Caso Dark Horse se amplia e vira nova dor de cabeça para Flávio
STF autoriza PF a acessar provas apreendidas em investigação sobre a produtora do filme; financiamento de R$ 61 milhões ligado a Daniel Vorcaro e suspeitas envolvendo emendas parlamentares mantêm pressão sobre candidato do PL
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A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de encerrar o episódio envolvendo o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, esbarra agora em uma nova frente de investigação. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a acessar as provas apreendidas pela Polícia Civil de São Paulo em uma operação contra empresas ligadas à produtora do longa.
A decisão amplia o alcance das apurações justamente no momento em que Flávio disputa a Presidência da República e tenta apresentar uma imagem de candidato capaz de administrar o país e combater a corrupção. O problema é que o filme produzido para celebrar a trajetória política de Jair Bolsonaro se transformou em um emaranhado de suspeitas envolvendo dinheiro privado, emendas parlamentares, contratos públicos e a relação do candidato com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
A investigação da PF autorizada por Dino busca apurar se houve uso irregular de emendas parlamentares na produção do filme. O ministro é relator, no STF, de processos relacionados a irregularidades na destinação e execução de emendas. Os dados que serão compartilhados foram apreendidos em junho pela Polícia Civil paulista em endereços ligados à Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, e ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama.
É importante separar as diferentes frentes da investigação. A Polícia Civil de São Paulo apura suspeitas relacionadas a um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB para a instalação de pontos de wi-fi em comunidades. Já a investigação federal se concentra na possível utilização irregular de emendas parlamentares. As provas apreendidas na investigação paulista, entretanto, podem ajudar a PF a esclarecer as conexões entre os diferentes negócios.
O elo com Mário Frias e as emendas
Um dos personagens que aparecem no caso é o deputado federal Mário Frias (PL-SP), aliado de Jair Bolsonaro e produtor-executivo de Dark Horse. Frias destinou R$ 2 milhões em emendas ao ICB, entidade comandada por Karina Gama.
O parlamentar nega que tenha ocorrido qualquer triangulação para financiar o filme. Em manifestação apresentada ao STF, sua defesa classificou a acusação como “puramente especulativa” e afirmou que não havia irregularidades na indicação das emendas. A própria Advocacia da Câmara, porém, destacou que a prestação de contas dos recursos ainda estava em andamento e que caberia às entidades beneficiárias demonstrar a correta aplicação do dinheiro.
Há ainda um episódio particularmente incômodo para o deputado: uma emenda de R$ 1 milhão destinada por Frias ao ICB para um projeto de empreendedorismo em escolas de Pirassununga não teria resultado na execução do programa previsto. Reportagens apontaram que parte dos recursos foi utilizada para contratar o advogado pessoal do parlamentar e para adquirir materiais que, segundo responsáveis locais, não chegaram às escolas.
São fatos que não permitem, por si só, concluir que dinheiro de emendas tenha financiado Dark Horse. É justamente isso que a investigação deverá esclarecer. Mas a proximidade entre os personagens, as empresas e os recursos públicos explica por que a PF decidiu aprofundar as apurações.
E onde entra Daniel Vorcaro?
A outra ponta da história é ainda mais delicada para Flávio Bolsonaro. Em maio, o site The Intercept Brasil revelou um áudio no qual o senador aparece negociando com Daniel Vorcaro um aporte para a produção de Dark Horse. O valor inicialmente discutido chegava a R$ 134 milhões, enquanto, segundo as informações divulgadas, pelo menos R$ 61 milhões acabaram sendo destinados à produção.
A relação ganhou peso político porque Vorcaro era o controlador do Banco Master, instituição envolvida em uma série de controvérsias e posteriormente extinta. Em julho, o STF autorizou a abertura de investigação da PF especificamente para rastrear os cerca de R$ 61 milhões destinados ao filme e verificar se os pagamentos poderiam estar relacionados a eventuais vantagens ou favores ao senador.
O episódio também expôs uma contradição política difícil de administrar. Flávio inicialmente tentou minimizar sua relação com Vorcaro, mas o conteúdo dos áudios tornou incontornável a existência do contato e das negociações. A crise chegou a provocar mudanças na comunicação da pré-campanha, com a substituição do marqueteiro Marcello Lopes por Eduardo Fischer.
Em maio, pressionado pelas revelações, Flávio prometeu que a produtora apresentaria, em até 30 dias, uma prestação de contas detalhada sobre o dinheiro utilizado na produção.
“Pedi à produtora para que se organizassem para fazer uma prestação de contas das despesas de todo mundo, de forma transparente”, afirmou na época.
O prazo terminou em junho sem que a prestação de contas prometida fosse apresentada publicamente de forma detalhada. Em julho, o UOL registrou que nem Flávio nem a produtora haviam divulgado informações suficientes sobre a utilização dos recursos.
Agora, Flávio tenta virar a página
Com a campanha presidencial oficialmente em andamento, o candidato do PL mudou o discurso. Em 20 de agosto, questionado sobre o assunto, afirmou que o caso estava encerrado.
“O caso Dark Horse é página virada”, declarou.
Flávio também afirmou que a prestação de contas havia sido realizada, mas não apresentou, na ocasião, os detalhes sobre os valores recebidos, os gastos da produção e o destino dos recursos.
A dificuldade é que a investigação não considera o assunto encerrado. Ao contrário: a decisão de Flávio Dino abre caminho para que a PF examine dados apreendidos pela Polícia Civil, incluindo documentos e informações extraídas de equipamentos eletrônicos.
Segundo informações divulgadas nesta semana, uma perícia contratada pela própria produtora estimou o custo do filme em aproximadamente R$ 75 milhões. A ausência de documentação pública detalhada sobre os gastos, porém, mantém dúvidas sobre a origem e a aplicação dos R$ 61 milhões associados a Vorcaro.
Uma conta política que chega às urnas
É justamente aí que Dark Horse se transforma em um problema eleitoral para Flávio Bolsonaro.
O candidato tenta construir sua campanha em torno de uma retórica de combate à corrupção, críticas ao sistema político e ataques ao governo Lula. Mas terá de responder, durante a disputa presidencial, por uma investigação que envolve o financiamento de uma obra sobre seu próprio pai, um empresário investigado, milhões de reais e parlamentares do seu partido.
Mais do que a existência de uma investigação – que ainda precisa produzir suas conclusões -, o problema político está na sucessão de perguntas sem respostas convincentes. Quem efetivamente financiou o filme? Qual foi o destino dos R$ 61 milhões? Por que Vorcaro colocou tamanho volume de dinheiro na produção? Houve alguma contrapartida? Qual foi o papel de Flávio nas negociações? E existe alguma conexão entre os recursos privados e as emendas destinadas a entidades ligadas à produtora?
A própria imprensa passou a tratar a demora nas explicações como um problema para a campanha. O colunista José Roberto de Toledo, do UOL, observou que Flávio havia prometido esclarecimentos em 30 dias, mas o caso chegou às proximidades do período eleitoral sem uma prestação de contas pública capaz de encerrar as dúvidas.
O contraste é especialmente incômodo para o bolsonarismo porque a família Bolsonaro construiu parte importante de sua identidade política justamente sobre acusações de corrupção contra adversários. Agora, um dos principais candidatos da direita à Presidência precisa lidar com uma investigação que alcança pessoas de seu círculo político e uma produção destinada a contar a história de seu próprio pai.
E o caso ainda pode crescer. A autorização de Flávio Dino para que a PF tenha acesso ao material apreendido em São Paulo significa que os investigadores poderão cruzar informações sobre contratos públicos, emendas parlamentares, empresas e movimentações financeiras. Não significa que irregularidades já estejam comprovadas, mas amplia significativamente o material disponível para a investigação.
Enquanto Flávio tenta apresentar Dark Horse como “página virada”, portanto, a investigação segue em outra direção. Para um candidato que pretende chegar ao Palácio do Planalto falando em moralidade e combate à corrupção, a história de um filme sobre seu pai financiado com dezenas de milhões de reais por um banqueiro cercado de controvérsias é uma companhia eleitoral bastante inconveniente – e que dificilmente desaparecerá apenas porque a campanha decidiu parar de falar sobre ela.