‘Contas dark’ transformam polarização política em audiência e lucro no TikTok 
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‘Contas dark’ transformam polarização política em audiência e lucro no TikTok 

Deepfakes de Lula, Bolsonaro e outras figuras públicas são usadas para acumular milhões de visualizações, visando monetização

Gabriela Soares 27 ago 2026, 09:06

Fotos: Reprodução

Via Agência Lupa

Em um vídeo publicado no TikTok em 30 de maio deste ano, com mais de 800 mil visualizações, o apresentador Ratinho aparece criticando a deputada Érika Hilton (PSOL-SP) por, supostamente, ter pedido uma indenização de R$ 10 milhões e sua prisão em um processo contra ele. Tudo falso. O vídeo nunca foi gravado pelo comunicador: trata-se de um deepfake — conteúdo manipulado com inteligência artificial para simular a imagem e a voz de uma pessoa — que distorce um processo real movido pela deputada contra Ratinho por ofensas transfóbicas feitas contra ela em uma edição de seu programa no SBT.

No fim do vídeo, o falso Ratinho pede que usuários contrários à “censura” sigam o perfil e comentem na publicação. A estratégia busca estimular o engajamento a partir de uma desinformação política, o que pode contribuir para aumentar o alcance e, eventualmente, gerar lucro para a conta.

Em levantamento realizado entre 18 e 19 de agosto, a Lupa identificou outros oito deepfakes publicados pela mesma conta. Seis também exploravam a imagem de Ratinho, enquanto os demais simulavam falas do deputado federal e candidato à reeleição Nikolas Ferreira (PL-MG) e do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Juntos, os nove vídeos somavam 2,27 milhões de visualizações. 

Apesar do alto alcance, nenhum dos vídeos identificados trazia a indicação de que o conteúdo havia sido gerado ou manipulado por IA. A prática contraria as diretrizes do TikTok, que exigem a sinalização de mídias sintéticas realistas e estabelecem restrições para conteúdos manipulados de forma enganosa envolvendo pessoas reais.

A estratégia de engajamento com conteúdos enganosos também ajudou a transformar o perfil em um ativo comercial: com 80,4 mil seguidores e 143,6 mil curtidas, a conta acabou anunciada por R$ 190 em um grupo de WhatsApp. No anúncio, o vendedor destacou como diferencial a monetização recém-ativada — recurso do TikTok que permite aos criadores receber pagamentos por vídeos elegíveis.

O caso não é isolado. A Lupa localizou outros três perfis que seguiam uma estratégia semelhante: usavam conteúdos políticos falsos para atrair visualizações e engajamento e, depois, buscavam transformar essa audiência em dinheiro, seja por meio da monetização, da venda de produtos no TikTok Shop ou da comercialização das próprias contas.

Juntos, os quatro perfis — acompanhados pela Lupa entre 18 e 19 de agosto — publicaram 120 vídeos entre 7 de fevereiro e 19 de agosto. Desse total, 115 (95,8%) foram produzidos com auxílio de inteligência artificial e apenas cinco (4,2%) não utilizavam IA.

Entre os conteúdos gerados artificialmente, 76 (63,3% do total) eram deepfakes de figuras públicas. Outros 39 (32,5%) incluíam esquetes de novelas geradas por IA, personagens artificiais de aparência realista que “interagiam” com o público pedindo curtidas e vídeos promovendo produtos no TikTok Shop.

O ritmo de publicação também chama atenção. Das 120 postagens analisadas, 63 foram publicadas apenas entre julho e agosto. Em alguns perfis, a produção era quase diária. Um deles, por exemplo, publicou 18 deepfakes em apenas 17 dias, explorando indevidamente as imagens de Flávio Bolsonaro, Ratinho, Zezé Di Camargo, Nikolas Ferreira e Luciano Hang.

A Lupa identificou e procurou os responsáveis por dois dos quatro perfis analisados, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

A estratégia de lucro

A produção em escala de conteúdos políticos para atrair audiência e gerar monetização é característica associada aos chamados “canais dark”. O modelo não é novo e vem sendo documentado pela Lupa desde 2025, inclusive em canais no YouTube que usavam IA para produzir desinformação política em busca de audiência e lucro.

No TikTok, essa monetização pode ocorrer a partir de pelo menos quatro formas: 

  • Monetização de vídeos: para lucrar diretamente com as visualizações, a conta precisa ter ao menos 10 mil seguidores e 100 mil visualizações nos últimos 30 dias. Cada vídeo elegível começa a gerar recompensas após alcançar mil visualizações no feed “Para Você”.
  • Lives e presentes virtuais: criadores maiores de idade também podem lucrar durante transmissões ao vivo ao receber presentes virtuais comprados pelos seguidores.
  • TikTok Shop: criadores podem divulgar produtos em vídeos e lives e receber comissões pelas vendas realizadas a partir daquele conteúdo.
  • Venda da própria conta: perfis com muitos seguidores ou recursos de monetização habilitados podem ser comercializados fora da plataforma, transformando a audiência acumulada em valor para a própria conta. 

Com a proximidade das eleições, porém, esse modelo ganha ainda mais relevância quando aplicado à produção de conteúdo político. Levantamento do Observatório Lupa identificou que conteúdos de IA político-eleitoral já viralizavam, em média, duas vezes por semana no Brasil entre fevereiro e junho deste ano.

Metamorfose das contas dark no TikTok mirando eleições

Para atrair engajamento e preparar as contas para a monetização, diferentes formatos de conteúdo são explorados. Os perfis observados foram trocando de personagem, narrativa e até de espectro político conforme o desempenho das publicações. Uma das páginas analisadas exemplifica esse movimento.

O perfil publicou quatro deepfakes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre 21 e 24 de julho, que somaram 988 visualizações até 19 de agosto. Nos vídeos, Lula, candidato à reeleição, aparece pedindo apoio, curtidas, seguidores e comentários.

Depois de quatro dias explorando a imagem do atual presidente, o perfil mudou de estratégia. Em 26 de julho, passou a publicar deepfakes do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mantendo a mesma tática de estimular a interação aos usuários. Foram nove vídeos em quatro dias, que acumularam 50,2 mil visualizações. A mudança ampliou consideravelmente o alcance: um dos vídeos, publicado no dia 27, chegou a 42 mil visualizações, o maior número registrado entre os conteúdos analisados da conta.

Entre 30 e 31 de julho, foi a vez de Flávio Bolsonaro (PL). Em quatro deepfakes publicados nesse período, o senador aparece mostrando uma peça de picanha, criticando Lula e, novamente, pedindo que os usuários interajam com a publicação e comentem “Brasil 22”. Depois, entre 1º e 3 de agosto, o perfil voltou a explorar a imagem de Jair Bolsonaro, com outros quatro deepfakes que repetiam a estratégia de estimular os pedidos de curtidas e comentários. Essa terceira fase da conta, entre 30 de julho e 3 de agosto, acumulou 10,7 mil visualizações.

A política desapareceu do perfil a partir de 9 de agosto. Os deepfakes deram lugar, primeiro, a uma personagem feminina gerada por IA que, em três vídeos, interagia com os usuários em tom sedutor e pedia curtidas e seguidores. A partir do dia 14, porém, a conta mudou novamente: publicou dois vídeos em estilo novela, também gerados artificialmente. Os cinco vídeos desse período somaram cerca de 29,6 mil visualizações, sendo 20,5 mil apenas em uma das publicações.

Outra conta apresentou uma transição ainda mais direta entre conteúdo político e venda de produtos. Entre 19 e 29 de junho, a conta publicou dez deepfakes de Jair e Flávio Bolsonaro. Como nos casos anteriores, os personagens falsos pediam curtidas, seguidores e comentários para impulsionar o engajamento das publicações. Juntos, os vídeos somaram mais de 607 mil visualizações até 19 de agosto.

Depois de um hiato de quatro dias, o perfil voltou a publicar em 4 de julho, mas com um conteúdo diferente: os deepfakes políticos deram lugar a uma personagem feminina gerada por IA que anunciava produtos no TikTok Shop. Desde então, a conta passou a comercializar itens como calças, bijuterias e produtos domésticos, com preços entre R$ 15 e R$ 74,90.

Um terceiro perfil publicou dezenas de deepfakes entre fevereiro e abril, explorando imagens de políticos como Flávio Bolsonaro (PL), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Sérgio Moro (União-PR), além do apresentador Ratinho, do cantor Zezé Di Camargo, do empresário Luciano Hang e de Zeca Pagodinho. Entre eles estava um vídeo que simulava o sambista declarando apoio a Flávio Bolsonaro. A publicação alcançou 118,6 mil visualizações e foi desmentida pela Lupa em 13 de agosto.

Após meses sem novas publicações, o perfil voltou à ativa em 3 de agosto com um conteúdo completamente diferente. Políticos e famosos deram lugar a um personagem masculino gerado por IA que, em vídeos de tom sedutor, pede curtidas, comentários e seguidores — mantendo sempre a estratégia de estimular o engajamento.

Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, o uso de conteúdos políticos falsos como estratégia de engajamento e monetização pode esvaziar o debate eleitoral e reduzir candidatos a produtos.

“Os perfis usam isso para uma estratégia muito mais de mercado, muito mais de engajamento, sem qualquer vinculação ideológica mais forte. O risco maior é descredibilizar a campanha eleitoral, tornando-a um processo associado a ganhos privados e menos à discussão real de propostas que tornem a decisão do voto mais consciente”.

O fenômeno também desafia a regulação prevista pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em entrevista anterior à Lupa, João Victor Archegas, coordenador de Direito e Tecnologia do ITS Rio, já havia apontado a dificuldade de aplicar regras quando o conteúdo não está diretamente ligado a campanhas ou candidatos.

“O TSE tem trabalhado para criar regras sobre o uso de IA, mas é um cenário complexo, especialmente quando [essa criação de conteúdo] não envolve diretamente campanhas ou candidatos”, avaliou 

A avaliação converge com a de Consentino sobre os perfis analisados nesta reportagem.

“Você tem que ser rigoroso com os candidatos, com as contas oficiais, mas essa questão dos terceiros torna-se um desafio gigantesco”, afirma.

Diante desse cenário, Consentino destaca que o papel da checagem de fatos para identificar a real motivação por trás do engajamento e expor seus mecanismos de circulação. 

“A verificação de conteúdo é fundamental para filtrar o que é pura estratégia comercial e o que faz parte do debate político real”, pontua.

O que diz o TikTok

Procurado pela Lupa, o TikTok informou, em nota, que removeu os conteúdos enviados pela reportagem por violarem suas diretrizes sobre mídia editada e conteúdo gerado por inteligência artificial. A reportagem confirmou que os vídeos denunciados já não estavam disponíveis na tarde desta segunda-feira (24).

A plataforma afirmou que exige a identificação de conteúdos realistas produzidos com IA e que materiais sem a sinalização adequada podem ser removidos, restringidos ou receber um rótulo aplicado pela própria empresa. “Não permitimos [conteúdo com] figura pública retratada como se tivesse tomado posições políticas, promovendo produtos ou comentado questões públicas, mesmo sem nunca ter feito isso de verdade”, afirmou.

Para as eleições de 2026, o TikTok disse ter reforçado as medidas de integridade eleitoral. Entre as iniciativas, estão uma Central de Eleições com informações sobre o processo eleitoral, a identificação obrigatória de conteúdos realistas gerados por IA e a restrição da recomendação de informações que não possam ser verificadas imediatamente — nesses casos, os vídeos recebem um aviso e deixam de ser recomendados no feed “Para Você”. A empresa também mantém a proibição de publicidade política paga.

A plataforma afirmou ainda que conteúdos enganosos gerados por IA podem ser removidos mesmo quando estão identificados como artificiais, incluindo simulações capazes de enganar eleitores. Segundo o TikTok, no primeiro trimestre de 2026, 99,3% dos conteúdos que violaram suas regras para IA e 99,3% dos que infringiram normas de integridade cívica e eleitoral foram removidos proativamente, antes de denúncias de usuários.

Para este ciclo eleitoral, a empresa também ampliou parcerias com organizações externas. Com o InternetLab, desenvolve ações relacionadas à violência política de gênero; com a Politize!, materiais sobre integridade eleitoral, desinformação e discurso de ódio; e, em parceria com a própria Lupa, prevê uma série de 20 vídeos educativos para ajudar usuários a identificar narrativas enganosas e conteúdos manipulados. O TikTok afirma ainda ter desmantelado, globalmente, mais de 40 operações ocultas de influência envolvendo mais de 20 mil contas no primeiro semestre deste ano.

Sobre monetização, a empresa afirmou que os criadores precisam manter suas contas em situação regular, sem violações repetidas das Diretrizes da Comunidade e das políticas dos Termos de Serviço. O descumprimento desses requisitos pode levar à suspensão temporária ou permanente do Programa de Recompensas do Criador.


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