Soberania, trincheiras e bandeiras
O repúdio ao imperialismo cresce na Argentina, onde aumenta o questionamento ao entreguismo do governo de Milei
Foto: Mobilização contra Javier Milei na Argentina. (Estratégia.la/Reprodução)
A soberania de um país ameaçada. Terras, rios, recursos naturais na mira do imperialismo. Políticos jurando fidelidade à Trump em meio à bandeiras de Israel e dos Estados Unidos. Essas cenas se repetem.
Não, não estamos falando do Brasil e dos Bolsonaros, traidores da pátrias confessos. Falamos da Argentina de Milei.
O repúdio à ingerência trumpista e seus agentes cresce. Tanto no Brasil, onde a disputa eleitoral se torna um plebiscito sobre nossa soberania, quanto na Argentina, onde está começando um processo mais agudo de questionamento ao entreguismo do governo de Milei.
Bandeiras erguidas
Milhares de argentinos foram às ruas no último 6 de agosto e, junto com uma incessante mobilização e debate nas redes sociais e o posicionamento público de diversos artistas e jogadores, se conseguiu desgastar o governo e desidratar a chamada “Lei de inviolabilidade da propriedade privada”.
Para entender a mobilização, precisamos voltar à semifinal da Copa do Mundo, no jogo da Argentina contra Inglaterra.
O histórico jogo das quartas de final da Copa do Mundo de 1986, entre Argentina e Inglaterra, com o pano de fundo da guerra de Malvinas ocorrida – pela recuperação das ilhas do mar argentino colonizadas pela Inglaterra – teve uma nova edição nesta Copa. E os jovens caídos nas Malvinas não foram esquecidos: foram lembrados antes, durante e depois da vitória da Argentina, mediante uma faixa infiltrada pela torcida e erguida pelos jogadores com a inscrição: “As Malvinas são argentinas”. O êxtase da vitória, com tempero anti-imperialista, provocou impostergáveis os debates sobre soberania na Argentina.
No dia seguinte seria votada a “Lei de inviolabilidade da propriedade privada” no Senado argentino, mas teve que ser adiado por causa do aumento dos debates de defesa da soberania e porque o governo não conseguiria os votos necessários. A lei buscava acabar com os limites impostos para a compra de terras por parte de estrangeiros e facilitar os despejos, a venda de terras incendiadas e a comercialização e venda de terras nas beiras de rios e em outras regiões onde antes era proibido. Esta é apenas mais uma das muitas reformas nas quais o governo favorece a entrega das riquezas da Argentina para bilionários estrangeiros.
A nova data para a votação da lei foi agendada para o 6 de agosto. Mas desde que acabou a copa do mundo até a data, o debate foi crescendo, se aprofundando, com cada vez mais figuras se posicionando nas redes em contra da lei, com destaque para os jogadores da seleção Licha Martinez e Dibu Martinez, os músicos Milo J, Trueno, Lali, entre muitos outros. A pressão da opinião pública fez com que, horas antes da sessão do Senado, fosse retirado o capítulo 3, o mais repudiado e que acabaria com os limites de terras em mãos de estrangeiros. A sessão começou sem previsão do que aconteceria com a lei e com enormes mobilizações em frente ao Congresso e em inúmeras cidades da Argentina, inclusive nos consulados argentinos do Rio de Janeiro e de São Paulo. A repressão em frente ao Congresso argentino foi exagerada, tentando culpabilizar supostos “vândalos” e tirar a lei do foco do debate.
No decorrer da sessão, que acabou às 1:40 da madrugada de sexta feira, a lei foi perdendo cada vez mais capítulos para conseguir o número de senadores necessários para a aprovação. Acabou sendo aprovada por 37 votos a favor e 33 contra, com apenas dois pontos importantes: os despejos e novos requisitos para expropriação de terras. Mas ainda não se tem dimensão do aumento da rejeição social ao governo, que pagou um custo alto por uma meia aprovação de uma lei desidratada (que ainda será debatida pelos deputados).
Um novo momento
Antes da Copa, já existiam inúmeros fatos polêmicos que questionavam o governo Milei. O mais emblemático foi o do ministro Adorni, do núcleo duro mileista, envolvido em casos de corrupção e enriquecimento ilícito e que, após meses arrastando a crise, renunciou ao cargo. Mas o governo Milei também acumula cada vez mais rejeição por causa do profundo ajuste que o povo está sofrendo, com demissões em massa e alta do desemprego, fechamento de milhares de micro empresas e altíssimo preço de produtos e serviços básicos.
Estes questionamentos ao governo tiveram uma dispersão considerável na hora que a seleção começou a jogar com garra e ganhar os jogos da Copa. Agora que a Copa acabou, ficou o saldo anti-imperialista da semifinal e voltou a insatisfação popular.
A marcha pela soberania, com o coro de “ A pátria não se vende”, pode ser um divisor de águas. O 6 de agosto foi um ponto de inflexão.
Tudo isso se soma à crise do governo Trump, que sustenta ideologicamente e simbolicamente Milei e que vem sofrendo derrotas implacáveis na guerra contra o Irã e internamente com números recordes de rejeição, com previsão de perder muito espaço nas eleições de meio termo de novembro. Milei se tornou um dos maiores representantes da extrema direita e do colonialismo estadunidense na América Latina, mas enfrenta cada vez mais setores de massas rejeitando as ingerências imperialistas do Trump e dos EUA no nosso continente e no mundo.
As pesquisas indicam que dois terços dos argentinos repudiam Milei, que perdeu maioria social e precisa defender o seu ajuste, cada vez mais questionado, em que pese a passividade dos grandes sindicatos, da CGT e da cúpula do peronismo.
“Se viene?” – O que vem pela frente
Não sabemos quando nem como irá se expressar com mais qualidade a crescente insatisfação social, mas ela tomará as ruas mais cedo ou mais tarde, em um contexto onde crescem na América Latina os levantes e organizações contra o imperialismo e o fascismo. A cada dia que passa, terá mais peso a palavra de ordem “Fora Trump da América Latina”, não de forma propagandista, mas conectada às lutas populares e com enfrentamentos concretos aos diversos governos, como é o caso da insurreição popular na Bolívia, das dificuldades de Kast, que perde popularidade muito rápido no Chile, e do recém empossado De La Espriella, que enfrenta mobilizações nos primeiros dias de governo na Colômbia.
A juventude que foi parte dos que votaram em Milei já transita para uma nova dinâmica. O segundo semestre será decisivo. Está se preparando uma calendário para derrotar o ajuste e pavimentar o caminho da derrota de Milei. Em setembro deve acontecer a “Marcha da Bronca”, buscando trazer para as ruas o mal-estar social difuso que começa a se generalizar; as centrais sindicais discutem, sob pressão dos setores mais combativos, a necessidade de uma nova greve geral para os próximos meses. E ao final do ano, está convocada a Conferência Regional Antifascista, de 17 a 19 de dezembro em Buenos Aires, dando forma ao processo que começou na Conferência de Porto Alegre. E, de cara, confluindo para uma grande marcha em celebração aos vinte e cinco anos do Argentinazo de 2001, gesto popular de rebeldia e coragem do povo argentino.