Após morte de adolescente, ANPD suspende lives do Discord no Brasil
Agência aponta falhas graves na proteção de crianças e adolescentes; plataforma é alvo de denúncias envolvendo aliciamento, violência e incentivo à automutilação
Foto: Reprodução
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil, em uma medida preventiva que deverá ser cumprida em até três dias úteis. A decisão não tira a plataforma do ar: o bloqueio atinge a função de transmissão ao vivo e recursos equivalentes de compartilhamento de vídeo e permanecerá até que a empresa demonstre ter adotado medidas consideradas suficientes para proteger crianças e adolescentes.
A medida é resultado de uma investigação aberta pela ANPD em 7 de agosto para apurar possíveis violações ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). Na decisão, a agência afirma ter encontrado evidências “robustas de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes”.
O caso ganhou repercussão após a morte de uma menina de 13 anos, em Mato Grosso do Sul. Segundo as investigações policiais citadas nas informações que motivaram a fiscalização, adolescentes teriam utilizado o Discord e outras plataformas para atrair vítimas, disseminar discursos de ódio, promover radicalização e estimular comportamentos violentos. Em 4 de agosto, cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, foram apreendidos e um homem foi preso por suspeita de envolvimento no caso.
A primeira-dama Janja da Silva defendeu publicamente o bloqueio da plataforma depois do episódio.
“Não posso aceitar ver uma menina de 13 anos se mutilar ao vivo na internet, no Discord, se enforcar e morrer. Não consigo admitir um país desse”, afirmou.
Uma plataforma diferente das redes tradicionais
O Discord nasceu ligado ao universo dos jogos eletrônicos, mas se transformou em uma plataforma de comunicação utilizada também por comunidades de estudo, trabalho, entretenimento e relacionamento. Em vez de funcionar predominantemente por meio de um feed público, como Instagram ou TikTok, organiza os usuários em servidores, que podem conter canais de texto, voz e vídeo e ser públicos ou privados.
Essa arquitetura é justamente uma das dificuldades para a fiscalização. Comunidades podem ser fechadas e acessíveis apenas por convite, enquanto a moderação depende em parte dos administradores e usuários de cada servidor.
A própria ANPD apontou um problema adicional nas transmissões de vídeo: devido à arquitetura técnica adotada pelo Discord, a empresa não consegue acessar o conteúdo das transmissões de vídeo em tempo real da mesma maneira que poderia fazê-lo em serviços sem criptografia de ponta a ponta. Isso limita a utilização de mecanismos automatizados para detectar violações durante as lives.
É justamente essa combinação – ambientes privados, comunicação direta entre usuários, presença de menores e dificuldade de fiscalização em tempo real – que pode criar condições especialmente perigosas para crianças e adolescentes.
A SaferNet alerta que criminosos utilizam redes sociais, chats e outros espaços frequentados por jovens para praticar aliciamento sexual online. Nesses casos, o agressor pode construir uma relação de confiança com a criança, obter informações pessoais e tentar afastá-la dos adultos responsáveis.
Isso não significa que o Discord seja, por natureza, uma plataforma criminosa ou que todos os seus usuários estejam expostos a esse tipo de situação. Significa que uma ferramenta que permite comunicação privada entre desconhecidos, voz, vídeo e criação de comunidades fechadas exige mecanismos robustos de prevenção e proteção infantil.
As denúncias aumentaram
Dados apresentados pela SaferNet indicam que as denúncias envolvendo o Discord chegaram a 406 entre janeiro e julho de 2026, contra 264 no mesmo período de 2025 – aumento de 54%. A organização mantém no Brasil uma estrutura de denúncias de crimes cibernéticos e um canal de orientação destinado a crianças, adolescentes, pais e educadores.
O problema, portanto, não se resume ao caso que provocou a atual crise. A internet tem sido utilizada para uma série de crimes contra crianças e adolescentes, entre eles aliciamento sexual, chantagem, divulgação de imagens de abuso e exploração sexual e violência psicológica. A própria SaferNet destaca a necessidade de combinar proteção, educação digital e mecanismos de denúncia.
Discord contesta decisão
A empresa classificou a determinação como “prematura” e afirmou que ainda estava dentro do prazo para apresentar sua manifestação à ANPD.
“Recebemos a determinação da ANPD e estamos cuidadosamente analisando seu conteúdo. A caracterização do Discord feita pela ANPD não reflete a plataforma que construímos nem os investimentos que temos feito na segurança dos usuários”, afirmou a companhia.
O Discord também disse ter investigado o caso da adolescente de Mato Grosso do Sul e removido o servidor privado envolvido. Segundo a empresa, a investigação encontrou evidências de que a atividade criminosa havia sido coordenada em outras plataformas antes da criação do servidor e continuou nelas depois que os envolvidos foram banidos do Discord.
A empresa acrescentou que continua “cooperando com as autoridades policiais na investigação”.
Suspender não basta
A reação do poder público recoloca uma questão fundamental: quem deve arcar com o custo da segurança no ambiente digital?
Durante anos, grandes plataformas cresceram com modelos de negócio baseados na expansão acelerada de usuários, enquanto a proteção de crianças e adolescentes permaneceu frequentemente dependente de mecanismos internos das próprias empresas. O ECA Digital muda esse cenário ao estabelecer obrigações específicas e ampliar a capacidade de fiscalização do Estado.
A ANPD pode determinar outras sanções caso identifique irregularidades, incluindo multas de até R$ 50 milhões. A plataforma pode recorrer da decisão preventiva em até dez dias.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que simplesmente retirar uma plataforma do ar não resolve necessariamente o problema. O presidente da SaferNet, Thiago Tavares, afirmou que criminosos podem recorrer a VPNs ou migrar para outros serviços.
“Inclusive, isso tem um efeito contraproducente, porque você acaba disseminando o uso dessas ferramentas de contorno de bloqueios”, disse Tavares em entrevista ao G1.
A própria ANPD reconhece esse risco: uma eventual migração pode levar usuários para plataformas sem representação no Brasil, tornando ainda mais difícil a responsabilização.
O desafio, portanto, vai além do Discord. A proteção de crianças e adolescentes exige responsabilização efetiva das empresas, fiscalização pública, mecanismos de verificação etária, moderação adequada, canais de denúncia e educação digital. Não se trata de entregar a segurança de crianças ao mercado – nem de acreditar que uma simples proibição resolverá um problema que atravessa todo o ambiente digital.
A decisão contra o Discord é, nesse sentido, um teste para o ECA Digital e para a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer, também na internet, o princípio de que crianças e adolescentes têm direito à proteção integral.