Punitivismo já não une os brasileiros
presos2-1

Punitivismo já não une os brasileiros

Pesquisa nacional revela que população rechaça o crime e sente-se ameaçada, mas descarta ideias como “bandido bom é bandido morto”

Marcelo Phintener 17 ago 2026, 11:53

Foto: Cela lotada de presídio brasileiro. (Agência Brasil/Arquivo)

Via Outras Palavras

O debate sobre a segurança pública no Brasil contemporâneo é frequentemente mediado por um simulacro: a premissa de que o corpo social, sitiado pela violência urbana, clama de forma homogênea pela suspensão das garantias constitucionais e pela institucionalização da letalidade estatal. Esse consenso manufaturado colide frontalmente com a realidade empírica. Sob a ótica da sociologia urbana e da crítica da economia política da violência, investiga-se aqui a clivagem entre o discurso punitivista hegemônico — alavancado nas plataformas digitais e pela extrema-direita — e a racionalidade prática das classes trabalhadoras no espaço urbano. A análise dos dados empíricos da pesquisa nacional inédita do Instituto Sou da Paz em parceria com a Oma Pesquisa (maio de 2026) revela um cenário de alta complexidade sociológica: o medo opera como vetor de expropriação do tempo e confisco do rendimento real, sem, contudo, suprimir a surpreendente racionalidade jurídica que persiste na base da sociedade.

A escala espacial do medo e o confinamento do cotidiano

O primeiro aspecto que emerge dos dados diz respeito à dimensão espacial da insegurança. A percepção do risco não é uniforme; ela se reconfigura conforme o sujeito se desloca na malha urbana. A pesquisa capta esse fenômeno por dois indicadores complementares — a sensação de segurança e a percepção de violência —, que se movem em direções opostas conforme a escala, como sistematiza o Infográfico 1. Quanto mais amplo o território considerado, menor a segurança sentida e maior a violência percebida; quanto mais o olhar se aproxima do espaço vivido, o movimento se inverte. São duas faces do mesmo diagnóstico: a cidade enquanto totalidade passou a ser percebida como território hostil, ao passo que o microespaço imediato ainda preserva certo grau de familiaridade e controle.

Essa assimetria espacial explicita que a cidade, enquanto totalidade, passou a ser percebida como um território hostil. Para as classes trabalhadoras, cujas jornadas diárias demandam longos deslocamentos pendulares entre as periferias e os centros das grandes metrópoles, esse diagnóstico assume contornos de uma verdadeira crise estrutural.

A gradação da violência percebida não deve ser lida como um atenuante. Que a rua ainda preserve relativa familiaridade indica apenas que a proximidade com o entorno e com as pessoas reduz parcialmente a percepção de ameaça, sem eliminá-la: mesmo no espaço mais imediato, quase metade da população reconhece a presença da violência. O que a escala revela é que o medo opera de forma difusa e incorporada ao ambiente, e que a cidade como totalidade tornou-se irreversivelmente associada à hostilidade e ao risco. A violência, nesse quadro, é elemento estrutural do cotidiano urbano, moldando percepções e comportamentos ainda quando não se manifesta de forma direta.

O medo atua, fundamentalmente, como um mecanismo de controle social e confinamento do cotidiano — o que Henri Lefebvre já identificava como a expropriação do direito à cidade¹ —, limitando a circulação nos espaços públicos e cerceando as possibilidades de vida coletiva.

A mobilidade urbana e a expropriação do tempo

O dado mais alarmante da pesquisa sob a ótica do espaço urbano é que 57% da população alterou seus hábitos ou rotinas por medo da violência. Quando decompomos essa variável comportamental, a análise sociológica precisa abandonar a chave puramente psicológica para ingressar na economia política do espaço. O Infográfico 2 detalha como essa alteração se manifesta concretamente: 53% evitam sair à noite; 31% evitam usar o celular na rua; 29% mudaram trajetos para evitar áreas percebidas como perigosas; 13% pararam de frequentar lugares específicos; 9% deixaram de participar de eventos sociais e culturais; e outros 9% passaram a evitar o transporte público.

Esse mapeamento comportamental é decisivo para a análise da expropriação do tempo. O desenho urbano segregado já força as populações de menor renda a longas jornadas de deslocamento. Sob o signo do medo, esse tempo é expandido de forma compulsória. O trabalhador que muda de trajeto para evitar uma área perigosa, que aguarda um horário seguro para sair, que recusa o transporte público e busca alternativas mais caras — está ofertando ao circuito de reprodução urbana um tempo de vida não pago. Essa dilatação do tempo de trânsito, tensionada pela vigilância constante e pela ansiedade, consome as poucas horas que restariam para o descanso, a qualificação ou o convívio social, operando como um mecanismo invisível de espoliação do cotidiano — o que David Harvey nomeia como acumulação por despossessão aplicada ao tempo².

A violência cotidiana e o salário real confiscado

Os microdados revelam que os principais catalisadores do medo coletivo estão ancorados na criminalidade comum e patrimonial, que atinge diretamente a circulação urbana. O Infográfico 3 sistematiza essas categorias de risco e seus respectivos índices de menção na pesquisa.

Mas o medo da violência não é apenas antecipação: é, em larga medida, memória recente. Como sistematiza o Infográfico 4, a pesquisa revela que 51% dos entrevistados sofreram algum tipo de violência no último ano — sobretudo no espaço público. Entre as situações mais relatadas estão ver alguém sendo assaltado, presenciar a venda de drogas em via pública, ser vítima de crime na internet, sofrer roubo ou furto e ter o celular levado.

Mais grave ainda é a dimensão do domínio territorial. O Infográfico 5 mostra que 37% da população afirmam que o crime organizado exerce algum grau de controle sobre sua rua, bairro ou região — sendo que 15% dizem que esse controle é total. Apenas 44% negam essa presença. Esses números expõem o que as estatísticas de ocorrência policial frequentemente obscurecem: a violência como experiência vivida e territorializada, não apenas percebida à distância.

O receio do roubo de celular (indicado por 89% dos entrevistados) e o temor do deslocamento a pé forçam a adoção de estratégias privadas de mitigação de risco. É nesse ponto que se delineia o fenômeno do salário real confiscado. Embora o valor nominal da hora vendida no mercado permaneça inalterado pela dinâmica urbana, a sobra final — o rendimento real que efetivamente resta após os custos compulsórios de reprodução da força de trabalho — é severamente corroída.

A necessidade de garantir a integridade física e o trânsito impõe ao trabalhador a internalização de custos privados de segurança: a substituição do trecho a pé pelo transporte por aplicativo em horários críticos, a contratação de seguros para smartphones e cartões, o pagamento de tarifas mais elevadas em rotas alternativas e a taxa compulsória repassada à segurança informal nos territórios (como os serviços de vigilância). Esses gastos não alteram o valor bruto da força de trabalho, mas operam como uma taxa extra de expropriação que drena a capacidade de consumo e a autonomia financeira das famílias trabalhadoras de menor rendimento.

A resistência da racionalidade legal na base socioeconômica

A maior contribuição metodológica da pesquisa Sou da Paz/Oma reside na demolição das premissas do populismo penal através do rigor de sua amostragem probabilística domiciliar (1.115 entrevistas presenciais em 40 municípios). Setores demagógicos e algoritmos de engajamento digital há muito sustentam que o rebaixamento civilizatório — sintetizado no aforismo “bandido bom é bandido morto” — tornou-se o desejo majoritário da população. O estudo empírico desidrata essa tese: apenas 20% dos entrevistados chancelam essa perspectiva baseada na eliminação física.

Infográfico 6 confronta, de forma direta, o discurso punitivista de minoria com a racionalidade institucional que emerge da maioria silenciosa identificada pela pesquisa.

A pesquisa vai além e testa a solidez do consenso punitivista, como ilustra o Infográfico 7. Entre os 39% que declaram apoio ao endurecimento das penas, a maioria permanece inflexível: 58% afirmam que nenhum argumento muda o que pensam. Ainda assim, uma fração relevante se abre ao debate. Diante do argumento de que “o problema não é o tamanho da pena, mas a certeza de que ela será cumprida”, 19% reconsideram — repensando um pouco ou mudando de ideia. E quando ouvem que “mandar para a cadeia, sem ser por crimes graves, pode fortalecer o contato com criminosos mais perigosos”, esse índice sobe para 27%. O dado é metodologicamente precioso: mesmo no núcleo mais conservador, entre um quinto e um quarto do público punitivista se mostra permeável à lógica da efetividade quando o debate sai do slogan e entra no mérito.

Ao estratificar os microdados pelas variáveis de renda familiar e território, constata-se que a recusa da barbárie não é um alinhamento idealista abstrato, mas uma tática pragmática de sobrevivência. Os maiores índices de rejeição ao armamentismo e de exigência pelo devido processo legal concentram-se justamente entre os trabalhadores de menor renda familiar — na faixa de até dois salários mínimos —, para quem a experiência direta da violência urbana é mais próxima e contínua. O movimento inverso confirma a leitura: o apoio ao armamento como saída para a violência cresce conforme a renda — parte de 18% entre quem ganha até 2 salários mínimos, sobe para 24% na faixa intermediária e chega a 26% entre os trabalhadores de maior rendimento (acima de 5 salários). São justamente os estratos mais protegidos da violência cotidiana, e menos expostos à letalidade estatal, que enxergam na arma uma solução — ao passo que quem vive o território sob controle das facções rejeita o armamento em proporção ainda maior (76% na baixa renda, ante 68% no topo).

Essa racionalidade prática manifesta-se em eixos estruturais que a pesquisa documenta com precisão. O apoio massivo de 82% à implementação de câmeras corporais nas polícias — contra apenas 12% que as consideram um entrave — demonstra que a população não enxerga o controle da atividade policial como um obstáculo à eficiência, mas como salvaguarda republicana necessária³. Enquanto 39% se alinham ao discurso retórico do endurecimento penal — a pirotecnia legislativa sem efetividade —, a maioria absoluta de 55% compreende que a solução reside na aplicação rigorosa das leis já existentes. E a ilusão armamentista é rejeitada por 73%, que vinculam diretamente a proliferação de armas ao aumento da violência — com essa mesma maioria compreendendo que o armamento legalizado atua como linha de suprimento para as facções criminosas. Esse dado se aprofunda quando se considera a posse doméstica: 60% são contrários a ter armas em casa, incluindo maioria em todas as regiões do país, com rejeição ainda mais expressiva entre mulheres.

O dado mais revelador sobre a orientação real da opinião pública é o que a pesquisa chama de sincronia de argumentos progressistas, sistematizado no Infográfico 8 a seguir.

Esses números desmontam o mito do Brasil conservador homogêneo em matéria de segurança pública. A maioria das classes trabalhadoras não quer mais armas, mais mortes ou forças policiais descontroladas — exige uma polícia qualificada, tecnologicamente equipada e orientada à produção de provas, não de cadáveres. O trabalhador de menor rendimento compreende, pela experiência prática do seu território, quem são os alvos preferenciais da letalidade estatal e sabe que o armamento desregulado alimenta o mercado ilegal que vitima o seu próprio cotidiano.

A demanda por inteligência e efetividade

Os resultados empíricos da pesquisa redesenham os horizontes analíticos para cientistas políticos, sociólogos e gestores públicos. O Infográfico 9 sintetiza as cinco prioridades identificadas pelo Instituto Sou da Paz como agenda estrutural para a transformação da segurança pública, articuladas aos percentuais que as fundamentam empiricamente.

O chamado clamor punitivista nacional revela-se, sob rigor metodológico, uma narrativa inflacionada por bolhas de opinião e interesses político-eleitorais específicos. As classes trabalhadoras, particularmente as de menor rendimento, embora severamente impactadas pela violência urbana — com 51% tendo sofrido alguma forma de agressão no último ano e 37% convivendo com o controle territorial do crime organizado —, preservam uma surpreendente lucidez institucional.

Há uma maioria silenciosa que rejeita a barbárie como política pública. O que emerge das ruas não é o clamor pela suspensão das garantias fundamentais, mas a exigência de sua plena universalização. O modelo de segurança pública necessário deve ser fundamentado na inteligência, na técnica e na rigorosa responsabilização institucional das polícias. Essa accountability garante que o guardião também seja guardado pela transparência pública — o que torna inegociável a existência de Ouvidorias ativas e autônomas. A paz no espaço urbano jamais será fruto da exceção jurídica; ela só se materializa com a consolidação irrestrita da legalidade e dos direitos civis.

Referências

TRAGTENBERG, Mauricio. Administração, poder e ideologia. São Paulo: Unesp, 2005.

TRAGTENBERG, Mauricio. Autonomia operária. São Paulo: Unesp, 2011.

TRAGTENBERG, Mauricio. Burocracia e ideologia. São Paulo: Unesp, 2006.

TRAGTENBERG, Mauricio. Memórias de um autodidata no Brasil. São Paulo: Escuta, 1999.

TRAGTENBERG, Mauricio. Reflexões sobre o socialismo. São Paulo: Unesp, 2008.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 14 ago 2026

Três questões centrais para as eleições que começam – e como encará-las

Vamos começar uma batalha dura. Votamos taticamente em Lula contra a extrema direita e o imperialismo, afirmando nosso programa antifascista e anticapitalista
Três questões centrais para as eleições que começam – e como encará-las
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores