, à alimentação e ao lazer quando a produção de um simples medicamento depende de cadeias de suprimentos que atravessam três continentes e operam sob a lei do valor.
Essa tensão entre o local e o global, entre o fragmento e a totalidade, não é um obstáculo a ser removido, mas o próprio território fértil onde a imaginação crítica deve atuar, reconhecendo que a construção de um mundo pós-capitalista exige tanto a experimentação cotidiana quanto a disputa pelas instituições, pelos tratados internacionais e pelos mecanismos de redistribuição planetária.
O livro como intervenção política (sem programa pronto)
Politicamente, o livro intervém nas esquerdas brasileiras como uma espécie de antídoto contra o que Mark Fisher chamou de “realismo capitalista”, a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Ao mesmo tempo, ele tensiona o chamado “ecossistema político” da esquerda contemporânea, que elegeu a nação, o estado e trabalho como categorias centrais, justamente os pilares que a obra se esforça para dissolver.
Em diversos lançamentos do livro, os debatedores apontaram que ele reaviva um debate sobre sujeitos sociais e práticas que foram atropelados pela história recente e pela emergência de novos atores políticos tanto da extrema direita, como da esquerda.
No entanto, o livro não oferece um programa pronto, ele se recusa a ser um manual de boas práticas para o próximo candidato de esquerda.
Em vez disso, assume abertamente suas contradições, como a oscilação entre o anarcocomunitarismo local e a aposta em políticas públicas estatais, ou entre a pluralização das formas familiares e o abolicionismo radical do patriarcado ou do consumo de carne.
Mas, se precisasse resumir, a essência do livro pode ser condensada em cinco dimensões do horizonte pós-capitalista.
Uma primeira dimensão do horizonte pós-capitalista diz respeito à reconstrução da esperança em uma época marcada pela expectativa da catástrofe. A juventude atual cresceu sob o signo da crise permanente. Diferentemente de gerações que, apesar dos conflitos de seu tempo, podiam associar o futuro a ideias de progresso, expansão de direitos ou melhoria das condições de vida, muitos jovens são hoje socializados em um ambiente no qual o amanhã aparece como ameaça.
O colapso climático, a dificuldade de inserção profissional, o encarecimento da moradia, a precarização dos vínculos comunitários e a disseminação do sofrimento psíquico produzem um sentimento de bloqueio histórico, como se as possibilidades de transformação estivessem cada vez mais estreitas.
Nesse contexto, recuperar a esperança não é ingenuidade, mas uma necessidade política: nenhuma ação coletiva de grande alcance emerge de uma sociedade convencida de que nada pode mudar. A esperança precisa, portanto, ser cultivada socialmente por meio da construção de horizontes compartilhados capazes de mobilizar desejos, afetos e expectativas.
Uma segunda dimensão refere-se à desmercantilização da vida
Uma das características fundamentais do capitalismo é a transformação sistemática das necessidades humanas em mercadorias. Comer, morar, deslocar-se, estudar, cuidar da saúde ou acessar bens culturais tornam-se atividades mediadas pelo mercado e subordinadas à capacidade individual de pagamento.
Embora essa dinâmica seja frequentemente apresentada como natural e inevitável, ela é resultado de processos históricos e, portanto, pode ser transformada. Os debates presentes no livro partem justamente da pergunta sobre quais dimensões da vida deveriam permanecer submetidas à lógica mercantil e quais poderiam ser reorganizadas segundo princípios de cooperação, gratuidade e uso comum.
Trata-se de deslocar a discussão da eficiência econômica para a reprodução da vida, fazendo com que direitos fundamentais deixem de ser oportunidades de negócio e passem a expressar nossa interdependência coletiva.
Uma terceira dimensão diz respeito à democratização do tempo social e à redefinição do lugar do trabalho em nossas vidas
Embora as transformações tecnológicas tenham elevado enormemente a produtividade, milhões de pessoas continuam submetidas a jornadas extenuantes, empregos precários e insegurança econômica, enquanto cresce o desemprego estrutural associado à automação e à reorganização dos processos produtivos.
Torna-se, assim, evidente que o problema central não é a escassez de capacidade produtiva, mas a forma como seus resultados são apropriados e distribuídos.
Um horizonte pós-capitalista exige imaginar uma sociedade em que o trabalho deixe de ocupar o centro absoluto da existência e os ganhos tecnológicos possam ser convertidos em mais tempo livre, cuidado, cultura e participação democrática.
O sucesso coletivo deixaria de ser medido pelas horas trabalhadas ou pelo crescimento incessante da produção e passaria a ser avaliado pela capacidade de garantir vidas dignas, criativas e socialmente integradas.
A quarta dimensão está associada à reconstrução de uma relação sustentável entre sociedade e natureza.
A crise ecológica revelou os limites de um modelo civilizatório fundado na ideia de crescimento infinito.
O aumento das temperaturas, a perda de biodiversidade, a devastação de ecossistemas e a intensificação dos eventos climáticos extremos demonstram o choque entre a racionalidade econômica dominante e as condições materiais que sustentam a vida. Reduzir esse desafio a uma questão técnica, porém, seria insuficiente.
Não bastará substituir fontes de energia ou tornar processos produtivos mais eficientes se permanecer intacta a lógica de acumulação que impulsiona a exploração incessante dos recursos naturais.
A transição ecológica precisa ser, portanto, também social, política e cultural, reorganizando não apenas o modo como produzimos, mas nossa relação com o território, os bens comuns e as gerações futuras.
Por fim, uma quinta dimensão refere-se à radicalização da democracia material
A erosão da confiança nas instituições tradicionais e o fortalecimento de discursos autoritários revelam uma contradição mais profunda entre a promessa democrática de autogoverno e a crescente concentração de poder econômico, tecnológico e informacional.
Imaginar um horizonte pós-capitalista implica pensar formas de democracia que ultrapassem a representação eleitoral periódica e alcancem os espaços onde decisões fundamentais são tomadas: locais de trabalho, espaços de cuidado, sistemas tecnológicos, planejamento urbano, políticas energéticas e gestão dos recursos coletivos.
A democratização da vida social exige que a cidadania deixe de ser exercida apenas ocasionalmente e se converta em prática cotidiana.
Mas o principal legado de Imaginações pós-capitalistas talvez esteja justamente nessa aposta na potência da imaginação coletiva.
Assim, a falta de uma agenda programática perfeitamente desenhada, longe de ser uma fraqueza, é vista como um convite à experimentação concreta, como exemplifica o capítulo escrito em esperanto (!) pela Taylisi, que narra uma história de amor sem gênero nem raça definidos, ambientada no ano 187 da emancipação, e que arrancou aplausos e comoção em diversos lançamentos, justamente por não oferecer respostas, mas por criar um mundo habitável onde o leitor deseja morar.
Os desafios do “como” e a aposta no processo
Os desafios práticos da transição, as estratégias, o famoso “como”, portanto, permanecem em aberto, e nós, organizadores e autoras, não fazemos questão de esconder isso.
Pelo contrário, apontamos para os traumas históricos que bloqueiam a imaginação em larga escala, como o colapso das experiências socialistas do século XX e a sensação generalizada entre os jovens de que viverão pior do que seus pais.
Para lidar com isso, o livro e as oficinas apostam na ideia de que o processo de imaginar coletivamente já é, em si mesmo, uma forma de organização e de construção de contra-hegemonia cultural.
Os gestos realizados pelos estudantes, queimar a lista de chamada, criar manifestos, propor novas tecnologias, ainda que catárticos, abrem espaço para a construção de novas paisagens urbanas e educacionais, longe do totalitarismo dos tecnocratas de políticas públicas (que podem sempre descambar pra extrema direita), mas também distantes do niilismo pós-moderno.
A lição extraída é que a imaginação não é um luxo especulativo, mas uma necessidade prática para superar o beco sem saída em que o progressismo se meteu.
A única maneira de não se afogar no desespero é cultivar, deliberadamente, o desejo por um mundo onde a vida não seja subordinada ao valor, e onde a abundância técnica possa finalmente se traduzir em tempo livre, afeto e criação.
Um ponto de partida, não de chegada
O livro é apenas um ponto de partida, não de chegada. A ideia é multiplicar as oficinas em escolas públicas e privadas; criar podcasts (já que os jovens passam horas no trânsito e pediram esse formato); desenvolver disciplinas experimentais nas universidades (algumas já batizadas ironicamente de “indisciplinas”); e fomentar uma rede de imaginação crítica que dialogue inclusive com experiências internacionais, como a do historiador Jérôme Baschet e do sociólogo Laurent Jeanpierre, franceses que organizaram um livro de teor semelhante (Mondes Post-Capitalistes) na Europa quase ao mesmo tempo em que o nosso.
Link para o livro supracitado: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/662554-se-o-capitalismo-desaparecer-uma-infinidade-de-mundos-pos-capitalistas-o-sucedera-entrevista-com-jerome-baschet-e-laurent-jeanpierre
Nosso livro, lindo e com mais de 340 páginas, é uma delícia de ler, foi editado pela Hedra, é vendido por nós autores a estudantes e desempregados pelo preço simbólico de R$ 39,50 e nas livrarias e sites, inclusive o da editora, por R$ 79,00 (tente não comprar na Amazon, mas em última instância, vende lá também).
Apesar de ser vendida, a obra se propõe a ser acessível e a circular para além dos muros acadêmicos.
A mensagem final, ecoando as falas das autoras e de muitos debatedores ao longo dessa jornada de lançamento, é um chamado à ação política que não se furta às contradições da escala planetária.
Se o capitalismo continua a ser a força imaginativa mais potente e destrutiva da atualidade, capaz de construir arranha-céus, cidades inteiras e até planos de colonização de outros planetas, a tarefa urgente da esquerda é reinventar o sonho, sem medo de suas ambiguidades, sem a pretensão de controlar seus resultados, confiando que o movimento em si já é uma forma de resistência e de criação de mundo, e que a ponte entre o local e o global se constrói não com aço e cimento, mas com a matéria frágil e poderosa dos afetos, das alianças e da imaginação compartilhada.